No início do ano, José Mayer viveu uma experiência inédita. Apesar de acostumado com o assédio dos fãs, o ator de 51 anos se viu disputado por três diferentes autores: Benedito Ruy Barbosa, Ana Maria Moretzsohn e Manoel Carlos. Depois de ter sido convidado para integrar o elenco de ‘‘Terra Nostra’’ e de ‘‘Esplendor’’, José Mayer optou por aceitar o convite de Manoel Carlos para ‘‘Laços de Família’’. Os dois já haviam trabalhado juntos em ‘‘História de Amor’’, de 1995, quando José Mayer interpretou o sofisticado Dr. Carlos. ‘‘O Pedro é diametralmente oposto ao Carlos. É rude, machista. Diria que ele é a força masculina em estado bruto’’, define, jocoso.
Na novela das oito, o personagem de José Mayer vive situação parecida com a do ator. Afinal, ele é o pivô de uma acirrada disputa amorosa entre a insegura Sílvia, a rebelde Íris e a explosiva Cynthia, personagens de Eliete Cigarini, Deborah Secco e Helena Ranaldi. Em mais de 30 anos de carreira, José Mayer já perdeu as contas dos tipos rudes e sedutores que fez na tevê. Mesmo assim, gosta de abrir exceções esporadicamente para assumir papéis divertidos, como o Osnar de ‘‘Tieta’’, complexos, como o Comissário Mattos de ‘‘Agosto’’, ou sofridos, como o Zé do Burro de ‘‘O Pagador de Promessas’’. Independentemente do tipo que esteja interpretando, o ator quase sempre cai nas graças das telespectadoras. ‘‘Não me considero nenhum modelo de beleza. Qualquer um pode ser interessante se tiver um mínimo de estilo, auto-confiança e personalidade marcante’’, receita.
Longe das câmaras, José Mayer Drummond faz o tipo reservado. Como todo bom mineiro, fala pouco sobre a vida pessoal. Sabe-se apenas que é casado há 25 anos com a atriz Vera Fajardo e que, juntos, tiveram Júlia, atualmente com 16 anos. Nas horas de folga, José Mayer gosta de se refugiar com a família no sítio em Pedra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio. Lá, costuma acordar cedo para podar ipês e regar buganvílias. ‘‘A jardinagem é o único esporte que pratico para manter a forma. Mesmo assim, não faço o tipo galã. Isso eu deixo para os que estão começando’’, diverte-se.
A que você atribui o fato de ter sido disputado por três diferentes autores de novela?
Há poucos atores disponíveis no mercado com a minha faixa etária. Em geral, os personagens que cabem a esse tipo de ator são determinantes na condução da narrativa. Eles se parecem com os jogadores de meio-de-campo de um time de futebol. Ou seja: são eles que armam a jogada e carregam boa parte do time nas costas. O trabalho de ator, inclusive, é muito parecido com o de um jogador. Se você recebe uma bola murcha, por exemplo, faz uma jogada feia. Interpretação é troca de bola. Por isso mesmo, além de ter indiscutível capacidade de interpretação, eles têm de ter capacidade física para suportar uma carga muito grande de trabalho.
Mas por que optou por trabalhar com o Manoel Carlos?
Nós já trabalhamos juntos em ‘‘História de Amor’’, de 1995, e a experiência foi muito bacana. O que mais me intriga no Manoel Carlos é a facilidade que ele tem para convencer o telespectador. Ele dispõe de um poder de conquista muito discreto e eficiente. Para isso, não precisa lançar mão de situações espetaculares ou conflitos excepcionais. Muito pelo contrário. O universo do Manoel Carlos está muito próximo do universo do homem comum. O telespectador começa a se reconhecer nos personagens que vê no vídeo e não larga mais a novela. Além disso, ele possibilita boas interpretações e, principalmente, interpretações cheias de humanidade. Só espero repetir o mesmo acerto da vez anterior.
O que o Pedro tem de novo a acrescentar na sua carreira?
Os papéis que tenho feito ultimamente são muito interessantes. Só não sei até quando vou poder prorrogar essa função de tipo rústico e sedutor. Um dos grandes baratos da profissão de ator, aliás, é que você não precisa se aposentar. Daqui a pouco, vou deixar de fazer homens sedutores e partir para outros tipos. Adoraria fazer um vilão, por exemplo. Mas esse é um problema que os diretores de elenco têm de resolver. Mas, por enquanto, não tenho do que me queixar. Não vejo nenhuma limitação em fazer tipos sedutores. Nem sinto qualquer espécie de confinamento. Sinto estímulo em continuar sonhando com um Rei Lear no teatro ou mesmo com um personagem idoso numa novela.
Mas qual é o seu critério na escolha de personagens?
O primeiro critério é o da qualidade. Quando você encontra um personagem de qualidade, como o Comissário Mattos da minissérie ‘‘Agosto’’, o trabalho fica maravilhoso. Mas nem sempre isso é possível. Nos últimos anos, tenho sido chamado para papéis bons, geralmente de protagonistas e de condutores de história. Isso é gratificante. Em seguida, tenho o critério da diversificação. Não sou um ator que exercita tipos variados, como um grego, um índio ou um italiano, por exemplo. Os meus personagens possuem um perfil comum a todos. Mesmo assim, busco uma certa diversificação. O meu último papel, por exemplo, foi o de padeiro cômico em ‘‘Meu Bem-Querer’’. A diversificação também é uma preocupação constante no trabalho.
Você acha que o tipo rústico, como o Pedro de ‘‘Laços de Família’’, é um dos preferidos do público feminino?
Acho que sim. As mulheres não gostam do machão clássico. O Osnar, de ‘‘Tieta’’, era uma exceção. Ele era bem-dotado, mas tinha enorme senso de humor. Se há uma coisa de que as mulheres gostam é de senso de humor. Porque quem tem bom humor consegue renovar o tédio do dia-a-dia. Esta é uma qualidade que admiro muito. Talvez por isso eu venho ocupando um lugar importante no imaginário feminino. No extremo oposto ao Osnar, fiz o Mattos em ‘‘Agosto’’. Ele era um homem desiludido, com tendências suicidas, existencialista e broxa. Mesmo assim, fui muito assediado na época.
Você se acha sedutor?
Não sei o que as mulheres vêem em mim. Sou um tipo comum, de estatura e físico medianos. Não sou nenhum Apolo ou muito menos um Arnold Schwarzenegger. Nunca fui malhador, nem gostei de frequentar academias. Gosto apenas de nadar, de fazer alongamento e de ter uma alimentação saudável. Além disso, gosto também de esculpir árvores e de andar a cavalo. Mas não me considero bonito. Pelo contrário. Tenho mais charme do que beleza. Talvez isso me humanize e me deixe ao alcance da fantasia de adolescente e de mulheres mais velhas.
Você e o Pedro têm algo mais em comum, além de gostarem de andar a cavalo?
Modéstia à parte, cavalgo muito bem. Aliás, sou filho de mineiros. Tanto os meus avós paternos quanto os maternos eram fazendeiros. Quando entrava de férias, corria para a fazenda deles. Lá, cavalo era diversão obrigatória. Deliciosamente obrigatória, diga-se de passagem. Há muito tempo, convivo com esse universo rural. Sou muito ligado à natureza. O Pedro também cultiva esse contato com a natureza. O único problema é que ele tem mais facilidade no trato com bichos do que no convívio com pessoas. Essa é uma característica marcante do Pedro.
Além de ‘‘Laços de Família’’, você também está fazendo teatro e cinema. Em qual dos três veículos prefere atuar?
Não faço qualquer distinção entre tevê, teatro e cinema. No final do ano passado, filmei ‘‘Bufo & Spallanzani’’, do Flávio Tambellini, que entra em cartaz no segundo semestre. Em março deste ano, estreei a peça ‘‘Mais Perto’’, dirigida pelo Hector Babenco, e, agora, estou na novela. Experimentei os três veículos num curto intervalo de tempo. Diria que o cinema é a paixão. Em dois meses, você conhece o projeto e eterniza aquilo em celulóide. Já o teatro se assemelha a um casamento. Você acaba repetindo aquilo à exaustão. E a tevê é o mais pesado dos três veículos. Embora não seja o que exija mais artisticamente.
Você nunca se cansou de fazer novelas?
Não, porque faço com tesão. Agora, é preciso ter capacidade olímpica para decorar aqueles textos todos ao longo de oito exaustivos meses de trabalho. É preciso ter saúde até mais do que talento. A favor da novela, porém, é preciso que se diga que personagens, como o Pedro de ‘‘Laços de Família’’, nos tornam populares e nos levam com mais facilidade ao coração das pessoas. Isso já não acontece com os personagens de uma minissérie, por exemplo, que só vão ao ar em horários muito elitizados. Além disso, trabalhar em novela mantém sua imagem aquecida no mercado e gera uma série de convites para trabalhos paralelos.
Este ano, você completa duas décadas de tevê. Que avaliação você faz de sua carreira?
Quando cheguei ao Rio em 79, tentei fazer de tudo. Inclusive, fotonovela. Graças a Deus, ninguém me aceitou. Depois de muitos anos fazendo teatro em Minas Gerais, percebi que o público só prestigiava atores vindos do Rio e de São Paulo, independentemente de qualidade artística. Valeu a pena o sacrifício porque a tevê no Brasil é a medida de todas as coisas. Vim para acertar um alvo e acertei todos. Hoje, só continuo fazendo teatro por puro heroísmo. O cinema, idem. Esse papo de que o cinema brasileiro renasceu das cinzas é furado. A tevê no Brasil continua sendo o melhor ganho do ator.

Inspiração literária

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