O londrinense Luiz de Paula decidiu que seria bailarino aos 16 anos. Estava tão certo da escolha que enfrentou a família e acabou saindo de casa. ''Se hoje o preconceito é grande, imagina naquela época'', diz Luiz, que entrou para o Studio Ballon Ballet em 1985.
''Quando a minha família me viu dançar, depois de uns seis meses, percebeu que aquilo era sério para mim, que eu não estava brincando e aceitou'', lembra o bailarino, que se tornou profissional em 1989. Foi no mesmo ano que recebeu um convite da coreógrafa Roseli Rodrigues para integrar o grupo Raça Cia. de Dança, de São Paulo.
Em 1991, de volta a Londrina, Luiz de Paula sentiu ''um desejo de coreografar também'', lembra. Com o apoio de Sonia Secco, montou uma companhia independente. ''Foi um sucesso porque era muito diferente do que rolava na época'', diz. Desde aqueles tempos, o bailarino já imprimia no palco a característica que ele diz ser o que difere no seu trabalho.
Não costumo catalogar o que eu faço, ou dar nomes. Ao meu ver a dança é única. Não dá para rotular'', explica Luiz.
Depois de dois anos dirigindo a companhia em Londrina, o bailarino decidiu voltar para São Paulo. ''Achava que era muito cedo para ficar só na direção. Sentia falta de ser dirigido'', conta. Na capital paulista, dividiu os palcos com bailarinos do Cisne Negro, Ballet Stagio e Raça Cia. de Dança.
Mas há cerca de três anos, resolveu abandonar totalmente a dança. ''Fui para as montanhas, fiz design de velas e arquitetura de interiores'', lembra. ''Foi uma mudança de vida porque sempre fui muito urbano. Mas continuei trabalhando com outras formas de arte'', conta.
De acordo com o bailarino, a desistência da dança aconteceu porque ''estava fazendo coisas que iam contra o que eu imaginava da dança''. A volta aconteceu depois de uma viagem de férias a Paris. Por lá conheceu o diretor Phillipe Trehet. ''Ele me fez ver que era preciso peito para expor o que eu pensava'', conta. ''Eu vi na companhia de dança dele o que sempre busquei na dança'', completa.
Para Luiz de Paula, em um espetáculo de dança ''não é preciso mostrar o virtuosismo físico'', diz. Depois da França, o londrinense passou a visitar companhias na Holanda, Suíça, Bélgica e Inglaterra. ''Essas viagens à Europa me alimentam, me inspiram. A dança é mais do que a técnica e físico'', explica o bailarino, que sempre procura conviver com o dia-a-dia das companhias de dança internacionais. ''Gosto de ver como eles vivem a dança'', diz.
No primeiro semestre deste ano, Luiz recebeu um convite da Fundação Cultural de Ibiporã para dirigir o Ballet. ''Eu já estava com vontade de voltar para cá, com a idéia de ter um estilo de vida mais sossegado'', conta o bailarino, que acaba de comprar uma chácara afastada da cidade.
No final de semana passado, sob a direção de Luiz de Paula, o Ballet de Ibiporã estreou o espetáculo Crônicas Sensoriais (em cartaz no Teatro Cultura de Londrina, hoje às 20 horas). Em 99, o bailarino e coreógrafo já havia trabalhado com a Fundação Cultural, com o espetáculo Cíclico. ''Foi um divisor de águas no meu trabalho, resultado do que eu havia pesquisado, a liberdade em não ter um compromisso com o virtuosismo físico'', explica.

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