Galvão Bueno é polêmico, sabe disso e gosta desta reputação. O narrador esportivo que em 2014 completa 40 anos de profissão - desses 31 de Rede Globo, onde tem salário mensal de R$ 1 milhão, ainda se incomoda com algumas coisas divulgadas a seu respeito e que ele frisa serem histórias mentirosas e deslavadas, numa referência às publicações sobre as supostas agressões à sua esposa Desirèe Soares e brigas na emissora na qual trabalha. Fora isso, Galvão só tem a comemorar.

Diferentemente do que a mídia vem divulgando há meses, ele não vai ''pendurar as chuteiras'' em 2014, está preparando um livro e se destaca como dono de vinícolas, tendo um dos seus cinco vinhos premiados. Além do mais, segundo pesquisas, é o locutor mais querido do Brasil, especialmente entre as mulheres. Em Londrina, onde passa as festas de fim de ano, Galvão recebeu a reportagem da FOLHA em sua residência para uma entrevista.

- Pesquisas qualitativas feitas pela Rede Globo apontaram você como o locutor mais apreciado do Brasil, inclusive pelas mulheres, que afirmaram só entender de futebol quando você está narrando...


Olha, não sei onde foram buscar isso, mas confesso que é interessante. Sei que sou muito autêntico e polêmico. Eu mexo e provoco paixões e reações, e tenho tal consciência disso. Vou fazer 40 anos de profissão e as pessoas vem se acostumando comigo. A Globo sempre faz pesquisas, afinal de contas, a gente vive disso, da receptividade que o telespectador tem.

- Você ficou sabendo dessa pesquisa? Ela também diz que a Globo está procurando um substituto para você?

Não, não fiquei. Mas achei legal. Apesar de que eles se baseiam em um caminho errado.

- Por que?

Porque a Globo não está buscando um substituto para o Galvão. Eu não estou parando! As pessoas botaram na cabeça que eu vou me aposentar depois da Copa de 2014.

- Então tudo que vem sendo publicado sobre sua aposentadoria é mentira?

Sim, é mentira e vocês podem ser os primeiros a dizerem isso. O que eu disse anteriormente e que as pessoas não entenderam bem foi o seguinte: eu já narrei 10 Copas do Mundo, e todas elas fora do Brasil. No encerramento da Copa de 2010 na África do Sul eu disse que seguramente a Copa do Mundo no Brasil seria a última que eu narraria, porque não me imagino narrando a Copa da Rússia em 2018. Me imagino fazendo outra coisa, mas não narrando uma Copa.

- Então você vai parar de narrar Copas, mas demais eventos, esportes...

Sim, isso não quer dizer que eu vou me aposentar. Tem tanta coisa pra fazer. Tem Fórmula 1, MMA, que está explodindo agora, tenho meu programa e talvez um novo programa que já estou imaginando e está em começo de conversa. Talvez eu queira me reinventar um pouco. Aí as pessoas botaram na cabeça que eu vou me aposentar. E a partir do momento que eu vou me aposentar tem que achar alguém para me substituir.

- E quanto a ser o locutor predileto das mulheres?

Fico feliz. Se elas entendem o jogo quando eu estou narrando, melhor ainda. Talvez eu fique narrando por mais tempo então (risos). Mas não sei, hoje se cria muito, inclusive que sou o locutor mais amado e odiado do Brasil. Não pode ser verdade. A única coisa que sei é que me sinto muito bem com o que eu sou e tenho muito orgulho do que conquistei com o meu trabalho.

- Você disse que sabe que é polêmico...

Sou e faço questão de ser.

- Por que?

O esporte é basicamente paixão. O torcedor apaixonado não é a pessoa mais equilibrada do mundo. Eu mexo com essa paixão, eu provoco reações e falo o que penso. Tem uma expressão que foi criada nos últimos anos que eu detesto que é o tal do politicamente correto. Hoje todo mundo tem que ser muito certinho, muito bonzinho e eu não sou. Sou autêntico! Falo o que acho que tenho que falar e nem sempre estou certo, é claro. E assim se cria polêmica.

- Você acha que essa sinceridade, que tanto polemiza, muitas vezes é confundida com arrogância?

Eu tenho escutado as pessoas falarem sobre essa coisa de arrogância. Eu não consigo me ver arrogante. Não sou arrogante! Eu tenho amigos de todas as classes sociais. Grande parte do meu público que gosta de mim é humilde, simples. Isso de que sou arrogante é papo de quem não tem o que fazer. Depois eu acho que a comunicação ficou muito complicada.

- Como assim?

Eu tenho liberdade para trabalhar, mas eu tenho limites, tenho parâmetros que são ditados pela empresa que eu trabalho. Você, por exemplo, tem liberdade para escrever, mas também tem limites e parâmetros ditados pelo jornal que escreve. Com esse desenvolvimento quase enlouquecedor ou enlouquecido dos meios de comunicação, começaram a surgir pessoas que são empresas de comunicação, que não têm limites e muito menos parâmetros. Em todos os segmentos existem aqueles voltados para bem e os que são voltados para o mal.

- Você quer dizer que o que é ruim vende mais, certo?

E não é? Quando eu abro o microfone, eu tenho total liberdade na Globo de falar. Só que não precisa ninguém me dizer o que devo ou não falar. São tantos anos de profissão que eu sei onde está o limite e o bom-senso. Surgiram milhares de empresas de comunicação de uma cabeça só, de uma pessoa só. E não há nenhum controle sobre isso e a menor possibilidade de haver. Quem me conhece sabe que de arrogante não tenho nada. Gosto de bater papo, tomar meu vinho. Eu gosto de viver.

- Depois de quase 40 anos de estrada as críticas ainda te incomodam?

Às vezes me incomodam, sim! Principalmente quando elas são desonestas. Acho terrível quando as pessoas criam, inventam histórias. Já criaram histórias mentirosas e deslavadas sobre mim e minha esposa Desirèe, já criaram histórias de brigas minhas na Globo. Essa coisa que anda solta na internet é muito perigosa.

- Como narrador, como dosar o limite entre a paixão e a realidade?

Bom-senso. Tuda na vida precisa ter bom-senso. Converso muito disso com o Arnaldo (Arnaldo Cezar Coelho), meu amigo, meu irmão. Sempre digo pra ele que não acredito em regra de futebol. Regra é bom-senso. Sempre que o árbitro tiver bom-senso ele vai seguir bem num jogo. Tudo na vida é assim. Eu digo sempre que ando em cima de um fio de uma navalha, tendo a emoção de um lado e a realidade dos fatos de outro. Não posso distorcer os fatos, escondê-los, mas eu tenho que transformá-los em emoção.

- Você vai lançar um livro com o título ''Quarenta Anos de Estrada''. Fale-nos um pouco sobre ele.

Não é um livro autobiográfico. Ele tem personagens que marcaram minha carreira nesses 40 anos. O livro abre com o Pelé, vai ter Ayrton Senna, entre tantos outros nomes do esporte nacional, além de amigos e parceiros.

- Há previsão de lançamento?

Ele está sendo escrito, tem muita coisa pronta já. As passagens da Fórmula 1 estão todas prontas. Tudo que é publicável vai estar lá (risos). Temos algumas passagens do futebol prontas também. Parceiros, amigos e personagens que eu lidei, me emocionei, as conquistas de Copa do Mundo, tudo vai estar no livro. Deve ficar pronto em 2014.

- A Fórmula 1 perdeu a graça depois do Ayrton Senna?

Não, não perdeu a graça. É claro que muita gente parou de acompanhar como acompanhava. A Fórmula 1 na fase do Ayrton era mais que um esporte, porque o Ayrton era mais que um esportista. Ele era mais que um ídolo, era um herói nacional. De 1994 para cá tivemos governos de posicionamentos diferentes, e todos eles trabalharam bem em alguns momentos e maus em outros. Desde a época em que o Ayrton nos deixou, o Brasil melhorou muito, sem dúvida nenhuma, mas quando o Ayrton era herói, o país era pior, e ele era o Brasil que dava certo nas manhãs de domingo. Era o brasileiro que ia lá e 'batia' no inglês, no francês, no italiano, no alemão. Ele era o cara! Era o rapaz que toda avó queria que casasse com sua neta. Ele era isso. Depois dele tivemos muitas vitórias, mas nenhum campeão do mundo. Mas o Ayrton extrapola qualquer tipo de análise. Ele não era só um esportista, um ídolo. Ele era um herói nacional.

- Seu principal produto é o futebol, certo? E a Fórmula 1?

Também é.

- E o UFC? Algumas notícias dão conta que você vai investir neste esporte?

Ah, isso é um barato. Sempre vivi de desafios, eu adoro desafios e sempre tive vários em minha carreira. Faz parte da minha personalidade. Sai do rádio e vim para televisão. Ir para a Globo foi outro grande desafio, assim como deixar de ser comentarista e virar narrador, já que nem voz tinha para isso. Mas com o tempo fui aprendendo. Mais de 60 anos de idade, quase 40 anos de carreira e eis que um dia andando com minha esposa Desirèe recebo uma ligação do Luiz Fernando Lima, diretor da Central de Esportes da Globo, me dizendo que a emissora iria fazer o UFC e me perguntou se eu topava narrar. Podia ter pulado fora, mas aí quando ele perguntou eu disse: aonde e quando começo. Lógico que eu topo! Eu tive uma base, já transmiti boxe a minha vida inteira, com os grandes lutadores. Então fui me preparar, conhecer direito. E o UFC é impressionante! Não sei até onde vai isso.

- Quando parar, qual vai ser seu legado?

As pessoas me dão mais importância do que eu mesmo me dou. Eu sou um profissional que busca fazer um trabalho bem feito, sei dosar a realidade dos fatos com a emoção, conheço os esportes e aqueles que não conheço vou me preparar. Talvez o legado seja ser autêntico. Não imagine nunca que você já tem o domínio de tudo, entenda que a vida é um eterno aprendizado e sua profissão ainda mais. Faça bem seu dever de casa. Eu me preparo e estudo a cada transmissão, por mais que eu tenho vivência na Fórmula 1, no futebol, no basquete e agora no UFC, eu sempre vou buscar dados e elementos das pessoas, dos times, do evento, do local, do estádio, do país. Talvez o legado seja isso, seja o profissional que levou sua profissão extremamente a sério.

- O Brasil não tem uma cultura de investir no esporte. Um dia isso pode vir a mudar?

As mudanças que acontecem são muito poucas. Temos alguns esportes com investimentos, como o vôlei, que tem estrutura, organização, conteúdo. Por isso tem resultados excepcionais. Depois das Olimpíadas, que não pude transmitir e senti muita falta disso, recebi no meu programa no SPORTV toda a equipe do vôlei feminino e, na sequência, entrou os irmãos campeões do boxe Yamaguchi e Esquiva Falcão Florentino, filhos do Touro Moreno (lendário pugilista Adegard Câmara Florentino), oriundos das mais profunda miséria, e o brilho nos olhos deles era igual ou mais intenso que o das meninas do vôlei, que tem toda uma estrutura. E vejo que vem vindo mais outros como esses irmãos, sem nenhum apoio, sem nenhum dinheiro. Fica aí o exemplo de um esporte largado a própria sorte e mesmo assim temos espetaculares campeões. Estamos muito longe do que seria o investimento mínimo que poderia ser feito no esporte brasileiro.

- O brasileiro está preparado para perder?

Não se pode ganhar tudo. Não se pode tratar a medalha de prata do vôlei masculino como um fracasso. Perdeu, perdeu, pronto! Assim é o esporte. Perder faz parte do esporte. Mas que o brasileiro não gosta de perder, isso é verdade. Ainda mais em 2014, em casa (risos).

- No jogo Brasil e Argentina, que antecedeu a demissão do Mano Menezes, você fez um comentário dando a entender que sabia da demissão dele.

Não, não sabia, e claro que se soubesse teria falado. Mas eu sentia que alguma coisa estava acontecendo. Você junta uma coisa que vê ali, ouve daqui, com todos os anos que tenho... Eu fiz questão de apenas deixar claro que qualquer coisa que fosse parecida com a demissão do Mano naquele momento seria uma grande injustiça. Continuo achando que foi. Não acho que foi em um bom momento, não acho que foi oportuno e nem a coisa mais inteligente a ser feita. Mas eu não mando no futebol brasileiro e acho que o Mano pagou uma conta que não era dele. Ele me mandou uma mensagem que dizia: Obrigado pela força dos últimos dias! E respondi: Mano, você para mim pagou uma conta que não era sua. É o que eu acho. Não quer dizer que eu esteja certo.

- O que te motivou a investir em vinhos?

Paixão. Se você me perguntar porque eu moro em Londrina vou te responder que é pela paixão. Paixão que tenho pela minha esposa Desirèe e com tempo fui me apaixonando pela cidade também. Vinho é uma paixão antiga. Nesses 30 e poucos anos viajando pela Europa fui aprendendo sobre o assunto. A vontade de estar nesse meio é antiga, tem uns 20 anos, mas o trabalho começou mesmo de uns 10 anos para cá.

- E como anda a aceitação dos seus vinhos?

Eu tenho uma vinícola no Brasil que se chama Bueno Bellavista Estate. É um novo terroir no Brasil, que tenho chamado de a Califórnia brasileira. Um dos meus vinhos, o primeiro a ser feito lá, é o Bueno Paralelo 31. É o mesmo paralelo da África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Argentina e Chile. Com um trabalho maravilhoso de gerações, temos uma indústria hoje estabelecida naquele local, que faz vinhos maravilhosos. O maior problema do Brasil atualmente não é fazer vinho de boa qualidade, é quebrar o preconceito. Os espumantes brasileiros, que não podemos chamar de champanhe, foram elevados a categoria de quarto melhores do mundo. Tenho uma parceria com a Miolo e este ano o Bueno Cuvée Prestige ganhou na exposição internacional de Bento Gonçalves a medalha de ouro na categoria dele (Bueno Cuvée Prestige é um espumante - 50% chardonnay, 50% pinot noir).

- Londrina e Galvão Bueno. Como é essa relação?

Eu fiz ótimos amigos em Londrina. Aqui é meu paraíso, onde fico sossegado. Minha vida é muito agitada, a pressão é muito grande, o personagem é meio cruel. Eu deixei de ser o Carlos Eduardo faz tempo. O personagem meio que engoliu a pessoa (risos). Adoro o personagem, mas ele é meio trabalhoso. E em Londrina descanso, tenho minha casa, jogo golf, bebo meus vinhos, curto minha adega. Gosto muito daqui, mas uma coisa que me incomoda muito é a questão da violência. A cidade está ficando muito perigosa. É uma cidade afetiva, gostosa, jovem e que provoca orgulho nos londrinenses, mas é preciso levar muito a sério o quesito segurança.

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