Nossa língua portuguesa
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de maio de 2001
Carmen Ribeiro De Maringá 
Maria do Carmo Oliveira Turchiari dos Santos, mestre em Letras pela Unesp, doutora em Semiótica e Linguística Geral pela USP, é professora de Letras e mestrado em Linguística Aplicada na Universidade Estadual de Maringá. Suas atividades como docente e pesquisadora voltam-se para a descrição e o ensino da Língua Portuguesa, particularmente na oralidade e escrita. Publicou Retratos da escrita na universidade, tratando das dificuldades que alunos de ensino superior encontram na elaboração de textos escritos. Profissional qualificada e indicada para comentar o Dia da Língua Nacional.
Hoje é o Dia da Língua Nacional, temos o que comemorar?
MCCom certeza. Temos a comemorar a identidade linguística de aproximadamente 170 milhões de falantes; temos a comemorar uma visão de linguagem menos purista, menos cerceada por regras gramaticais advindas do século XVI; temos a comemorar uma visão de língua/linguagem livre das amarras de uma camisa de força que toma usos obsoletos como exemplos ideais; temos a comemorar, principalmente, uma visão de língua e de linguagem articulados aos usos sociais. O uso da língua nos propõe dois segmentos completamentares: de um lado, o locutor, que deseja fazer-se compreender e, de outro, o ouvinte, que se esforça para entender, cada um procurando adaptar-se às exigências do outro. O sócio-linguista inglês Erwin Goffman afirma que esse esforço constitui-se em uma ponte sobre o qual os indivíduos se engajam momentaneamente em uma comunhão mútua, e é essa faísca, e não o amor, que ilumina o mundo.
A complexidade do nosso idioma seria uma das causas das dificuldades de aprendizagem, ou o ensino é precário?
MCAinda que se considere a Língua Portuguesa complexa, não se pode afirmar que esse é o motivo das dificuldades de aprendizagem. Se os seus usuários conseguem se expressar na modalidade falada, significa que os falantes da Língua Portuguesa, assim como acontece com outros idiomas, têm, internalizada, uma gramática, ou seja, dominam um conjunto de regras que lhes permite o uso da língua.As dificuldades maiores encontram-se na aprendizagem escrita, no padrão culto. O que acontece é que nas últimas décadas as camadas mais populares da sociedade, usando um dilaleto popular, tiveram acessos aos bancos escolares e encontraram, na escola, o ensino de norma padrão culta, por eles desconhecida mesmo na forma falada. Uma atitude preconceituosa e discriminatória da escola em relação ao dialeto falado por essas pessoas provocou grande número de evasão escolar e de repetência. Para melhores resultados, estratégias pedagógicas têm que ser revistas, adequando o ensino da língua às atuais clientelas e realidades escolares.
Existem fórmulas simplistas para um português correto?
MCA situação atual de aprendizagem reflete problemas de natureza social, econômica, pedagógica. Não acredito em soluções simplistas. Português correto, do ponto de vista que eu defendo, não se restringe, exclusivamente, à elaboração de frases de conformidade com normas gramaticais. Português correto corresponde ao uso da língua de modo adequado, segundo o interlocutor e a situação: registro informal entre amigos, em família; registro formal em conferências, eventos científicos, com autoridades.
Sinceramente, falar e escrever corretamente nosso idioma, não é quase impossível?
MCConforme disse, se consideramos como correto o uso da língua adequado à situação, é absolutamente possível. O domínio da escrita, no padrão culto, certamente acarretará mais dificuldades àqueles que não o dominam na fala, mas convém lembrar que o domínio de qualquer habilidade é conquistado com treinamento. É preciso praticar. Só praticando se supera dificuldades.
O estrangeirismo interfere no aprendizado?
MCAtualmente, a ênfase de nomes estrangeiros encontra-se na denominação de estabelecimentos e atividades comerciais e informática. Embora para grande número de termos estrangeiros encontrem-se correspondentes em português, o que não justifica seu uso, não acredito que esses usos interfiram na aprendizagem da Língua Portuguesa.
O brasileiro sempre foi criativo, os neologismos devem ser incorporados ou acabam interferindo na qualidade de nosso idioma?
MCA língua é um meio de ação de uns indivíduos sobre outros. Em seu bojo encontram-se traços ou marcas daqueles que a usam. É inevitável a incorporação de neologismo. Dizer que interferem na qualidade do idioma seria o mesmo que dizer que as rugas, marcas da idade, podem denegrir a imagem do ser humano.
Como a senhora vê a gíria, principalmente entre jovens? Cada tribo cria sua comunicação própria, é bom ou ruim?
MC-A criação e a veiculação de gírias no uso de uma língua também é inevitável. Faz parte de uma movimentação natural no uso da linguagem por grupos sociais ou profissionais. Os professores de português costumam criticar muito o uso de gírias, principalmente quando os alunos a elas recorrem em seus textos escritos. O problema não é usar ou não, mas quando usá-la. Seu uso é adequado, trazendo reflexos positivos à comunicação, em falas informais, entre pessoas que partilham o mesmo modo de falar. No entanto, não será positivo, se o falante só se expressar através de gírias, não conseguindo fazê-la de maneira diferente, quando o interlocutor ou a formalidade da situação exigirem.
Os professores de Português estão preparados para ensinar?
MCNas últimas décadas têm ocorrido muitos questionamentos quanto ao ensino da Língua Portuguesa. Se há vinte anos se enfatizava a concepção estruturalista de linguagem e se valorizavam exercícios mecânicos, com insistência na prática de estrututras linguísticas, acreditando-se que assim o aluno aprenderia a ler e escrever, hoje se deseja que o usuário tenha competência para formular um texto adequado à situação de comunicação, valorizando-se a importância do interlocutor, dos objetivos e das intenções no processo comunicativo. A língua é vista como uma forma de ação do falante sobre o ouvinte. Esta mudança de concepção traz reflexos fundamentais no ensino do português, mas está ainda, restrita às universidades. Muitos professores atualmente mantêm uma visão tradicional quanto ao ensino/aprendizagem. Faz-se, realmente, necessário mobilizar os professores de português para que sejam propostos cursos de atualização e discussões acerca dos Parâmetros Curriculares Nacionais e de novas práticas pedagógicas.
O que é preciso para que, principalmente o jovem, aprenda a falar e escrever com qualidade?
MCPrimeiramente, e é uma postura fundamental, não discriminar a forma como eles falam. É preciso mostrar-lhes que o modo como falam é bom, mas que existe uma forma de falar e de escrever diferente do que usam, para outras situações e ensinar-lhes a norma culta, com seus usos formais e informais e na escrita, sem artificialismo.
Para saber falar é preciso saber ouvir?
MCSempre. O falante faz uso da língua com intenção de produzir efeitos sobre o ouvinte. Se ele se mantiver alheiro às manifestações e reações do interlocutor, estará agindo como auto-falante.
Ler é fundamental, mas o brasileiro, por muitas razões, lê pouco. Qual a solução?
MCNa escola, estimular a leitura por prazer, sem notas, sem imposições. Os professores devem recorrer a diferentes tipos de fontes, revistas, receitas, bulas, sinais de trânsito, livros com o objetivo de despertar e desenvolver o interesse do aluno pela leitura. Em casa, os pais podem mostrar livros de estórias às crianças desde muito pequenas. Nesse sentido, uma ação conjunta de pais e professores é muito eficaz. Com alunos provenientes de camadas menos favorecidas economicamente, a ação tem que ser intensificada.
A redação no vestibular é fato estimulador ou simplesmente uma obrigação passageira?
MCUma obrigação passageira, com certeza não é. O aluno que está iniciando um curso em universidade vai recorrer à escrita não só em sua vida acdêmica, mas, certamente, em toda a sua vida profissional. Eu prefiro dizer que a redação do vestibular é motivo de grande preocupação dos candidatos, o que faz com que se esforcem para melhorar seu desempenho nessa habilidade. Não deixa de ser uma forma de estímulo!


