No comando da Ópera
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de dezembro de 2006
Ana Clara Garmendia<br>Equipe da Folha 
Curitiba- Se para muitos a vida às vezes parece monótona e cheia de empecilhos, para Almali Zraik ela pode lá ter seus entraves e tristezas, mas monotonia nunca. Curitibana criada e formada na cidade, Almali tem, aos 34 anos, um monte, mas um monte mesmo de relatos interessantes para contar. Fatos que levam a gente acreditar que, sim, existe um destino que corre fora do previsto e que, mesmo havendo desvios inevitáveis de nossas programadas rotas, o sucesso pessoal para quem é dedicado e competente, sempre acontece.
Pois bem. Pirâmide invertida. Um termo técnico jornalístico que vai contar o final da história de nossa entrevistada.
Almali chegou a ser advogada e almejar a diplomacia, e adivinha o que ela é hoje? Produtora executiva da montagem brasileira de O Fantasma da Ópera. Como ela chegou a um cargo tão importante, onde coordena um dos maiores musicais da história americana que ousadamente foi montado no Brasil, é que é o incrível para contar.
Tudo começou alguns anos atrás. Almali vivia tranqüilamente em seu trabalho de advogada. Vinda de uma família de Curitiba, foi criada no meio social tendo boas amizades. Durante alguns anos foi professora de inglês, mais tarde se formou em direito e ainda mais tarde um ciclo grande viagens e cursos ao exterior a transformaram em alguém com ambições mais longínquas do que o trabalho formal de quem lida com o mundo das leis.
Para ela, isso já foi uma preparação para o que faz hoje (administrar equipes enormes, muitas vezes gente vinda de outros países, com timing diferente para o trabalho e expectativas idem).
Comecei aos 17 anos, no Liberty English Centre, e depois passei quase nove anos na Trends English Courses, que depois virou Guess English Courses. Acredito que tudo o que fiz (viagens, dar aulas, faculdade de direito, ...) me ajudou a fazer o que faço hoje... foi muito importante. Aprendi a lidar com pessoas. A ler seu comportamento.
Bem, vamos à obra: um dia Almali recebeu o telefonema de um grande amigo. Era um empresário que estava com tudo pronto para trazer o musical Grease para o Brasil. Quem se lembra? Era 1998, e Almali iria cuidar dos contratos dos gringos envolvidos na montagem. No começo, ela cuidava somente disso, depois, por sua facilidade para o assunto e também o domínio do inglês, passou a cuidar da liberação dos vistos dos cenógrafos e diretores estrangeiros. Eram 34. Em meio a tanto trabalho acabou se envolvendo e por fim já estava assinando a produção. Um tempo nada fácil. O dólar estourou. Estava um para um e de repente (impossível esquecer) ficou inviável. O Grease teve oito sessões e acabou em meio ao caos, mas para Almali era o início de um caminho totalmente inusitado e glamouroso. Era tarde demais para voltar à vida anterior. Ela tinha sido mordida por uma curiosidade incrível em torno do show business e resolver ir atrás de um conhecimento mais profundo no assunto.
Foi aí que começaram as viagens. Nova York, Paris. Musicais famosos. Um pouco além Almali ainda foi. Uma temporada em Los Angeles, Califórnia. Lá, estágios, produções em grandes estúdios. Contato com grandes estrelas. Jenniffer Lopes, Nicole Kidman, Natasha Kinski. Ela pôde ver de perto como funciona todo o mecanismo de montagem de uma produção. Aprendeu coisas importantes como a importância de um agente (lá ninguém trabalha sem). Durante um tempo analisou roteiros dentro de uma grande agência. É uma bolsa de valores, conta sobre a disputa dos escritores para vender seus roteiros a produtores. Apesar de ser de fora conseguiu ter acesso fácil a grandes produtoras. As portas se abriram porque sou ágil. Sendo brasileiro a gente consegue. Não somos bitolados, somos alternativos. Bem, está dada a dica: o nosso jeito maleável abre, e muito, as portas fora daqui.
Depois desse tempo, a volta ao Brasil. Na verdade ficar fora tem um lado fatigante. É uma ilha da fantasia. Todo mundo quer se dar bem. Há muito interesse. Passada essa grande experiência, Almali voltou e logo foi chamada por Federico Gonzáles (ela havia conhecido ele alguns anos atrás, durante a montagem de Grease e ele nunca mais se esqueceu dela) da Cia México. Ele a queria na coordenação e montagem de Chicago, em São Paulo. Depois de algumas idas e vindas e negociações truncadas, lá foi ela. Uma loucura trabalhar com gente de fora e uma equipe de 166 pessoas. Chicago ficou oito meses em cartaz e Almali saiu dele fortificada.
Hoje, ela cuida de O Fantasma e prepara a chegada de Miss Saigon e Peter Pan. Nessas montagens chama brasileiros para trabalhar, o que é um grande prazer já que, como ela mesma disse, nós temos aquele jogo de cintura para fazer as coisas darem certo. Nesse trabalho, Almami usa sua sensibilidade para dar chance a talentos novos. Gosto de explorar o que cada um tem de melhor. Essa é a fórmula para dirigir tanta gente e apresentar um bom trabalho.
Fora todo esse empenho em São Paulo, ela agora investe com aquele amigo que a chamou para trabalhar no Grease, em um projeto paranaense. É o Cara de Boi, que vai trazer peças para Curitiba e também interior do Paraná. Como diferencial temos oportunidades de investimentos personalizados para os patrocinadores. Iremos sempre desenvolver proposta personalizada para cada cliente, de maneira que ele possa usufruir o máximo possível do produto. Através de sessões fechadas, debates com elenco e diretores, mesa-redonda, workshops e etc. Para cada perfil uma proposta diferente.
A primeira montagem será Quando Nietzsche Chorou, e deve acontecer em 2007. Com Almali no comando, com certeza o teatro paranaense vai pulsar mais forte. Sempre precisa. Teatro só é teatro quando se torna um agente transformador e isso certamente está nos projetos de Almali: transformar.
Mais sobre
- Almali tem um grande projeto de vida no momento, que é mais importante do que tudo que falamos acima.
- A coisa mais importante da minha vida é o lançamento de um livro em homenagem ao meu irmão, Alexandre Zraik. Ele sempre disse que escreveria um livro... viveu histórias que dariam muitos livros, mas nunca parou para colocar no papel. Estamos fazendo o seu livro com as colunas do JE Política em Debate, escritas por ele, que serão perpetuadas através desta iniciativa. Além das colunas teremos depoimentos de amigos e colegas de profissão.
- O livro póstumo do jornalista Alexandre Zraik será publicado pela Travessa dos Editores em 2007.


