Nenhum dos personagens que fez antes na tevê levou Ary Fontoura a tantas reflexões quanto o dissimulado Silveirinha, de ''A Favorita'', que terminou mês passado. ''Eu nunca lidei tanto com o lado negro do ser humano como nesta novela'', justifica o ator de 75 anos, 60 de carreira, sendo 43 deles de trabalhos ininterruptos na Globo. Em uma trajetória com tantos personagens de destaque, Ary já experimentou as graças e desgraças do sucesso. ''O seu Nonô de ''Amor Com Amor Se Paga'' foi o mais popular. Mas eu tive de pedir para a autora diminuir minha participação porque ganhei uma úlcera de tanto estresse'', recorda ele, sobre o folhetim que fez em 1984. E ainda veio o Florindo Abelha de ''Roque Santeiro'', de 1985; o Arthur da Tapitanga de ''Tieta'', em 1989, e tantos outros.
''Vários personagens que fiz não foram aproveitados como deveriam, mas o problema não foi meu, foi do autor. Alguns autores perderam a oportunidade de me fazer desenvolver um bom trabalho. Ator é um instrumento do autor.
Hoje, aos 75 anos, 60 deles dedicados à atuação, ele revela que vive do presente. ''Do passado só recolho o que foi bom e não planejo personagens para o futuro porque o amanhã não me pertence. Já estou escalado para um próximo trabalho, 'Caras e Bocas', com um personagem completamente diferente do último. Sempre haverá espaço para os atores veteranos e não acho que nossa profissão seja cruel com os mais velhos. As histórias precisam de tios, avôs... Não tenho do que reclamar''.
Mas ele reconhece que houve momentos de dificuldade, períodos de ausência de trabalhos, por exemplo. ''Nessa profissão você mata um leão por dia e há épocas em que os convites não surgem. Mas sempre fui movido pela filosofia de que é preciso lutar para chegar lá. Mas chegar lá onde? Porque quando você alcança determinada coisa já está logo querendo outra. Apesar dessas adversidades, no entanto, nunca me decepcionei porque sabia tudo o que podia me acontecer. Pessoas à minha volta sempre me chamaram a atenção para as dificuldades. No fundo, sou um operário que procura fazer o seu produto da melhor maneira. O meu compromisso é com o público''.
Ary Fontoura começou a fazer cinema em Curitiba, cidade onde nasceu. No Paraná, já era um ator conhecido, mas quando se mudou para o Rio de Janeiro com a intenção de investir na carreira de ator, não passava de um desconhecido. ''Comecei como figurante. A primeira novela que fiz foi na extinta TV Rio. Era ''Os Desconhecidos'', do Nelson Rodrigues'', relembra o veterano. O primeiro grande sucesso, no entanto, só viria em 1970, com ''Assim na Terra Como no Céu'', já na Globo.
Foram muitos tipos diferentes em 36 novelas, mas, até pouco tempo, ele não tinha na sua lista de personagens um galã. ''Nunca me incomodou essa posição. Eu sou um cara simpático, mas não sou bonito'', assume o ator. Os papéis que eu recebia eram sempre de fragilizados, esquisitos ou vilões. ''Quando eu fazia o romântico, era sempre vivendo um amor platônico'', lembra.
Apesar de não procurar, o que parecia impossível por causa da idade aconteceu em 2007, na novela ''Sete Pecados'', em que interpretou Romeu e fez par romântico com Nicete Bruno. O casal caiu no gosto do público e roubou a cena. ''Fiz um Romeu aos 75 anos. Nunca batalhei por isso, mas sempre soube que conseguiria fazer porque tenho sentimentos, apesar de não ter o porte do galã'', confessa Ary.

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