Negócio com diversão
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sexta-feira, 24 de agosto de 2018
Érika Gonçalves <br> Reportagem Local 

Qual adolescente nunca sonhou em transformar seu hobby favorito em trabalho? Nem todos atingem o objetivo, mas quem consegue, tem muito a comemorar. Apaixonado por skate desde os dez anos de idade, o arquiteto Vinícius Patrial conseguiu unir sua formação acadêmica com a paixão pelo esporte. Hoje administra com dois sócios uma empresa onde dá aulas e cria pistas e obstáculos para o skate, entre outros projetos para grandes marcas, escreveu um livro sobre o assunto e vê os dois filhos Damião, 12, e Tomé, 10, se aventurarem sobre rodas.
Nascido em Londrina, ele conta que foi estudar em Marília, no interior de São Paulo, voltou para Londrina onde se formou pelo antigo Cesulon (Centro de Estudos Superiores de Londrina), atual UniFil. Depois passou algum tempo em Florianópolis e se mudou para São Paulo, onde percebeu que o campo de trabalho seria maior.
"No começo eu trabalhava com cenografia, fiz cinema, trabalhei muito na MTV e aí fui migrando cada vez mais para o skate porque estava percebendo que aqui tem muito campo legal para conseguir trabalhar só com skate."
BRINCADEIRA
Patrial afirma que quando criança nunca imaginou que um dia iria fazer do skate uma forma de trabalho, mas já sonhava em viajar por causa do esporte, que começou como diversão. "Na verdade sempre é uma brincadeira, mas ele transformou minha vida, mudei totalmente meus amigos, meu jeito de vestir, as músicas que eu comecei a ouvir. O skate influenciou muito e me transformou como pessoa. Não digo esportista, não considero skate um esporte, eu tenho uma outra visão dele. Mas ele me ajudou a me transformar na pessoa que eu sou hoje."
Ele chegou a competir de forma profissional mas depois foi parando, se envolveu com a música - é integrante da banda Vermes do Limbo -, a arquitetura e as competições ficaram de lado. O skate como negócio se consolidou mesmo há cerca de quatro anos, quando montou o Experimental Skate Art, que surgiu a partir de um livro que ele escreveu - SK8: Manual do Pequeno Skatista Cidadão, publicado pela Companhia das Letrinhas, que por sua vez foi baseado em uma música.

PEQUENO CIDADÃO
"Pequeno Cidadão é uma banda do Edgard Scandurra, Taciana Barros, Antonio Pinto, e que no começo tinha o Arnaldo Antunes. Eles me pediram para compor uma música sobre skate, gravaram e da música surgiu a ideia do livro. E quando saiu o livro começaram a me procurar perguntando se eu dava aula. Comecei a dar aulas de skate e pensei: 'vou montar um curso para pessoas que não andam de skate começarem a entrar nesse universo e quem sabe não se apaixonar por isso e começar a andar de skate'. E aconteceu, (são) vários casos de crianças que não andavam, que foram porque o amigo convidou e os caras estão andando até hoje. É uma forma de eu agradecer tudo o que o skate me trouxe, trazer mais pessoas para dentro dele."
No início eram oficinas e cursos para crianças e jovens leigos que queriam andar de skate. "Eu queria mostrar outro caminho que não fosse competição, acertar manobras. Queria mostrar que existe o caminho das artes, como na música, na arquitetura, a cultura maker, que são os novos nerds de hoje. No skate conseguimos inserir tudo isso: tecnologia, reciclagem, arte, ocupação de espaço público, reinterpretação dos espaços públicos, uso da cidade. Ter outros caminhos e trabalhar com isso, pode ser design, professor de skate e até mesmo um esportista e ir para uma olimpíada", diz.
Nos cursos e oficinas, além de aprender a andar de skate os alunos também descobrem como fazer shape (prancha sobre a qual se fica em pé no skate), construir rampa e pequenos obstáculos. Depois foram surgindo oportunidades para Patrial projetar pistas de skate para grandes marcas que estão na capital paulista como Element, Red Bull, Vans, Petrobras, Monster Energy. Nesse meio tempo se juntaram à empresa Gustavo Silveira e Duca Mendes, sócios da Experimental.
"Aqui em São Paulo esse pessoal que investe no skate procura pessoas que tenham uma ideia mais diferenciada. Gustavo é da parte de marketing e experimento, Duca produz nossos vídeos e eu faço a criação dos projetos. Eles vieram somar e agora estamos conseguindo dar uns passos maiores do que antes, temos projetos mais elaborados", conta ele.
LADO MARGINAL
Para quem teve dificuldades para praticar um esporte até pouco tempo cercado de preconceito, Patrial vê com bons olhos a mudança de comportamento, embora acredite que o skate deva conservar um lado marginal e subversivo. "(O skate) veio do lado marginal, da contracultura, da gente pegar e usar a cidade a nosso favor, ter uma leitura da arquitetura que nenhuma pessoa tem. O skatista entende os espaços e os equipamentos públicos urbanos de uma outra forma e ao mesmo tempo que ele dialoga com a arquitetura, ele também agride a arquitetura, ele agride a cidade, ele fica no meio, atrapalha o trânsito e isso eu acho legal, acho que ele não vai perder isso nunca, essa essência, essa coisa punk. Hoje vemos marcas que não têm nada a ver com o skate querendo entrar, fazer parte dessa cultura, porque é uma coisa muito genuína, muito criativa, pode abranger desde o cara ser um punk marginal do skate até ser campeão olímpico, ou ser um artista, usar o skate a seu favor como uma ferramenta de arte, de combate, de fusão social. Muitas marcas querem trazer para si esse conceito que é muito atual, muito jovem. Hoje em dia todo mundo usa tênis de skate no pé, ele influenciou muito a arte, a cultura pop de hoje em dia", aponta.
SEM PLÁSTICO
Em paralelo às aulas e projetos, o trio se dedica agora ao projeto Skate Infinito, que visa usar plástico reciclado para fazer shapes. "É uma parceria com um pessoal que se chama MudaLab. Acho que a nossa maior evolução, de tudo que fizemos até agora, é isso, porque tiramos o plástico, que é o maior problema do planeta, e transformamos em shape de skate. Os 'shapinhos' chamam cruiser ou penny, são menores, para passeio, não é para manobra porque o plástico não tem a dureza da madeira, ele é mais flexível, mas para o skate que o cara quer só para passear ou usar como meio de transporte, é perfeito."
A ideia depois, segundo ele, é ensinar a técnica em comunidades carentes para que possam produzir esses shapes e vender, para conseguir renda. "O Skate Infinito é nossa garota dos olhos", afirma.


