Mulher rica e sem culpa procura...
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de junho de 2006
Mariana Trigo<br> TV Press 
Há tempos Vera Holtz não se divertia tanto numa personagem quanto tem acontecido com Ornela. A peruíssima socialite de Belíssima, da Globo, tem proporcionado diversos prazeres à atriz. Adoro beijar aquela boca linda do Cauã Reymond, empolga-se a atriz, se referindo ao jovem ator que vive Mateus, o garoto de programa que é alvo das investidas da coroa na trama de Silvio de Abreu.
Vera assume que também adora ser paparicada com manutenções do longo aplique de madeixas louras, maquiagem, figurino e diversos acessórios que têm virado uma espécie de parque de diversões para a atriz de 52 anos. Adoro ela poder gastar dinheiro sem culpa, ter aquela Mercedes conversível... Mas, no final do dia, fico exausta de ficar com a barriga para dentro e empinada com aquela cinta, pondera.
Futilidade
Mas nem tudo foram flores na carreira de atriz. Ao mesmo tempo que Vera saboreia as futilidades de Ornela, a atriz faz uma retrospectiva de como tudo começou, há mais de três décadas, em Tatuí, cidade do interior de São Paulo, onde nasceu. Desde a adolescência começou a trabalhar e deu duro como locutora de rádio, decorou carros alegóricos para o tímido desfile de Carnaval da sua cidade, até conseguir ir para São Paulo em 1974, para fazer faculdade de Arte Dramática. Logo depois se mudou para o Rio e começou a fazer teatro até estrear na tevê muito depois, já em 1989, como a divertida Fanny de Que Rei Sou Eu?, que tinha um forte apelo cômico.
E seus personagens, independentemente da carga cômica ou dramática, se transformam em uma espécie de coleção para a atriz. Até pouco tempo atrás, ela tinha o hábito de desenhar cada um deles em papel, com um tamanho bem pequeno, que era uma maneira de ela conseguir visualizá-los de uma forma onde poderia ter uma espécie de controle sobre eles.
Inveja
Vera Holtz está tão empolgada com Ornela que criou para ela o verbo ornelar. Ao encontrar Silvio Abreu e Denise Saraceni na São Paulo Fashion Week do ano passado, quando eles a chamaram para o papel, ela não tinha noção do que poderia ser a Ornela. Essa coisa do cabelo longo louro, esse imaginário feminino. Não tinha idéia. Mas ela é uma animação, adoro ornelar! Primeiro que os homens mais velhos se divertem e brincam comigo. Dizem que estou espalhando o Mal, que é um péssimo exemplo para as mulheres e que estou acabando com a praia deles. Você vê? Outro dia abracei um senhor na rua que veio me xingar. Mas é preciso ter um background para fazer um papel desses. A Mulherada me fala entre os dentes: Você está pegando o Cauã Reymond... (risos). É tudo entre os dentes, secreto, com uma pontinha de inveja. Os gays dizem que estou inflacionando o mercado, que estou pagando muito caro para o michê, que ele não merece. Então é muito divertido. Mas eu não fico expondo a Ornela na rua, a não ser quando estou gravando, que saio montada. Raramente ando maquiada. O cabelo sempre está preso
Dondoca
Para compor o personagem, a atriz revela que inicialmente se aprofundou na leitura do texto. Depois, foi para São Paulo observar um pouco as mulheres da alta sociedade. Acho que a Ornela é uma homenagem à Eliana Tranchesi (dona da grife Daslu). Mas isso foi uma referência antes das acusações de sonegação e outras que ela tem sido acusada (risos). Na realidade, a idéia original é de uma mulher que se sofistica em São Paulo, através dessas grifes internacionais. Ela não trabalha, é uma dondoca. Lá, grande parte das mulheres estão sempre impecáveis, com os cabelos arrumados, sapato perfeito, carro lustrado... São alegres e têm uma vida muito boa. O lazer de São Paulo é de primeira. O mundo deles é cosmopolita. Ela é uma mulher educada, filha de italianos. Mas acredito que ela não seja quatrocentona...
Cinturinha
Oposto da sua última personagem, a Generosa, mulher do mato mal-humorada, de Cabocla, a atriz admite que precisava fazer aquele personagem. Depois da Santana (de Mulheres Apaixonadas), não tinha como fazer uma coisa explosiva e nem estava preparada para isso. Precisava passar pela carranca dessa mulher do mato, que tem um registro emocional pequeno, que é muito arcaica. A Generosa é a negação do afeto, do amor, da liberdade. Na Ornela tudo é divertido, mas demoro uma hora e meia para fazer cabelo e maquiagem. Para gravar Cabocla eu chegava 10 minutos antes, botava o chinelão de couro, soltava o barrigão, ficava corcunda. Com a Ornela, tenho de ficar com as cabeleireiras correndo atrás de mim, coloco umas cintas por baixo da roupa para fazer cinturinha. Ela é gorda, mas meio violãozinho. Tenho de trabalhar sustentada, empinada com o cinturão e barriga para dentro, cheia de jóias. Fico exausta no final do dia.
Cenas de sexo
Quanto à abordagem da prostituição masculina, através do personagem de Cauã Reymond, Vera Holtz confessa que nunca disse a nenhuma mulher que a abordou que pagava o garoto. Mas elas falam que se pudessem pagar um menino daqueles elas o teriam. Falam isso do lado do marido. O Cauã é muito dedicado. Gosta do que faz. Brincamos muito com isso e sempre tiramos fotos para eu mostrar para o Fernando (namorado da atriz). É um jogo para provocar. Combinamos que nas cenas de sexo não faríamos nada com fissura, com cara de tesão. Decidimos fazer como se eu tivesse a idade dele e ele a minha. Um encontro amoroso de duas pessoas que gostam de transar, mas nada de tara ou perversão.
Por isso, Vera Holtz faz questão que Ornela não tenha qualquer semelhança com a Marta, sua personagem de Presença de Anita, que seduzia o empregado. Aquela era pervertida. A Marta mandava, tinha uma coisa de poder com o empregado. Ela gostava de pegar o negro, de achar que tinha poder como branca. Não é igual ao desejo da Ornela, que é mais livre e contemporâneo. Aquilo mexeu com a mulherada. Foi quase uma cebola, tinha camadas e camadas. As mulheres lentamente se revelavam com um desejo sexual secreto de transar com um negro. Teve muita discussão de rua.
Para ela, o maior prazer que no personagem atual lhe dá é a liberdade de ir e vir que Ornela tem e esse saber lidar com o dinheiro sem culpa. No Brasil as pessoas têm muita culpa, ela é generosa. O que o dinheiro paga para ela não é caro.


