Mulher de fibra
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sábado, 07 de março de 2009
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Ela acorda cedo e já liga o computador. Confere os e-mails, vê as notícias, manda recados para os filhos e netos que moram em outras cidades, conversa no msn com a família e amigos e ainda encontra um tempinho para jogar paciência e xadrez virtual antes de sair para o trabalho. ''É para exercitar a mente'', ensina Dona Carmem Gerber Vargas.
O conselho vale para conquistar a vitalidade que lhe é peculiar. Aos 76 anos, oriunda de uma geração em que raramente uma mulher trabalhava fora ou tinha outros afazeres que não fossem cuidar da casa e dos filhos, essa curitibana rodou o Paraná já na infância, com o pai agrimensor. Formou-se depois dos 30 anos, após ter prometido ao filho que concluiria um curso superior antes dele e fez da sua vida um exemplo a ser seguido.
Aos nove anos, Dona Carmem já tinha desbravado o Estado com a família. Eram os anos 1940, e por causa do trabalho do pai, ela acabou não estudando regularmente. Só depois de se casar, aos 19 anos, e por conta do marido ''mente-aberta'', Carmem pode realizar o sonho de trabalhar. ''Meu pai sempre dizia: filha minha não trabalha fora. Quando casei e meu marido perguntou se eu queria trabalhar, agarrei a oportunidade com unhas e dentes''.
Carmem foi trabalhar no Ministério da Saúde e já estava se dando por satisfeita, quando o seu primeiro filho trouxe um questionário sobre a família para preencher em casa. Uma das questões pedia a instrução dos pais. Ela respondeu. Pai: superior. Mãe: primário. O filho quis saber o que aquilo significava e ela respondeu com uma promessa: ''Terminaria um curso superior antes dele''.
Meses depois, ela fez, em segredo, exames para terminar o que na época equivaleria ao ensino médio hoje. Só depois de ser aprovada contou à família. Terminou os estudos, fez vestibular na Universidade Estadual de Ponta Grossa e seis meses antes da formatura do filho, recebia o diploma do curso de Serviço Social. Foi quando ela passou a coordenar estagiários que faziam trabalhos no meio rural. Época em que coleciona histórias curiosas. ''Em Teixeira Soares, não havia luz elétrica e nosso ônibus tinha gerador. O maior sonho daquelas pessoas era assistir ao filme Paixão de Cristo. Pois trouxemos os filmes do Rio de Janeiro e passamos em várias localidades. Foi emocionante'', lembra.
Para ela, a experiência no meio rural foi gratificante. ''Aquelas pessoas eram de uma pureza incrível''. Dona Carmem trabalhou na área por décadas, e mesmo depois de se aposentar, em 1982, nem pensou em abandonar as atividades. Usou o tempo livre para se dedicar a uma das suas paixões, a jardinagem. Mas depois da morte do marido, quis ter ainda mais atividades para preencher as horas vagas. Há quatro anos decidiu voltar para Curitiba, após muito tempo morando em Ponta Grossa. ''Aqui, o computador tornou-se meu companheiro'', conta a jovem senhora que tem até página no orkut.
Por meio da internet, onde aprendeu a navegar sem maiores dificuldades, que ela entra em contato com os netos, que moram em Florianópolis, Rio de Janeiro e Suíça. ''Já faz tempo que eu convivo com o computador. Faço pesquisas, vejo receitas, falo com a minha família e até conheço novos amigos'', revela. Mas Carmem prefere não passar muito tempo em frente à maquina, pois sabe que tem muita coisa pra viver na ''vida real''.
Há um ano, Carmem decidiu realizar mais um sonho antigo: montou com a filha a Casa Lilás, um café no Centro Histórico de Curitiba. que reúne o comércio de artesanato com deliciosos quitutes com sabor de casa da vovó. O espaço tem um diferencial: no meio do concreto, um oásis com um jardim cuidadosamente mantido por Carmem. ''A jardinagem é uma terapia'', conta. E ajuda a manter-se ativo. Aliás, segundo ela, esse é mais um segredo para envelhecer com saúde física e mental. ''Tenho algumas limitações. Uso bengala, não posso fazer muitos exercícios, mas o fundamental é não parar'', diz. E Dona Carmem não para nunca.


