Na ponta do lápis
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de agosto de 2003
Ana Clara Garmendia<Br>Equipe da Folha 
Curitiba - Humor e crítica. Essas são as únicas moedas que o chargista e cartunista Marco Jacobsen garante ter. Jovem e crédulo na força das idéias, o profissional dá exemplo de vida numa época em que o interesse primordial por dinheiro fala mais alto.
''Meu romance com a charge começou em 1985, quando o então presidente do País, general Figueiredo, resolveu largar o 'osso' e passá-lo para o poeta maranhense José Sarney. O País, que se recuperava do trauma de ter perdido seu messias Tancredo Neves agora depositava toda a esperança na Nova República. O poeta, vice da chapa de Tancredo, que derrotou Maluf no colégio eleitoral, prometeu para o povo, em uma conversa ao fio do bigode, acabar com a inflação e retomar o crescimento, que geraria emprego e renda para todos. Tem gente esperando até agora!'', denuncia.
Mesmo em meio a uma crise financeira mundial, Marco Jacobsen faz parte do time que não se rendeu à chamada ''prostituição profissional''. Jacobsen hoje é colaborador do portal Bonde. Há pouco mais de um mês, quem acessa o espaço (www.bonde.com.br) pode ver diariamente como a criatividade desse paranaense enriquece o dia-a-dia dos leitores.
O chargista e cartunista é bem-humorado quanto à condição que vive no mercado de trabalho: ''Uma imagem vale mais do que mil palavras. Gostaria de conhecer o beócio (relativo à Beócia, região central da Grécia antiga. Bronco, estúpido, ignorante) que escreveu isso, só pra pedir minha parte em dinheiro!'', brinca ao se divertir com uma idéia popular de que os jornalistas e profissionais formadores de opinião ganham dinheiro com o que fazem.
Mas esse fator monetário não tira a inspiração do profissional que é autodidata e só vem acreditando em seu trabalho. Depois de trabalhar durante anos num grande diário paranaense, Jacobsen está em carreira solitária. Aposta numa camada da sociedade que gosta de ver o que ele faz e, enquanto espera esses frutos renderem, doa sua criatividade para a publicidade. Afinal, todo mundo tem que sobreviver, né?
Sobre a sobrevivência como cartunista, conta: ''Comecei a publicar meus desenhos em 1987, quando pipocavam todos os pacotes lançados nos longos anos da administração Sarney: Plano Cruzado, Cruzado II, Verão, Bresser, etc, etc... Com direito a um ministro da Fazenda novo a cada cinco meses! Por sorte, todos muito feios o que facilitava muito o desenho. Deu no que deu: em menos de cinco anos, a Nova República estava mais velha que a velha. E eu decidido a levar a vida na flauta (ou na pena). Também em 1997, o jornal Nicolau comprou alguns desenhos meus. Era a primeira vez que alguém se arriscava a comprar meus rabiscos. Já editava algumas charges (sempre de graça) em uma coluna de cartuns nos jornais da cidade.''
Com essa persistência Jacobsen chega aos dias de hoje como um chargista e cartunista admirado e respeitado por quem o conhece. Sem parar de pensar em novas criações, o profissional anda perambulando pelo universo feminino para criar novos personagens. As mulheres são grandes fontes inspiradoras por encararem nos dias de hoje uma versatilidade capaz de enlouquecer qualquer cartunista. Elas amam, sofrem, trabalham, deliram, experimentam novas sensações de vida com uma naturalidade tão grande que acabaram virando uma grande fonte entre profissionais que precisam renovar seu trabalho. Essa viagem acabou fazendo Jacobsen criar a ''Mary Mad'', uma figura que vai ao encontro de suas experiências, com todo humor e neurose que só uma possuidora dos cromossomos XX pode alcançar.
Fora esse trabalho, que ainda não foi lançado ao grande público, Jacobsen continua afiado em relação ao governo, um prato farto e inigualável a qualquer crítico bem-humorado da área de comunicação. Veja o que ele pensa, com muito humor, da situação política que vivemos em 2003:
''A equipe de Lula ainda está empurrando o Rolls-Royce presidencial que empacou no dia da posse, pra ver se pega no tranco. O povo já sentiu o primeiro. Parece que o bicudo realmente deixou a casa em péssimas condições e alguns cortes foram feitos até no programa Fome Zero astro da nova administração , causando ojeriza e ira dos xiitas dentro do partido (cada vez mais repartido) do sapo barbudo. Promessa é de que as coisas vão melhorar. Estou pagando pra ver. Não com grana é claro. Mas com humor e crítica''. Esse é o Marco Jacobsen. Ainda bem que o jornalismo de opinião paranaense ainda tem bons representantes.


