Mulher de teatro
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de abril de 2004
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Se existe uma arte bem explorada em Curitiba é o teatro. Daqui saem todos os anos inúmeros artistas, diretores, cenógrafos, produtores para fazer sucesso na televisão, cinema e nos palcos de outras paragens. Aqui está uma das principais incentivadoras desse processo de formação profissional: a atriz, diretora e produtora Regina Vogue.
Ela é uma mulher rápida, objetiva e que, desde cedo, se jogou no mundo atrás de palcos. Ela sempre fez isso. Não soube tirar da vida outra coisa. Nem quis. Com 44 anos dedicados ao teatro, Regina acaba de ganhar um presente da vida: um teatro com seu nome e no qual ela é também a responsável pelos espetáculos que abrigará o Regina Vogue fica no recém-inaugurado Estação Embratel Convention Center.
''Eu estou no Paraná há 23 anos. A minha vida é muito louca. A minha formação é teatro de pavilhão. É uma história tão engraçada que eu já contei para todo mundo. Fugi de casa aos 16 anos e faria tudo outra vez se preciso fosse. Vim trilhando e fui sentindo a necessidade de reciclagem. Eu mesma fui tomando conta disso. Fugi para ir para o circo. De lá para os pavilhões e aí foi minha formação. Tudo na prática.''
Desta primeira fuga surgiu uma vida nova que lhe deu dois filhos, Maurício e Adriano Vogue que também fazem teatro. ''Me sinto uma borboleta. Um dos meus filhos é meu braço direito e o outro é o esquerdo. Eles me ajudam com tudo no teatro. Um faz produção, o outro direção. Eu acho que ensinei bem meus filhos. Eles são minha relíquia. Minha obra. Nunca os forcei a entrar no teatro, mas eles escolheram. Foi da vontade deles. Tudo está dentro de nós. Por que é que eu estou aqui? Não planejei nada.''
Quando chegou de Porto Alegre em Curitiba, Regina lutou por uma trajetória clara e honesta junto aos colegas e sempre se apresentou como alguém que já era do ramo. ''A minha trajetória é subir escada devagar. Eu não quero subir depressa para não cair. Sou virginiana. Perfeccionista ao máximo. Sou detalhista. Eu quero poder dar minha opinião em tudo. Quero ter várias possibilidades. Eu sou uma mulher de teatro.''
Dizem que os gaúchos são bairristas. Regina contesta: ''Não sou de lugar nenhum. Sou do mundo. Não quero ter sotaque disso ou daquilo. Se eu pego é naturalmente. O que eu queria era ser artista. Desde que saí de casa queria isso. Como? Eu não sabia''.
A perseverança funcionou. Regina vive de teatro. Sempre viveu. Nunca pensou em desistir. ''Sobrevivi aos trancos e barrancos até hoje. Mas acho que é maravilhoso sobreviver disso por que é disso que eu gosto. Eu não quero outra coisa. Eu amo fazer teatro.''
No início, na sua chegada à cidade, Regina, como toda forasteira, se sentiu deslocada. Aos poucos foi aprendendo o jeito que o curitibano faz amizade. ''Eles não chegam de frente. Chegam de lado. Se ele não te conhece, ele não te cumprimenta. Tive dificuldades quando ia aos lugares. Não gosto de andar muito arrumada sempre. Tem dias que gosto, mas sou despojada. Adoro mudar a cor dos cabelos (já é sua marca registrada mudá-los).''
Tanta vontade de mudar vem de um processo interno de renovação de espírito. ''Eu olho para minha sala e não tenho dinheiro para trocá-los? Então eu mudo tudo de lugar e fica novo. Eu gosto de usar a criatividade. Isso é coisa de artista. Se não temos grana vamos ter criatividade. Nós do teatro temos que ter idéias. Elas não podem faltar na nossa cabeça. E eu sou um poço de idéias.''
Quando a coisa não corre muito bem, Regina assim mesmo continua. ''A gente leva umas invertidas. Umas bofetadas na cara. Muitas portas fechadas, que eu já levei 'trocentas'. Ai eu dou a volta por cima, não agrido ninguém. A minha vida me dá de volta. Sou meio profetisa. Profetizo minhas palavras. Por isso procuro sempre falar o bem.''
Como quem segue a vida aprendendo no momento, Regina aproveita a chance de ter um teatro com seu nome para tocar. Ela fez uma montagem do Rei Leão que está em cartaz, está com Selton Mello atuando lá também. E ainda prepara para o segundo semestre uma parceria com a produtora Letícia Guimarães, que trará Simone Spoladore no papel de Leonardo da Vinci.
''Eu não quero dizer estou pronta e realizada. Quero dizer estou pronta e aprendendo. Enquanto estou aprendendo estou viva. Estou trocando com as pessoas'', finaliza explicando o convite a uma outra produtora para tocar um projeto junto com ela.


