O Brasil vive dias de torcida constante por seus atletas em busca de medalhas no Pan-Americano de Santo Domingo. Para os londrinenses, tal torcida tem um gostinho ainda mais especial quando entram em cena as ginastas da seleção brasileira. Isso porque as atuais detentoras da medalha de ouro pan-americana de ginástica rítmica (GR) treinam (e muito) em Londrina já há alguns anos.
A assistente social Ivone Bergantini não foge à regra e tem mais motivos para torcer pela seleção brasileira. É de suas mãos que saem os bordados dos glamurosos uniformes usados nas competições. ''E cada ponto bordado tem um pensamento positivo para elas'', avisa Ivone, que desde 1999, é a bordadeira oficial da GR.
Até 13 anos atrás, Ivone conta que ''nunca tinha pego numa agulha''. Foi por conta de uma pneumonia que ela acabou aprendendo a bordar. ''Eu precisava descansar e aí alguém me deu agulha e linha'', lembra. Foi quase na mesma época em que suas duas filhas entraram para o grupo de patinação artística, reconhecido também pelo brilho das suas roupas de apresentação.
''Descobri que levava jeito'', explica Ivone. Para bordar, o requisito essencial ''é paciência'', ensina. Nos últimos dez dias que antecederam o embarque das ginastas para a República Dominicana, Ivone passou cerca de oito horas por dia bordando. Detalhe: ela dividiu a tarefa afinal foram 11 uniformes ricamente bordados com outras cinco bordadeiras, que também trabalharam até de madrugada. ''São todas mães da patinação artística'', lembra. De acordo com Ivone, cerca de 90% das mães de meninas da patinação bordam as roupas das meninas.
''À medida que minhas filhas foram se desenvolvendo, os colants ficaram ainda mais luxuosos'', conta a bordadeira, que conheceu a técnica Bárbara Laffranchi em uma das visitas à costureira. Numa dessas coincidências da vida, tanto a patinação quanto a GR usavam (e continuam usando) os serviços da mesma profissional. ''Foi na mesma época que a GR estava exigindo cada vez mais bordados'', explica Ivone.
''Além de ter muito bom gosto, a Bárbara sabe desenhar e tem noções de cores'', diz Ivone, que fica com o trabalho de riscar os moldes cada cor tem um risco vazado em papel especial , fazer os testes iniciais e depois coordenar o trabalho da equipe. ''Para o modelo que lembra o fogo, cada uma ficou responsável por uma cor''. O maiô em tons de vermelho, amarelo, laranja, preto e marrom exigiu tanta dedicação e paciência que não houve tempo suficiente para fazer o da atleta reserva. ''Foram só com cinco mesmo'', diz.
Sentada no sofá e com as pernas cruzadas. É assim que Ivone Bergantini gosta de trabalhar. A experiência com os bordados para as filhas serviu para agilizar o serviço para as meninas da GR. ''Para bordar Lycra, temos que usar fio de náilon por causa da elasticidade'', ensina Ivone, que sempre usa um molde de madeira para simular o corpo da atleta.
''A preocupação é que todas estejam iguais, se os juízes desconfiam, podem pedir que as ginastas fiquem perfiladas e isso pode tirar pontos da equipe'', lembra Ivone. ''Imagina só'', completa.
Em 2000, uma das ginastas da seleção que competia em Sidney morava no mesmo prédio de Ivone. ''Assistíamos lá no apartamento dela com a família'', conta a bordadeira, que já deve estar repetindo a torcida em frente à televisão. ''Mas eu queria era estar lá. Não só para para torcer de pertinho como também ficar ao lado delas para o caso de algum imprevisto. Eu sei que a Bárbara leva agulha e linha, mas eu gostaria de ter o prazer de ver o resultado lá no ginásio'', afirma.
No caso das filhas patinadoras, que por sinal são bicampeãs brasileiras de patinação em grupo, Ivone faz questão de estar sempre junto nas competições. ''É uma família'', explica. Além de torcerem pelas filhas, as mães acabam trocando dicas de bordados. ''Se entra uma mãe nova, que não sabe bordar, nos reunimos para ensinar'', garante. Com tanta dedicação, os modelos acabam fazendo tanto sucesso que as patinadoras já se acostumaram a receber várias propostas para venderem seus maiôs quando viajam para apresentações. ''Tanto é que aqui em casa quase não tem mais nada'', explica. O mesmo sucesso também acontece com os uniformes da GR. ''As meninas contam que muita gente quer trocar os collants. Lá fora, tudo tem muito brilho, mas são cristais. Os brasileiros se diferenciam por serem bordados manualmente'', explica.

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