Na flor da meia-idade
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de agosto de 2005
André BernardoTV Press 
Logo nos primeiros capítulos de América, Edson Celulari começou a desconfiar que, por causa do Glauco, ainda apanharia nas ruas. Afinal, seu personagem na novela de Glória Perez não é nenhum modelo a ser seguido. O sujeito é casado, tem uma amante há vários anos e ainda inicia um romance com a melhor amiga da própria filha. Mas, para surpresa do ator, além de não apanhar na rua, recebeu várias manifestações de apoio do público. ''Outro dia, estava no aeroporto com a Cláudia (Raia) quando fui cercado por três senhoras. Cada uma torcia para uma personagem diferente. O curioso é que as três, por unanimidade, defendiam o Glauco. É como se ele fosse a vítima da história!'', espanta-se.
Longe de tecer julgamentos sobre a infidelidade do personagem, Edson admite uma certa predileção por tipos transgressores, que não se encaixam no estereótipo do galã heróico e virtuoso. Nessa linha, Glauco faria companhia a outros personagens ''moralmente incorretos'' do ator, como o vingativo Raimundo Flamel, de Fera Ferida, e o desavergonhado Vadinho, de Dona Flor e Seus Dois Maridos. Mesmo assim, o ator continua a arrancar suspiros do público feminino, que passou a chamá-lo de ''tio''. ''O papel do ator é seduzir o público. Agora, com relação às mulheres, procuro seduzir diariamente a minha'', diz.
Aos 47 anos e 27 de profissão, o poder de sedução de Edson Celulari atinge também os autores de novela. Quatro deles, Benedito Ruy Barbosa, Miguel Falabella, Sílvio de Abreu e Glória Perez, tentaram incluí-lo numa novela. Na dúvida sobre que convite aceitar, pediu ajuda à alta cúpula da Globo. Quem levou a melhor foi Glória Perez, com quem Edson já havia trabalhado em 1995, quando interpretou o político Júlio Falcão em Explode Coração. ''O que mais me encanta na Glória é a capacidade de abordar questões sociais sem deixar de lado os elementos típicos do folhetim'', sublinha.
Na sua opinião o que leva um homem maduro como o Glauco a se envolver com uma ninfeta como a Lurdinha?
EC Eu não sei até que ponto o homem contemporâneo gosta de discutir a relação. Por isso mesmo, tenho a nítida impressão de que homens que entram em crise por volta dos 40 anos buscam nos relacionamentos com mulheres mais novas a não discussão. Eles não querem mais discutir relacionamentos e tampouco ter responsabilidade com filhos. Eles querem, sim, uma maneira de se apresentarem para aquela jovem não sei se como um ser superior, mas, seguramente, como um ser mais experiente. Isso dá a ele uma certa sensação de poder. Ele quer viver com aquela jovem uma relação onde possa se sentir um pouco mais seguro de si e da situação...
Como está sendo a experiência de contracenar com uma atriz inexperiente como a Cléo Pires?
EC A Cléo emprestou um frescor único para a personagem. Essa menina tem um carisma muito forte. Um close dela é perturbador. Além disso, tem uma malícia no olhar, uma malícia ingênua, que só enriquece o trabalho. Lembro que, quando chegou na Globo, ela só fazia repetir: 'Olha, pessoal, estou chegando aqui sem muita responsabilidade. Quero ver apenas como é...'. Mas, pelo pouco tempo de convivência, eu seria capaz de jurar que ela já está gostando muito do que faz.
Os seus cabelos estão mais grisalhos que nunca. Aos 47 anos, como você lida com a idade? Ela chega a preocupá-lo?
EC De maneira nenhuma. Tento lidar com ela da melhor maneira possível. Procuro, inclusive, não sofrer por causa dela. Na verdade, prefiro pensar nas coisas boas que a idade me traz: a maturidade, um melhor entendimento das coisas, a paciência... Quanto aos cabelos grisalhos, é mais uma possibilidade de mutação que tenho a oferecer para os meus personagens. Recentemente, fiz o Ciccilo Matarazzo, de Um Só Coração, que me obrigou a ficar quase careca. E, em nenhum momento, me preocupei com a questão estética. Agora, se vou continuar grisalho, não decidi. Pode ser que, daqui a pouco, surja um personagem que me obrigue a pintá-los de amarelo. Tenho de estar disponível para as mutações que a minha profissão exige de mim.


