Curitiba- ''Existe um limite entre o que se guarda e o que se mostra. Esse limite determina um armário, uma gaveta e uma bolsa. Além disso. tudo é uma questão de estilo''. A frase do paranaense Marcos Novak abre o site do arquiteto. Mas no endereço eletrônico, o internauta não vai encontrar projetos funcionais de casas, apartamentos e interiores, mas, sim, formas criativas de um produto que ele escolheu para fazer e - por esses objetos - abandonou a carreira de arquiteto e professor. As duas coisas, no entanto - bolsas e aquitetura - são interligadas, conforme defende Novak.
Natural de Astorga (80 km a oeste de Londrina), ele foi seminarista antes de chegar em Curitiba, aos 14 anos. Na Capital, cursou desenho industrial e posteriormente arquitetura, na PUC-PR. Formou-se em 1991, quando começou a trabalhar na área profissional e acadêmica. Há quatro anos, o rumo da carreira do arquiteto começou a mudar. No caminho entre sua casa e a faculdade em que lecionava, passava por uma favela. E, lá, viu algumas mulheres fazendo bolsas de forma artesanal. ''Era algo simples, mas interessante, e eu comecei a vender essas bolsas para as minhas alunas'', conta. Encantado com o processo de trabalho das mulheres, ele mesmo começou a projetar alguns modelos e chegou a montar um ateliê dentro da favela, na Vila Pinto.
O ateliê ficou instalado no inusitado local durante cerca de um ano. Foi um período em que Novak conheceu distintas formas de trabalho e também de relacionamento. ''Eu nunca fui assaltado lá, mas algumas coisas começaram a ficar difíceis na relação'', revela. Ele saiu da favela, mas não deixou de trabalhar com comunidades carentes e procurar mão-de-obra para as suas criações que, de alguma forma, pudesse ser uma troca viável. Passou a trabalhar então com a cooperativa Coperáguia, de Pinhais, com quem mantém parceria até hoje.
As vantagens de trabalhar com as comunidades são várias, conforme defende o arquiteto, e vão ao encontro de suas crenças. Primeiro porque ele acredita que o valor de um produto deve estar agregado ao seu processo de trabalho.''Tenho aversão a grandes marcas que não identificam o processo de feitura para o consumidor. Os grandes bordados, por exemplo, são feitos na Índia, mas nada disse aparece'', analisa. Para ele, por trás de cada produto, existem pessoas e, consequentemente, culturas que podem ser descobertas.
A cultura brasileira intrínseca nas suas peças, por exemplo, já está chamando a atenção de muita gente consagrada. Tudo começou quando Novak mandou um e-mail para uma empresária brasileira que mora na França, falando de seus produtos. A empresária não só começou a vender as bolsas criadas por Novak na Europa como agora vai representá-las por lá. Um contato que já lhe rendeu visibilidade, como uma matéria de destaque na Marie Claire francesa.
O segredo é dar identidade ao produto. E essa característica não falta nas peças de Novak. A segunda coleção de bolsas, por exemplo, ainda inédita, tem como base as fitas de cetim e um acabamento ímpar. Outras peças em que ele está investindo são aquelas com tecidos resinados, uma alternativa às ''ecobags'', as bolsas que vão às compras e que substituem as sacolas plásticas. Para essas, Novak aposta em tecidos impermeáveis, sem deixar de lado o estilo e o design. Essas peças custam cerca de R$ 90,00, enquanto as carteiras e bolsas assinadas pelo arquiteto chegam ao varejo por um custo entre R$ 300 e R$ 600.
Um custo que pode aumentar na próxima coleção, quando o arquiteto pretende começar a trabalhar, pela primeira vez, com couro, mas que será agregado à qualidade e originalidade do produto. Trabalhar com esse material está nos planos para 2008, assim como as projeções de vendas para Londres e Paris. ''A minha preocupação é produzir algo que as pessoas vejam e percebam que tem criação, artesanato e design'', revela.
As bolsas, aliás, não foram produtos escolhidos ao acaso pelo arquiteto. ''Tem algo de psicanalítico nisso. A bolsa reflete o nosso mundo interior, viemos de uma bolsa e, posteriormente, nela guardamos as coisas mais valiosas'', conclui.


Algumas considerações de Novak
- Pirataria : ''Adoro. É uma consequência das grandes indústrias.''

- Consumo : ''Deve ser pela qualidade e nunca pela quantidade. A gente deve consumir cada vez menos.''

- Sustentabilidade: ''É o grande horizonte. O mundo vai amargar a qualquer momento se as pessoas não se voltarem ao tema.''

- Artesanato: ''Não gosto do 'brejeiro'. Acho que artesanato tem que ter criação e design.''

- Forma: ''Gosto do que diz o estilista japonês Yamamoto (Yohji) que defende que todo produto precisa de um defeito para ganhar vida''.

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