Muito além dos perfumes
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de agosto de 2003
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O homem traz do seu passado as maiores referências para seu presente. Em vários estudos sobre a natureza humana, esta é uma verdade constatada. Quando era pequeno e ainda morava em La Paz, capital da Bolívia, onde nasceu, Miguel Krigsner gostava de atravessar a rua e ir até uma papelaria pedir a sua proprietária, uma alemã, que lhe desse os tubos degrafite vazios que ela não usaria mais. Nesses pequenos frascos, o dono da maior perfumaria do País (são 2.200 lojas, gerando 12 mil empregos diretos e indiretos), começou a brincar com água e tintas, sem saber que um dia trabalharia com os líquidos mágicos da sedução. Para falar como saiu dessa brincadeira e chegou hoje à direção d' O Boticário, Miguel Krigsner, 52 anos, recebeu a Folha numa entrevista exclusiva.
Folha - Quando criança o senhor já sonhava em ser dono de uma perfumaria?
Krigsner - ''Gostava de colocar água colorida dentro daqueles frascos. Gostava de ver uma estante cheia daqueles vidros. Engraçado, hoje eu faço um negócio muito parecido. Às vezes, fico pensando que algumas coisas na vida estão desenhadas. Mas se eu te falar que alguma vez tenha sonhado em trabalhar com o que trabalho hoje, ou que o Boticário estava na minha cabeça, jamais. Agora, sempre fui usuário de perfume. Sempre fiquei muito antenado ao que estava acontecendo no mundo da perfumaria. Antigamente o mundo era fechado. Você não tinha acesso a produtos bons. Éramos muito limitados e eu comprava os importados. Tinha meu armário abarrotado de fragrâncias.
Folha - E quando o senhor passou a perceber as conexões entre seu passado e o presente?
Krigsner - Agora estou chegando numa fase da minha vida em que busco essas conexões de perceber que as coisas não acontecem por acaso. Existem algumas coisas na tua trajetória de vida que vão, de alguma forma, te levando por um caminho.
Folha - Em 26 anos de O Boticário, qual foram os mistérios da perfumaria que o senhor foi desvendando?
Krigsner - Uma das coisas principais da perfumaria está muito ligada à auto-estima das pessoas e também à atração. Eu acho que o perfume encerra uma questão que é básica no ser humano, que é a atração. A atração sexual, a sedução. O fato de você se sentir bem. Se você está mal, dificilmente você vai usar uma fragrância. Vejo tudo muito ligado à sexualidade. Vejo a perfumaria diretamente conectada ao fato de querer atrair, enfim...não tem nada melhor que uma mulher chegar e dizer para você: que delícia de cheiro. Ou ao contrário. Essa questão do cheiro tem uma ligação intrínseca em você fechar uma conexão com o outro. Se acharem o teu perfume gostoso, de alguma forma você percebe que está sendo aceito. É o primeiro momento de você sentir que o outro ou a outra te percebeu.
Folha - Nas campanhas dos novos perfumes de O Boticário foram escolhidas mulheres como Daniela Escobar e Flávia Alessandra, existe uma interferência pessoal sua?
Krigsner - Antigamente mais que agora. Hoje temos uma equipe de marketing que acaba definindo o tipo que combina com o perfume. Normalmente, quando você desenvolve uma fragrância, já determina que tipo de pessoa quer atingir. Aí acaba fazendo um link com personagens, artistas que têm aquela imagem que você quer dar. Se mais jovem ou mais conservadora. Procuramos um fenótipo para o perfume.
Folha - O senhor se considera uma pessoa sedutora, no sentido amplo da palavra?
Krigsner - Talvez, não de uma forma pensada mas, com certeza, o que é você seduzir alguém? É você fechar uma sintonia e ver no outro que ele quer fechar uma conexão com você. Tem um jogo. É um jogo de aceitar e de ser aceito. Tudo isso de uma forma benigna. É uma coisa que eu faço. Não de querer corromper ou de causar algum malefício para o próximo.
Folha - Num Brasil com tanta desigualdade social o que o senhor tenta passar para suas filhas?
Krigsner - Em primeiro lugar colocá-las dentro de uma realidade de saber que existe uma tarefa enorme a ser feita no Brasil pelas pessoas que, de alguma forma, têm um privilégio por ter algum tipo de liderança. Essa tarefa é fazer essa liderança trazer algumas mudanças para o País. Isso é uma coisa que discutimos muito em casa. Como elas vão usar esse privilégio? Não em butiques. Não em chiliques, em coisas que você saia de uma realidade. Como usar as benções que caíram na vida delas e como usar isto tudo como um agente de transformação num país como o Brasil? Eu tenho trabalhado com elas nesse sentido. De mostrar os projetos de responsabilidade social que O Boticário tem desenvolvido. Fazer de O Boticário uma marca reconhecida como uma instituição. Tenho mostrado para minhas filhas como elas podem crescer em outras dimensões. Acho que não tem nada mais pobre do que você pensar na riqueza unicamente. Se a tua vida é apenas gerar resultado e dinheiro, isso é extremamente pobre. Você tem que deixar um legado que não seja a conta bancária.
Folha - Como o senhor, um empresário tão bem-sucedido, consegue levar uma vida tão simples na intimidade?
Krigsner - A coisa que eu mais detestaria é ter uma vida onde fossem valorizados apenas os aspectos materiais, aqueles que estão muito fora da realidade do meio em que eu estou convivendo. Prefiro ir a lugares simples aos chiques. Não gosto de badalações. Não me sinto bem. Gosto de estar misturado às pessoas normais. Ir ao supermercado é ótimo.
Folha - E nos momentos de lazer o que o senhor gosta de fazer?
Krigsner - Adoro cinema e sou muito caseiro também. Quando estou em Curitiba, gosto de conviver com minha família e uma roda de amigos bastante restrita. Acho que ter três, quatro amigos é um tamanho ideal. E gosto de fazer teatro de bonecos. Tenho um teatro de bonecos em casa. Gosto de confeccioná-los. Pelo menos uma vez por ano viajo e nem ligo para o escritório. Levo um ou dois dias para relaxar, mas depois entro em estado de letargia.


