O ano de 2006 foi bem movimentado para a bióloga Selma dos Santos Pereira. Ela não só mudou para uma cidade maior como também entrou para o tão sonhado mestrado. Além disso arrumou uma bolsa de estudos com aval internacional e ainda um emprego inusitado. Mas apesar de ter passado o ano inteiro correndo contra o tempo para dar conta de todos os afazeres, Selma não deixou o sorriso de lado um minuto sequer. ''Já fui longe demais, mas não penso em parar'', avisa Selma.
À primeira vista, as conquistas da bióloga não parecem ser coisa de outro mundo. É o caminho natural de muitos estudantes. Mas olhando bem de perto, a trajetória dela se torna facilmente alvo de admiração. Até os 17 anos, Selma morou com a família em um sítio, nos arredores de Bandeirantes (34 quilômetros a leste de Cornélio Procópio). Foi por pura teimosia e curiosidade que ela entrou para a escola e não pensa em sair tão cedo.
Caçula de 10 filhos, Selma passou boa parte da infância e adolescência atrás dos irmãos mais velhos com muitas perguntas na ponta da língua. ''Sempre quis saber tudo'', entrega a bióloga. Única dos irmãos a frequentar uma faculdade e conquistar um diploma, Selma agora serve de inspiração para os sobrinhos mais novos, que já pensam em seguir os passos universitários da tia. Ela aliás, quer mais é que eles estudem. E muito.
''Quando morava no sítio, eu não sabia o que queria fazer, só sabia que queria estudar'', lembra Selma, que chegou a ficar dois anos longe dos bancos escolares por não ter uma escola perto da casa. ''Foi por isso que eu demorei para me formar'', conta. Mas agora ela corre atrás do tempo perdido. Pegou o diploma em dezembro de 2005 e em fevereiro de 2006 estava perseguindo o mestrado. Ela ainda tem pelo menos mais um ano e meio de aulas pela frente, mas já está planejando o doutorado. ''É necessário se eu quiser me tornar uma pesquisadora'', avisa. E é claro que ela quer. Tanto que está no caminho.
Bolsista do Japan International Research Center for Agricultural Sciences (Jircas), o centro internacional de pesquisa agrícola do Japão, Selma está desde abril fazendo pesquisas na Embrapa. E é pra lá que ela segue de segunda a sexta. ''Às vezes, aos sábados, domingos e feriados também'', conta a bióloga, que não descuida de seus experimentos nem mesmo nas folgas. Se bem que folga é uma palavra que ela não consegue usar muito. Nem mesmo usufruir.
Além das aulas do mestrado e das pesquisas na Embrapa Soja, Selma ainda trabalha como caixa da boate Empório Guimarães. Algo que consome suas longas madrugadas dos finais de semana. ''Comecei quase dois meses depois de me mudar para Londrina. A menina com quem eu divido a casa trabalhava lá na época. Ela saiu e eu fiquei'', explica.
''Às vezes nem eu sei como aguento, mas de repente aparece uma força do nada'', conta Selma, que finalmente ganhou uma semana inteirinha de descanso no recesso entre o Natal e o Ano Novo. Foi direto para Bandeirantes, rever a família e recuperar as forças para as próximas batalhas. ''Sempre luto muito para conseguir as coisas, mas também sempre aparece um anjo-da-guarda para me ajudar'', explica Selma, dividindo suas conquistas com pessoas generosas que apareceram pelo seu caminho.
''Minha meta é dar um futuro melhor para minha mãe'', avisa Selma, que começou a trabalhar como empregada doméstica. ''Quando me mudei para a cidade procurei outros empregos, mas não tinha experiência'', lembra. ''Mas nunca tive vergonha de ter sido doméstica. Quando a gente faz alguma coisa tem que fazer bem'', ensina. ''Uma das minhas patroas, que eu considero um dos anjos da minha vida, sempre me incentivou a buscar mais e estudar'', lembra.
O curso de ciências biológicas surgiu por acaso. ''Queria fazer direito, mas perdi a data da inscrição para o vestibular'', conta Selma. Ela hoje só tem a agradecer muito o desencontro de datas, afinal adora genética, tema do seu mestrado. ''Consegui um estágio em Jacarezinho e comecei a faculdade lá. Só depois transferi para Bandeirantes'', explica a bióloga, que se acostumou a andar muitos quilômetros atrás dos estudos. A mudança para Londrina foi num impulso. ''Vim com a cara e a coragem. Sem lugar certo para morar e muito menos o curso acertado''.
Já mais acostumada à cidade - ''no começo estranhei com o ritmo mais acelerado daqui''-, Selma planeja um 2007 mais estruturado. ''Quero melhorar meu inglês porque eu vou precisar no mestrado e nos congressos'', argumenta. ''Já conquistei muitas coisas, agora só falta a compensação financeira'', diz. Além de pesquisadora, ela também se vê num futuro próximo como professora universitária. Nada que ela não consiga. Garra é o que não falta.

mockup