Curitiba - A impressão que a maioria das pessoas tem a respeito dos médicos – de que são frios em matéria de emoções por lidarem com valores como a vida e a morte de uma forma mais crua –, escorre ralo abaixo ao depararmos como Sonia Davanso.
  Médica generalista comunitária, formada pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Universidade Bordeaux II França, Sonia está mergulhada em tudo aquilo que diz respeito à saúde pública e é a antítese de todos os possíveis julgamentos de frieza que seus colegas têm imprimido no coletivo ao longo dos tempos.
  ‘‘Eu comecei a me interessar muito por medicina comunitária. O que sempre me chamou a atenção na medicina era a repetição de casos, principalmente na área infantil. Muitos casos de diarréia e pneumonia. Então me sugeria que existia uma explicação social para tudo isso.’’
  Além de exercer sua profissão, Sonia é poeta, pintora e faz teatro. ‘‘Sempre gostei de ler, de literatura. Sempre li tudo o que caía na minha mão. Sempre li muito gibi, Mafalda e parei. Por conta da medicina, isso ficou de lado. Depois, com o passar dos anos, percebi que isso me fazia muita falta e retomei. Comecei a fazer teatro.’’
  Tudo ao mesmo tempo começou a acontecer em sua vida. Decidida a fazer uma tese de doutorado interdisciplinar sobre saúde pública e lixo e preocupada com o elo social que envolvia tudo isso, Sonia passou a freqüentar a Vila das Torres, uma das favelas mais famosas de Curitiba. Lá encontrou, logicamente, uma realidade distante daquela conhecida entre ambulatórios de hospital e livros de medicina. Encontrou homens e mulheres acostumados com uma vida utópica, mas, no entanto, conformados com sua vida.
  Como já estava envolvida com teatro, passou a ver aquela realidade de uma forma dupla: como médica e como artista. O fruto de tudo isso, de 11 meses infiltrada naquela sociedade, foi o término do trabalho de doutorado e um livro de poesias intitulado ‘‘Fabra Morata’’. ‘‘Tudo casou muito. Por coincidência, comecei a fazer teatro quando fiz as primeiras incursões no campo. Começamos a estudar Brestch. E é um teatro que propõe ao mesmo tempo uma representação e uma reflexão.’’ Ao encontrar esse universo subjetivo contraposto à objetividade da vida como médica, Sonia achou uma nova forma de viver e ver a própria vida.
  ‘‘Comecei a perceber que precisávamos ter um olhar sobre outras questões. A oportunidade foi um trabalho de sociologia enfocando o lixo. Aquilo era muito novo. Quando começamos na Vila das Torre, vi o número de nascimentos. Aquilo tinha muito a ver com minha área de estudos (um tempo em que ela trabalhou com nascidos vivos, ou seja crianças que nascem e continuam vivas). Lá nascem muitas crianças e isso me chamou muito a atenção.’’
  Além de discutir números, Sonia passou subjetivamente a ver por que aquelas pessoas da Vila das Torres tinham tantos filhos. ‘‘A gente não é um monte de pessoas empilhadas. Nós nos relacionamos e os nascimentos são a expressão dessas relações. Essa é uma abertura inicial para pensarmos no crescimento populacional.’’
  O que mais impressionou Sonia, ao começar a perceber essa realidade na Vila das Torres, era o número de mulheres com histórias de vida iguais. Meninas que, aos 21 anos de idade, já enfrentavam o terceiro casamento e a maternidade. ‘‘Achei que era uma pessoa que já tinha vivido demais para a idade. Ela me disse que não sabia por que tinha começado daquela forma. Depois conversei com uma senhora de 50 e poucos anos, que vivia no mesmo espaço, e a história era muito parecida.’’
  A proximidade com outra realidade e um aprofundamento naquele estilo de vida foi tão grande que Sonia sentiu uma ‘‘obrigação’’ com aquela gente. Pessoas que tão amigavelmente abriram as portas de suas casas e de suas vidas para ela. ‘‘Elas me diziam que estavam cansadas de serem frutos de estudos.’’ Uma intimação que serviu para que, além de lançar seu livro de poesias, onde há fotos de muitas dos personagens com quem ela conviveu, pensasse em fazer uma peça de teatro para elas.
  ‘‘Assumi um compromisso com as pessoas da vila de apresentar os resultados. Eles me diziam que estavam cansados de responder questionários. Como eles me ajudaram tanto, eu me senti na obrigação de fazer uma peça para eles.’’
  Com o título ‘‘Vila Paraíso’’ e autoria de Ethel Frota, a montagem já está na fase de ensaios e deve ser apresentada agora em julho no Pé no Palco, um projeto que monta o cenário na própria vila.
  Sonia repensou toda sua vida e a transformou ao longo de 11 meses que passou lá, e mais três meses em outra comunidade em Araucária. ‘‘Eu repensei toda a minha vida. Comecei a valorizar muito mais o que fazia fora do meu espaço de trabalho. Acho que dei um colorido maior a minha vida. Hoje já tenho atividades suficientes para me dedicar à arte. Hoje, a forma de eu me comunicar com a sociedade tem a intermediação da arte.’’

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