O arcebispo que fez história
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de julho de 2009
André Simões<br> Especial para a FOLHA 
Um município jovem como Maringá tem o privilégio de ter aquele que é considerado seu filho mais ilustre ainda vivo e intelectualmente ativo. Aos 93 anos, Dom Jaime Luiz Coelho, primeiro arcebispo de Maringá (renunciou ao cargo, por idade avançada, em 1997), continua rezando missas e escrevendo artigos para os jornais da região. Desde 1957 na cidade, sua influência vai além da vida eclesiástica. Dom Jaime teve papel fundamental na cultura maringaense e participou ativamente na vida política da cidade. Entre outros feitos, construiu a Catedral Nossa Senhora da Glória (a mais alta da América Latina), fundou a TV Cultura e o jornal Folha Norte do Paraná, além de ter criado diversas entidades assistenciais.
De tão rica e atribulada, sua trajetória motivou a realização do documentário ''Jaime: Uma História de Fé e Empreendedorismo'', dirigido pelo jornalista Everton Barbosa, com estreia marcada para o dia 24 de julho, no Teatro Calil Haddad, em Maringá. Depois do lançamento, algumas cópias serão distribuídas gratuitamente em escolas e paróquias e outras serão comercializadas.
Dom Jaime recebeu a reportagem em sua casa, respondendo às perguntas sem fugir de assuntos espinhosos. A seguir, as passagens mais marcantes da entrevista.
O senhor é considerado o maringaense mais importante da história, com uma cinebiografia prestes a estrear. Como o senhor vê essas homenagens?
Cheguei aqui em 24 de março de 1957, eu era da cúria da catedral de Ribeirão Preto. Não conhecia a região, fui procurar Maringá no mapa e não achei. Mas aceitei o encargo do Papa Pio XII para ser o primeiro bispo de Maringá (em 1980, a diocese se transformaria em arquidiocese]. A cidade estava começando, era tudo barro. Logo vi a necessidade da Igreja, não só na esfera religiosa, mas também na educação, na política e outras áreas. Realmente, eu me envolvi muito na política no início, briguei com várias pessoas, alguns queriam me ver morto pelas minhas atitudes. Quando eu achava que um político não era bom, falava claramente. Também sempre trabalhei ativamente com os prefeitos, muitas vezes queriam asfaltar as vias sem construir uma rede de água e esgoto. Até nisso me meti. Na área de educação, a primeira faculdade da UEM nasceu das minhas mãos. Fui o primeiro diretor da Faculdade de Ciências Econômicas e professor de Ética e Sociologia. Agora, eu recebo essas homenagens em nome da Igreja, não em meu nome.
Como foi o processo de construção da Catedral Nossa Senhora da Glória?
Pedi a Deus para que a Catedral antiga, de madeira e precária, 'caísse' à noite, para não matar ninguém. Sabendo da necessidade de construir uma catedral nova, vi num jornal o Sputnik (primeiro satélite artificial da Terra, lançado pela União Soviética em 1957) e pensei 'quem sabe?'. Botei uma cruz no topo, e o projeto da Catedral saiu assim. Não queria fazer uma igreja antiga numa cidade moderna. Já no final de 1958, lançamos a pedra fundamental e, em 1973, concluímos a obra. Temos hoje essa Catedral que é um monumento e um motivo de orgulho para todos nós, com 124 metros de altura.
Geralmente se referem ao senhor como um bispo conservador. O senhor acha que esse adjetivo traz uma carga pejorativa?
Eu não sou nem conservador nem progressista. Sou o que sou. Quando uma coisa tem de ir à frente, vou para frente; quando tem de ir para trás, eu fico atrás. Para mim, isso não atrapalha em nada. Não sou desses sacerdotes que extrapolam sua função na sociedade. Estou dentro da minha própria maneira de ser.
O que seria extrapolar essa função?
Se o bispo não tem a visão total da igreja, ele extrapola. O que não pode é se meter numa linha e não ver o conjunto. Mas quantas vezes me envolvi com política! Quis criar o Estado de Paranapanema. De Ponta Grossa para baixo seria o Paraná; para cima, seria o Paranapanema, com capital em Londrina. Até que o arcebispo de Curitiba me chamou e disse 'Menino, para com essa ideia'. Se não fosse isso, teríamos criado um novo Estado.
Lutei muito a favor do pequeno trabalhador rural, criei a Frente Agrária Paranaense, contra o avanço do comunismo... Me envolvi com tudo isso. Em Maringá, alguns prefeitos foram eleitos comigo na surdina, por trás. Trabalhei também para indicar alguns deputados. O Ney Braga, quando foi candidato a governador, não era conhecido no Norte do Paraná. Mas eu achava que ele merecia um voto de confiança. Fiz campanha, e até o fim da vida ele me foi grato, chamava-me de padrinho, achava que me devia a eleição. Eu não extrapolei porque havia a necessidade de alguém que não pensasse só no Sul do Estado.
Como o senhor vê padres que se candidatam a cargos no Executivo?
Aqui na diocese nunca dei licença. Fui sempre contra isso. Infelizmente, em outras dioceses, alguns bispos não têm pulso para impedir a candidatura de padres.
A década de 70 foi de muita agitação política na Igreja brasileira, com correntes opostas como a Teologia da Libertação e a Renovação Carismática. Como o senhor se enquadrou nessas tendências?
Nunca me envolvi com isso. A única teologia é a que deve levar ao encontro com Deus, por meios justos e exequíveis.
E o que senhor pensa dos sacerdotes que se tornaram fenômenos midiáticos, como o Padre Marcelo?
É interessante. Eu não estou aplaudindo nem nada, mas é uma maneira de evangelizar que eles acharam e o povo parece que está contente. Eles têm dotes que estão empregando a favor da evangelização. Só que na hora em que estão cantando deveriam aproveitar o momento para a catequese. A respeito dos carismáticos, é muito bonito tudo isso, mas que não fique somente naquele blá blá blá, cantando, levantando os braços e fechando os olhos. O papa Bento XVI quer cristãos de novo cunho, para que o católico tome consciência de sua responsabilidade.
Fala-se que a Igreja não está conseguindo formar um número suficiente de padres. Os apelos da modernidade dificultam a vocação sacerdotal, à medida que, por exemplo, os votos do celibato ficam mais difíceis de ser cumpridos?
Todo o segredo, penso eu, está na família. Em famílias boas e sadias nasce a vida cristã, que não está somente na vocação sacerdotal. A Igreja trabalha junto aos jovens para viverem sua castidade até o casamento. A dificuldade de vocação não vem do celibato. O mundo todo hoje vive uma tendência de secularização. Sempre haverá falta de sacerdotes nessa liberalidade que está aí, quanta coisa deprimente, contra a moral natural, para não falar da moral cristã. Eu tenho 93 anos e sou virgem até hoje, graças a Deus. Houve dificuldades na minha vida, como com qualquer ser humano, mas temos a graça de Deus. Quem quer guardar a pureza virginal consegue guardar.
Como é manter essa lucidez aos 93 anos?
É como está nos provérbios, a vida longa é um dom de Deus. O único defeito são minhas pernas que estão bambas, preciso andar de bengala, mas a cabeça está boa. Tenho ainda essa força intelectual, sou capaz de levá-la adiante e dou graças a Deus por isso.


