Imagem ilustrativa da imagem No primeiro time da narração
| Foto: Arquivo pessoal



Foi sentado em barrancos ou cadeiras plásticas à beira do gramado que Julio Oliveira fez suas primeiras narrações de futebol. Eram campeonatos amadores como o aspirante a cronista à época. Anos depois, o londrinense empresta o vozeirão ao canal fechado SporTV e está no primeiro time de narradores da casa. Aos 53 anos, ele vive o auge de sua carreira, mas não cansa de repetir que tem muito ainda que evoluir. "O passado foi sempre de aprendizado e se você achar que algum momento especial está no passado, você não está evoluindo ou construindo algo novo. As fases são para ser lembradas, mas não pode ter momento melhor ou, no mínimo, o próximo. Por isso vejo o estágio atual como o mais interessante exatamente pelo trabalho realizado até aqui. Acredito que estou no estágio justo pelo que evoluí até o momento", discursa.

Oliveira começou no rádio e de lá saltou para a televisão. Só depois é que foi cursar jornalismo. A grande virada na carreira foi quando decidiu deixar a carreira consolidada como apresentador e editor de jornal em uma emissora de Londrina para tentar a sorte na narração. Filho do ex-árbitro Afonso Vitor de Oliveira, ele sempre teve ligação íntima com o esporte e foi então que se mudou para Curitiba, em 2010, e passou a narrar os jogos como freelancer para o próprio SporTV. Não demorou para ser contratado pelo canal e mudar-se para o Rio de Janeiro.

"São quase nove anos fora de Londrina. E isso é muito tempo. São muitos pontos que você muda. Todo o mundo externo é que influencia na vida e, consequentemente, na sua transformação como pessoa e cidadão", reflete. "Morei a maior parte da minha vida numa cidade de 500 mil habitantes. Hoje moro em uma de 7 milhões. Trabalhei em empresas que eram referência na cidade. Hoje, íntegro a principal e maior equipe de esportes do País. Estou dentro dos maiores eventos do Brasil e do mundo. O Julio que deixou Londrina via tudo isso de fora. Hoje estou dentro de tudo isso", completa.

RÚSSIA
Ele lembra que a guinada na carreira o obrigou a evoluir continuamente para se manter em alto nível. "Para dar resultado e não ser 'engolido', você tem que olhar de um jeito diferente e, naturalmente, você cresce com tudo isso. Outra coisa é o nível de informação que você passa a ter acesso e faz muita diferença também para sua transformação. Você, naturalmente, precisa mudar. Se não entender isso, não sobrevive", decreta.

Após se dividir entre a narração de vários esportes, Oliveira se consolidou no futebol e foi um dos quatro narradores que o SporTV enviou para a Copa do Mundo na Rússia, disputada entre junho e julho passados. Foi o segundo mundial que ele cobriu pelo canal - o outro foi o do Brasil. "A Rússia foi espetacular. O país surpreendeu a todos pela recepção, organização, segurança. Foram 32 dias vivendo um pouco da cultura local que recebia o maior evento do mundo. Os melhores em tudo estavam ali: empresas de comunicação, profissionais, jogadores, ex-jogadores, jornalistas. Enfim, sempre ao redor você se deparava com a história do futebol. Narrei dois jogos da Rússia. O primeiro que eliminou a Espanha nas oitavas de final. O segundo, a vitória da Croácia, também nos pênaltis. Participar desses momentos foi especial", revela.

INESQUECÍVEL
Mas não foi na Rússia que o londrinense viveu seu momento mais marcante na carreira. "Ainda é a decisão do terceiro lugar da Copa no Brasil. O jogo entre Brasil e Holanda foi histórico. Primeiro, porque só dois narradores fazem os jogos do Brasil há anos no SporTV (Luiz Carlos Júnior e Milton Leite). Segundo, que foi a primeira partida depois do 7x1. A escala foi uma resposta pelas boas transmissões que havia feito no mundial. Quando soube da escala, fiquei uma noite sem dormir. O jogo ganhou tanta importância, que na Globo foi narrado pelo Galvão (Bueno), que no dia seguinte faria também a final. As cabines de Globo e SporTV estavam lado a lado no estádio Mané Garrincha e na da Globo estavam três escalões da direção de jornalismo da emissora, tão importante era aquele jogo editorialmente. Foi inesquecível", emociona-se.

Além dos mundiais, o narrador cobriu outras tantas competições mundo afora. Delas, trouxe uma bagagem profissional e cultural muito grande. "Cada cobertura tem sua peculiaridade. A primeira, na África (2013 na Copa das Nações), teve um contexto em que você precisava respeitar muito a cultura das regiões. A segurança era algo preocupante em algumas regiões e a história vista de perto realmente marcou. Daí você sente, realmente, o que é racismo e desigualdade social. Na França (2016 na Eurocopa), um evento que só é menor que a Copa do Mundo. Um país espetacular, mas que vivia o medo do terrorismo. Cobrir um evento sem se envolver com o medo que a população vivia foi o grande desafio", relata.

"Na Rússia, o grande aprendizado de que você é quem tem que ver e sentir para concluir. Um país de povo e cultura impressionantes. Com todos seus problemas, um país enriquecedor. Na verdade, o evento tem vida própria em qualquer lugar do mundo. O que o torna diferente é a influência do país-sede em suas características e momento. E, sem dúvida, o currículo de competições internacionais vai dando uma segurança e confiança cada vez maiores para o trabalho", completa.

PERRENGUES
Trabalhando sempre em transmissões ao vivo, Oliveira não está, obviamente, imune aos famosos micos e perrengues. Além de levar aquelas clássicas encaradas e intimadas de torcedores nas cabines dos estádios ao longo do jogo. "Quando se trabalha sempre ao vivo é preciso estar preparado para tudo. As maiores dificuldades aconteceram em estádios onde as cabines ficam muito próximas do público. Há poucas semanas em Chapecó, jogavam Chapecoense x Corinthians. Lá, para evitar esse problema, a cabine foi fechada com vidro. Mas quando o Corinthians fez 1 x 0, torcedores se irritaram - por suposto impedimento - e bateram no vidro da cabine. Um terror. Mas depois a Chape virou o jogo e todo mundo virou amigo."

Mas o narrador também passou apuros de outras formas. "Foi em uma transmissão da Libertadores, na Colômbia, mas transmitida do estúdio do Rio de Janeiro. Nestes casos recebemos as escalações pela produtora local. Mas na América do Sul isso é uma loteria. Neste dia a escalação não veio. Como nos preparamos antes buscando informações, eu tinha basicamente os nomes dos jogadores. Mas não tinha os números (risos) e fisicamente só conhecia dois jogadores. Ou seja, por 17 minutos, até que conseguíssemos as escalações, só dois atletas tocaram na bola", diverte-se.

NO VGD
A boa fase e a fama não fazem com que o londrinense esqueça suas raízes e nem deixa para trás tudo o que viveu nos tempos de vacas magras em Londrina. "Nunca esqueço minha primeira transmissão: final do campeonato amador de Londrina, no VGD. Não esqueço da narração: horrorosa. Tenho a fita guardada para um dia ouvir de novo. Mas nunca poderia imaginar que poderia chegar tão longe. Comecei a narrar na intenção de crescer, mas não de chegar onde estou. Penso que Deus foi muito generoso em minha caminhada", conta, lembrando que hoje divide a bancada com ídolos de outros tempos. "Via, pela TV, inúmeros personagens na nossa história esportiva e depois eles passaram estar ao meu lado, compondo equipes de transmissão. Por isso, não esqueço partidas narradas em mesas e cadeiras de plástico à beira do campo e até em barrancos", relembra.

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