Nos picadeiros do mundo
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sexta-feira, 23 de março de 2018
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 

Das simples lonas coloridas aos espetáculos cheios de tecnologia, o mundo do circo é puro encantamento para crianças e adultos. Muitos sonham em passar da posição de espectador para protagonista. E já no circo, um dos sonhos de qualquer artista é fazer parte da companhia canadense Cirque du Soleil, considerada a maior do mundo.
Através de audições em diferentes países, a companhia é feita por artistas de diversos lugares do mundo. O Brasil já enviou diversos cariocas e paulistas, mas pela primeira vez um paranaense será contratado. Aos 26 anos, Jonathan Santos Lima acaba de se aprovado para o casting, depois de vários testes, e aguarda as instruções para embarcar para o Canadá.
A carreira de Lima no circo começou aos 10 anos de idade, quando participou de um projeto social realizado pela Escola de Circo de Londrina no Conjunto Maria Cecília, na zona norte. "Fiz um ano e consegui uma bolsa para treinar na Escola. Fiquei quatro anos, me formei e logo depois consegui uma bolsa da Funarte (Fundação Nacional de Artes) para a Escola Nacional de Circo, no Rio de Janeiro. Essa é a mais importante escola de circo do Brasil. Foi um processo bastante concorrido, tive que mandar material, participar da audição", conta.
Ele ficou no Rio de Janeiro por 10 meses. Logo depois seu pai faleceu, precisou voltar a Londrina e abandonou o circo por cinco anos, tendo trabalhado como cabeleireiro nesse período. Sua volta ao picadeiro aconteceu em janeiro do ano passado, quando foi contratado como instrutor do Zirkus Espaço Cultural. Cerca de três meses depois ele sofreu um acidente durante um treino, fraturou a coluna cervical e precisou colocar quatro placas e oito pinos. A paixão pela arte falou mais alto e 20 dias depois, com o auxílio de um médico esportista, voltou a treinar.
A oportunidade para participar das audições do Cirque du Soleil surgiu recentemente e ele conta que passou a se dedicar ainda mais aos treinos. Além de acrobacias no solo, sua especialidade, ele também faz tecido, trapézio e portagem, que é sustentar o peso de outro artista durante a apresentação.
"Um mês parado a gente já perde preparo físico, explosão, flexibilidade. Eu sempre fui muito focado nos treinos, treinei sério, cuidei da alimentação, não 'matei' o treino. Sempre pensei que se eu 'roubasse' no exercício, eu estaria me 'roubando'. Eu sempre treinei para isso, para chegar no Cirque du Soleil."
A primeira etapa da seleção consistiu em uma audição virtual, quando os candidatos devem enviar um vídeo com tudo que sabem fazer, sua especialidade e também exercícios específicos solicitados pela companhia, de força e flexibilidade. Nesta primeira etapa foram 270 artistas inscritos e 40 foram chamados para a audição presencial.
"Os aprovados foram chamados para a audição em São Paulo. Fizemos várias provas durante a manhã, acrobacias no solo e outros aparelhos. A tarde foi a parte de teatro e dança. Apenas dez foram selecionados para a etapa da tarde. Vi um pessoal muito bom sendo chamado e eu ficando naquele cantinho, aí pensei que tinha reprovado, mas não, passei para a segunda etapa e todos os dez foram aprovados no final. Na hora comecei a chorar. Foi um sonho, como todo artista circense, de entrar para a companhia. Desde que comecei a entender o que era o circo eu conheci o Cirque du Soleil e me apaixonei", afirma, acrescentando que já assistiu a quatro espetáculos da companhia.
Após a aprovação, resta esperar pela convocação. Lima explica que são até três meses de espera, já que, terminadas as audições, os perfis dos aprovados são submetidos aos diretores dos espetáculos, que escolhem os artistas conforme a necessidade de cada apresentação. Além dos grupos que rodam o mundo há também equipes fixas do Cirque du Soleil e ainda não é possível saber para onde ele irá.
"O Cirque du Soleil é muito perfil físico. Reprovaram muitas pessoas boas, porque eles estavam buscando perfis específicos. Claro que avaliam o perfil e olham a capacidade do artista. Como são todos ginastas, só de olhar eles sabem se a pessoa vai render e evoluir. Temos quatro anos de contrato, sendo que os primeiros quatro meses são apenas para treinamento na sede no Canadá e não contam nesse prazo. Depois eles nos encaminham para algum lugar. O contrato pode também ser renovado, vai depender de como eu estiver," explica.
Depois que viajar, Lima sabe que poderá voltar ao Brasil duas vezes ao ano para visitar a mãe e os três irmãos, que garante ele, estão todos felizes com a aprovação. "O que minha mãe pode fazer para me ajudar, ela faz. Ela está hiper feliz com a minha ida. Não tem como não ficar, é o sonho de todo mundo do meio."


