Elisa Marilia Carneiro
De Curitiba
Um dos mais prestigiados artistas plásticos paranaenses, Carlos Eduardo Zimmermann fala da arte de viver e da necessidade de o homem harmonizar-se com a sua essência
Simpatia, hospitalidade, carisma e, é claro, sensibilidade artística são, sem dúvida alguma, as razões de os curitibanos praticamente idolatrarem o artista plástico Carlos Eduardo Zimmermann.
Ele recebeu a reportagem da Folha na sua casa no Parque Barigui. Num espaço tão amplo e claro como a sua personalidade, Carlos Eduardo vive cercado de objetos de arte que remetem às suas viagens e amigos. À nossa espera já estava uma bandeja de café, confirmando sua fama de bem receber e amabilidade.
Zimmermann começa sua história contando que nasceu em Antonina em 1952 e que é médico. Clínico geral formado pela Universidade Federal do Paraná. O pai é de Paranaguá. A mãe de Antonina. Mas a família sempre viveu em Curitiba e passava férias no litoral. ‘‘Antonina é extremamente agradável mas não é explorada em todo o seu potencial turístico’’, reconhece.
Em seguida, o artista plástico abre o livro de uma vida cheia de boas experiências, amigos e trabalho bem-sucedido.
Vamos começar pela sua família?
Nasci numa família normal. Segui os caminhos convencionais. Meu pai e meu irmão são engenheiros e eu fui fazer Medicina. Mas paralelamente à faculdade eu já trabalhava com pintura. Minha mãe era professora do Centro Juvenil de Artes Plásticas, ali no subsolo da Biblioteca Pública, e quem dirigia era o Guido Viaro. Eu ia junto com ela e tinha aulas de pintura. Na verdade fui criado num ambiente ligado às artes e isso me despertou o interesse.
A opção pela pintura veio de repente, com algum fato ou foi um processo?
Foi mesmo um processo, eu vim sentindo uma atração e fui fazendo escolhas.
Mas e a Medicina? Você chegou a trabalhar como médico?
Trabalhei só um ano. Não que eu desgoste da Medicina, mas a pintura foi tomando um corpo maior, um volume maior de atividades que foi me acuando um pouco. Então, fui gradualmente me desligando de uma atividade e me integrando mais profissionalmente em outra.
E a pintura preencheu todo o espaço da sua vida a partir de que momento?
Foi quando recebi uma bolsa de estudos para o Royal College de Londres. Fiz lá a pós-graduação, em 1978 e 79. Depois voltei diversas vezes, na década de 80. Tenho uma identificação muito grande com a cidade, porque o meu trabalho tem muito a ver com a memória, e eu gosto muito de uma certa arqueologia urbana, de ir juntando, vivenciando coisas em diferentes lugares. O trabalho é um processo de desenvolvimento progressivo, natural, em função do próprio amadurecimento e refinamento.
Como se deu esse amadurecimento na sua pintura?
Eu acho que quando a gente faz o que gosta sente uma atração grande por aquilo, que se transforma num terreno fértil e dá frutos, oportunidades para desenvolver o potencial.
Você se considera um artista que já atingiu o ideal?
Tudo segue uma linha progressiva. Tenho uma meta, uma intenção, e isso vem sendo gradativamente trabalhado. Acho, inclusive, que é isso a felicidade. Ter prazer em atingir sua meta, com humor, sabedoria, tolerância, paciência, com momentos engraçados, outros tristes. A soma dessas escolhas é que dita o futuro.
É esse o mecanismo do sucesso?
Esse mecanismo, junto com criatividade e intuição, equilibra a vida. Eu tenho tentado administrar com uma certa serenidade. Claro que ainda não atingi o Nirvana, mas estou tentando.
Como é essa tentativa?
Ter mais contato comigo mesmo. Me conhecer melhor. A Medicina beneficiou muito a minha formação, a ter uma visão holística das coisas. As pessoas são o conjunto do que se alimentam e como metabolizam isso, de como se levantam, suas lembranças, seus pensamentos. E é ainda mais profundo, você é o seu espírito, a sua alma ou essência. Acho que conseguimos antecipar acontecimentos fazendo coisas em que realmente acreditamos.
É interessante observar que a Medicina seguiu uma linha de especialização tão minuciosa e você, ao contrário, tem a tendência de ver as pessoas como um todo.
É verdade. A Medicina Ocidental é boa para cuidar de males agudos. A Medicina Oriental enxerga o espírito, a alma. Não se estuda o mecanismo da doença mas a origem das doenças. Para isso é preciso ter uma consciência corporal. Por exemplo, esses dias, fiquei impressionado com uma notinha num jornal, que contava que uma mulher, de 45 anos, em Londres, foi para o hospital com uma forte dor de barriga e saiu de lá com um bebê de mais de dois quilos. Ela não percebeu que estava grávida. Isso ilustra o distanciamento que as pessoas têm de si mesmas. E olhe que não é só a transformação do corpo mas também a hormonal.
Em que isso afeta as outras áreas da vida?
As pessoas estão desconectadas de uma consciência corporal. Por isso, tantas guerras, ódio, preconceitos. Existe ainda um pensamento tribal, apesar de o mundo estar globalizado, entre aspas. São comportamentos anacrônicos.
Você é contra os avanços da tecnologia?
De forma alguma. Existe um lado bom, de possibilitar um maior conforto, de facilitar o contato entre as pessoas, os profissionais. Mas é uma coisa surpreendente os anacronismos que se criam.
Como as pessoas poderiam tentar resolver esses problemas?
O filme ‘‘Beleza Americana’’ me surpreendeu muito, nesse sentido. Esse filme fala muita da necessidade de afeto, de diálogo, das pessoas terem contato com seus sentimentos. O filme tem um poder de síntese fantástico, no que se refere à busca da liberdade plena. Achei o filme muito inteligente, também muito poderoso. Talvez as pessoas que não tenham seus sentimentos trabalhados possam não entender esse filme. As pessoas precisam de tão pouco para ser felizes. De repente, todas as questões raciais, morais e religiosas ficam na superfície. Não vejo as pessoas felizes, percebendo sua própria essência, mas convivendo com estranhos que são elas mesmas.
Como você convive com você mesmo?
Eu não tenho saído muito. Não me incomodo se não saio. Me divirto muito comigo mesmo, com meu som, minha casa, vídeos, fotografias. Acho que essa maturidade nos conduz a uma era de criatividade e maturidade. Isso é o que vai mover as pessoas. Criatividade para driblar problemas, entender que a vida é cíclica, com momentos bons, outros, não muito. Acredito num poder superior que organiza essa energia.
Como explicar guerras, fome, miséria...?
Existem sentimentos tóxicos que atrasam as pessoas: hostilidade, angústia, raiva, inveja, cobiça. Existe um mundo suficiente para satisfazer a necessidade de todos, mas não existe o suficiente para satisfazer a ambição de uma só pessoa. Então, é preciso mudar a maneira de ler a vida.
Como assim?
Por exemplo, o que você percebe na minha casa, de requinte, existe. Mas de espírito. Na verdade é um reflexo de tudo o que a gente vive, conquista, produz e investe. Não de objetos. Esses dias, fui à casa de uma amiga e quando voltei para casa, tive a mesma sensação de tempos atrás, como se a minha casa tivesse sido assaltada. Eu tenho tão pouca coisa que parece que levaram embora. Mas, eu necessito desse silêncio visual. Tanto que os quadros que não são meus não têm imagem. Na verdade as pessoas podem ler o que quiserem, nesse universo.
Como isso interfere na sua vida?
Aqui, no Parque Barigui, a poluição visual é em todos os sentidos, desde propaganda até arquitetura que agridem o ambiente. Às 6 horas, isso aqui fica intransitável. Mas as pessoas se envolvem nessa histeria e melodrama. Falta meditar, aquietar a mente, entrar em contato com seu próprio corpo, ter noção do que comer, valorizar os sentimentos, as lembranças. Na verdade, conviver mais com você mesmo. Ter habilidade de lidar com certas questões, lidar com os sentimentos de amor e compaixão.
Os valores sociais e as pessoas estão mudando, é isso?
A gente vai elegendo um certo ritmo. Aliás, essa é a grande intenção. Porque o tempo vai ser o grande luxo daqui para a frente. Ficou muito difícil ter tempo. Mas é preciso ter uma medida interior, pessoal.
E como você gosta de passar o seu tempo, fora de casa, quando não está trabalhando?
Eu caminho. Gosto de caminhar pelo parque, mas não pelo circuito onde as pessoas caminham. Vou caminhar para respirar, descansar a vista, sentir o perfume, perceber a luz.
E os amigos, você recebe muito, ou sai mais?
Acho que é mais ou menos igual. Tenho muitos amigos, estou sempre em contato com eles, ou por telefone, ou por e-mail, ou jantando. Mas é mais por impulso, necessidade de companheirismo, amizade, para discutir um filme, conversar, trocar idéias. São saídas mais consistentes do que puramente sociais. Gosto de reuniões menores.
E as viagens?
Sempre saio com muita cautela, com uma intenção, que pode ser visitar um museu, um amigo. Não tenho impulsos aventureiros. Sempre elejo alguma coisa com certo discernimento, como alimento espiritual, profissional e cultural.
O roteiro é sempre estudado?
Seleciono sempre. Mas mesmo quando viajo só para o lazer sempre tenho um olhar para o meu trabalho. A gente fica mais ligado. Certa vez fiquei fascinado com uma armazém abandonado, no meio do nada. Parecia uma obra de arte do tempo, da memória, da vida. Parei, fiz fotos. A formação cultural faz com que a gente possa admirar essas coisas. Curtir a transformação do tempo. Até esperar um filme fotográfico ser revelado tem um sabor de expectativa.
Então, isso significa que você gosta de ter um tempo para ver o resultado das coisas e do seu trabalho?
Eu tenho um certo ritual e ritmo muito particulares. Uso as minhas 24 horas para cuidados com o corpo, com o espírito, com o trabalho. Tenho um tempo para cada coisa. E quando sinto que algum desses departamentos está se desequilibrando tento corrigir, voltar à minha sintonia. Não vou acumulando energias tóxicas, para poder desfrutar as conquistas da vida, que não foram fáceis de ser conquistadas. O ser humano tem uma capacidade incrível de ultrapassar os problemas. Simplificando: acho que a vida é bela, mas a Central do Brasil é melhor.
Fale um pouco do seu trabalho, do ateliê...
Eu raramente saio de casa. Acordo muito cedo, trabalho com a luz matinal, normalmente vestido de branco. Aliás, meu guarda-roupa é muito prático, quase só roupas pretas e brancas. Acho que não estou ficando só ‘‘zen’’ mas também ‘‘sem’’. Acho, de verdade, que a gente precisa de muito pouco para viver. Entendo que as pessoas precisam ter desapego, para poder evoluir para uma liberdade psicológica, emocional, completa.
Nada o deixa indignado?
Ficou muito indignado com a prepotência, com a onipotência, com o abuso. Muitas pessoas, em todas as áreas, usam de uma profissão para esconder, usufruir, conquistar coisas que são tão distantes do que se entende por felicidade, satisfação. É preciso mudar o nível de consciência, de valores. Eu adoro coisas sofisticadas, mas, ao mesmo tempo, tenho uma mente complexa e preciso simplificar. Por isso reduzi o guarda-roupa, a casa, meus hábitos, sintetizando..... É o caminho que encontrei para adquirir uma quietude, solitude, contato com o corpo, com a mente, sentimentos, emoção para transcender ao stress. É também uma questão de auto-estima.
Voltando à pintura....
Gosto de trabalhar o dia inteiro, em diferentes direções, diferentes quadros ao mesmo tempo – três, quatro. Cada um tem seu tempo para ficar pronto. Pinto também em diferentes técnicas: colagem, tinta acrílica, pastel. Sempre temas diferentes, mas desenvolvo mais um trabalho figurativo, simbólico e menos coisas abstratas. Não que não goste, mas o abstrato é mais difícil para mim. Gosto de trabalhar segundo o meu humor. Já fiz coisas muito interessantes quando estava com raiva. Guardei. Aliás, tenho vários trabalhos guardados. Não que eu não venda, mas seria muito difícil eu me desfazer. Só se forem arrancados a fórceps, por algum colecionador....
Quais são os seus últimos trabalhos?
São os que surgiram de desenhos feitos na Grécia. Fiz três em dez dias e os coloquei na parede, que precisei descascar a pintura como um afresco. Mas isso foi uma catarse, uma coisa que elaborei em dez dias na Grécia e executei em apenas três. Faz um ano e meio que estão aí. Existe um caminho nesses quadros, que são a síntese em termo de imagem de tudo isso que a gente está conversando. A busca de um equilíbrio, da verdade.... Uso alguns signos numa linguagem hiper-realista, com um jogo de palavras escritas em grego: lar, esperança e alma.

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