Neurótica, mas com carisma
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de março de 2011
Márcio maio <br> TV Press 
Os papéis românticos, pelo visto, ficaram para trás na carreira de Deborah Evelyn. Na pele da amarga Eunice, de ''Insensato Coração'', a atriz experimenta uma fase mais madura e um papel repleto de conflitos familiares. E transparece em seu discurso o quanto valoriza essa posição. ''Já fui muito usada como mocinha. A maturidade ocasionou uma virada bem interessante nesse ponto de vista'', atesta.
Na novela de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, a personagem Eunice tem atitudes que a deixam numa linha tênue entre a neurose e a vilania. Uma característica que, segundo Deborah, desperta o interesse do público. E ela garante que, nas ruas, não chega a levar bronca. Talvez pelas diferenças óbvias entre criadora e criatura. Enquanto a alpinista social da ficção está sempre ranzinza e se sentindo ''dona da verdade'', sua intérprete esbanja delicadeza na voz e nos gestos.
''As pessoas até brincam que eu estou chata, mas falam isso rindo. Eu me divirto e fico tranquila porque esse é o reflexo do nosso trabalho. Se comentam, é porque está funcionando'', explica.
A carioca Deborah sempre sonhou se tornar atriz. Talvez por influência de sua família, muito ligada às artes. A começar pela bisavó, que era cantora de ópera, e pela própria tia, a atriz Renata Sorrah, irmã de sua mãe.
Mas Deborah não abriu mão de sua formação. Tanto que hoje se orgulha por ter não só a graduação em Artes Dramáticas pela USP, mas também em Ciências Sociais, que concluiu na mesma universidade. ''Qualquer estudo é estofo para um ator. Não fui fazer uma segunda faculdade pensando em plano 'B', só no 'A' mesmo'', garante.
Como têm sido as reações do público em relação a ''Insensato Coração''?
As pessoas adoram a Eunice. De uma maneira inversa, obviamente, porque ela é completamente maluca. Acham engraçadas as cenas e também a forma como ela é reacionária e trata mal os outros. É um gostar crítico e acho muito interessante o fato do público conseguir ter essa visão. Sem dúvida, o que mais tocou até agora foi a Eunice ter destratado a própria mãe e ameaçar não levá-la para o Rio por conta do dinheiro do apartamento do Pedro.
A Eunice foi apresentada como uma espécie de vilã, mas a morte prematura da irmã, de certa forma, vitimizou um pouco a personagem. Você acha que isso pode fazer com que algumas pessoas torçam por ela?
Tem muita história ainda com a Eunice. Ela vai surpreender bastante. E é claro que pode ser que o público dê uma colher de chá em função do que ela passou com a morte da irmã. É aquilo: estamos falando de uma novela das oito, com tramas mais realistas. Então, existem não só dois lados, mas três, quatro, dez... Problemas pessoais não justificam a vilania. Mas é inegável que, embora ela pudesse agir de diversas maneiras, tem suas razões para ser assim. Vejo a Eunice como um papel bem criado e meu trabalho é entrar nesse universo, acreditar nessas razões e poder fazer dessa maneira. Nas ruas, muitos debatem comigo sobre o Pedro ter matado ou não a noiva.
A Eunice é a terceira neurótica que você interpreta recentemente. Sentiu algum receio de comparações com sua atuação em ''Celebridade'' e ''Páginas da Vida''?
Comparar personagens é normal. Mais ainda com o último, no caso, a Judith, de ''Caras & Bocas''. Mas era uma vilã das 19 horas, quase caricata. Nas ruas, às vezes, escuto algo como ''você está muito chata'', mas falam rindo. E você pegou personagens que sim, eram neuróticas, mas com neuroses diferentes. Eu adoro esse tipo de papel. Dá pano para a manga, tem história. E não precisa ser politicamente correto. Já fiz muitas mocinhas na minha vida e foi bom também, mas trava mais a atriz. Gosto de ler um capítulo e achar uma loucura no meio das minhas cenas.
''Insensato'' é seu 11º trabalho com Dennis Carvalho, com quem você é casada. O fato de viver com um diretor, na sua opinião, prejudica de alguma forma a sua carreira na emissora?
Acho que afeta, sim. Mas não consigo dizer exatamente de que forma. Talvez de várias, tanto para o bem quanto para o mal. Eu estava há quatro anos sem trabalhar com o Dennis. Fiz ''Desejo Proibido'' e ''Caras & Bocas'', que foi meu primeiro personagem do Walcyr Carrasco e adorei! Existem ótimos diretores e autores com quem gosto de trabalhar. A vida é assim. Mas casamento é muito maior do que trabalho, pelo menos para mim. Não tenho interesse em sacrificar minha vida pessoal em função disso.
Você já se sentiu forçada a ter de provar alguma coisa por conta de ser casada com o Dennis?
Forçada não, acho que isso rola mais dentro de nós. Nunca enfrentei nenhuma situação preconceituosa concreta. E vou confessar que sou bem insegura. Mas minha carreira foi se construindo a partir de passos dados. Comecei na TV com o Walter Avancini em ''Moinhos de Vento'', em 1983, formei-me na USP, trabalhei bastante. Acho que, exceto com o Guel Arraes, já trabalhei com todos os diretores (da TV Globo). Tento fazer com que essa relação com o Dennis não me afete. Mas não fico levantando bandeira, prefiro fazer o meu trabalho com honestidade.


