Muito além da ilusão
Katia Michelle
Equipe da Folha
Curitiba - Não é preciso circular muito no meio social para entender que o conceito da profissão de cozinheiro mudou. Saiu das quatros paredes que envolvem a cozinha para ganhar divulgação, status e um certo (ou muito) glamour que quem entende do assunto faz questão de ressaltar: não passa de ilusão. Eu chego em casa cheirando a cebola e com as pernas doendo de tanto ficar em pé. Tem dias que trabalho durante 14, 16 horas seguidas, confessa Daniela Prosdócimo Caldeira, uma das chefs mais respeitadas do Estado e com um nome tradicional a zelar.
A família de empresários até teve influência na opção profissional da curitibana, mas não por motivos exatamente ligados à sua carreira atual. Meu pai é um glutão. Sempre gostou de comer, brinca. Segunda filha de quatro irmãos, Daniela cresceu em Curitiba, cercada por grandes eventos culinários oferecidos pelo pai, Rogério Prosdócimo. Na hora de escolher o que cursar na faculdade, chegou a tentar arquitetura, mas acabou se formando em administração de empresas. A criatividade e a cozinha, no entando, ainda não estavam fora da vida profissional e pessoal da curitibana. A introdução desses elementos, hoje essenciais na sua carreira, aliás, estava apenas começando.
Já casada com André Caldeira, hoje vice-presidente do Grupo Positivo Informática, Daniela foi acompanhar o marido num MBA fora do País. Para aproveitar a experiência no exterior, optou por fazer o curso de chef, em Los Angeles. Escolhemos a Califórnia, por ser mais parecida com o Brasil, conta Daniela. Antes de viajar, ela já havia dado início a uma experiência com a gastronomia, em São Paulo, onde morou. Eu sempre me interessei pela culinária, mas achava que optaria por pães e doces, que sempre gostei de fazer, revela.
O processo de fazer e distribuir pães para pequenos restaurantes em São Paulo foi interrompido pela viagem do casal. Nos Estados Unidos, porém, ela deu início a sua formação profissional na área. Formou-se no French Culinary Institute e ainda fez outros cursos para se aperfeiçoar. No retorno ao Brasil, dois anos depois, um outro processo começou: o de formar a sua própria família. Grávida do primeiro filho hoje Daniela tem um casal ela e o marido decidiram voltar para Curitiba, justamente para ficar mais perto da família de ambos, radicada na capital paranaense.
Aqui, ela não parou de se dedicar à culinária. Continuou fazendo pães e doces e fundou a La Table. Os coquetéis, hoje o forte da carreira da chef, ainda não eram concorridos nos eventos como acontece atualmente. Essa cultura vem se formando nos últimos tempos, salienta. Quando ela começou, conforme lembra, a gastronomia ainda não era recheada com o glamour atual. Hoje, o coquetel é um plus. É um chamativo para o evento.
Mas, ainda assim, conforme ressalta a chef, ainda existe muita gente que encara de forma ilusória a profissão. As coisas não estão prontas, você tem que preparar. Eu passo muito tempo cozinhando. Além disso, demora muito para se firmar no mercado de trabalho, alerta Daniela, cujo nome já se transformou numa (boa) grife quando o assunto é culinária. Seus coquetéis são feitos com muita criatividade, desde a escolha dos ingredientes até a forma de servir as iguarias, que se revelam verdadeiras obras de arte. Meu diferencial é que tenho verdadeira paixão por criar. Acho que sou meio bruxinha, meio fada, brinca.
Paixão que às vezes pode se tornar um obstáculo, dependendo do cliente. Em alguns eventos, o cliente tem restrições a alguns ingredientes, mas eu sempre peço para ele provar. Caso contrário sempre tem um jeitinho, porque quando faço um evento, meu objetivo é agradar pelo menos 90% dos clientes, diz. E agrada, tanto que ela é uma das mais requisitadas chefs da Capital. Faz cerca de cinco eventos por semana e ainda está prestando consultoria para um restaurante que vai abrir em breve em Curitiba, mas os detalhes ainda são mantidos em segredo. Só uma coisa é certa e, quando o assunto vem à tona, Daniela é categórica: não vai abrir o seu próprio restaurante.
Com a La Table, fazendo eventos e consultorias, ela tem uma coisa que não abre mão: .Controlo meu próprio tempo, e isso sempre foi meu sonho: ter uma profissão em que eu pudesse conciliar trabalho e família. diz. Quando a culinária passa para o nível pessoal, ela confessa. Em casa não cozinho muito, exceto quando vamos receber os amigos. Além disso, comer comida elaborada todos os dias, cansa, gosto mesmo é de uma comidinha caseira, revela.





