Muito além da gramática
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de agosto de 2009
André Simões<br> Reportagem Local 
Escolas abrindo e fechando por aí, em velocidade espantosa, não faltam em Londrina - chega a ser difícil acompanhar qual a última inauguração, aquela que trocou de dono e foi para outro lugar, aquela que mudou de nome... As poucas instituições que conseguem se estabelecer, de modo geral, cada vez mais apostam em superestruturas.
Nesse contexto competitivo, os 30 anos do curso de língua portuguesa comandado pelo professor Carlos Fortes, são, mais do que mera data redonda para celebração, um espanto: o espaço físico é enxuto - duas salinhas, uma pequena secretaria, algumas carteiras. O controle das mensalidades ocorre num clima de antiquada informalidade, com os alunos escolhendo a data para pagamento e, quando ocorre um atraso, ouvindo um semana que vem você traz em vez da inexorável multa; para completar, o investimento em publicidade é raríssimo e não há site do curso na internet.
Contrariando as tendências, no entanto, as aulas de Carlos Fortes se tornaram referência na cidade quando o assunto é língua portuguesa, com ênfase na temida redação dos vestibulares: sobram testemunhos de ex-alunos atribuindo aprovações ao método do Pró-Linguagem, curso criado em 1979 pelo professor Carlos.
Graduado em Letras pela UEL, com mestrado pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), o professor dá aulas de português desde 1968, quando, com apenas 18 anos, começou a trabalhar em cursinhos de Londrina. Buscando um sistema diferenciado de ensino, abriu o próprio negócio em 1979.
A que pode ser atribuída a longevidade? À seriedade, ao compromisso com o aluno e ao fato de não subestimar sua inteligência, afirma Carlos. A avaliação do professor pode ser melhor entendida quando se assiste a uma aula do curso: o esquema é mesmo diferente. Nos grandes colégios da cidade, não raro outros professores apontam suas aulas como reforço ideal - este repórter é testemunha.
De cara, um aluno é interpelado diretamente: Rafael, de onde vem sua habilidade para fazer dissertações?. Ante a mudez do aluno, o próprio professor completa. Da observação da realidade - viver é uma experiência dissertativa. E daí seguem diversas reflexões críticas sobre sociedade e comportamento, não faltando afirmações polêmicas: O MEC deve estar brincando ao aceitar esse modelo de vestibular; Chamar nossos velhinhos de melhor idade? Parem com humorismo para imbecis!; Mata quem inventou esse negócio de querer é
poder!.
Em entrevista à FOLHA, o professor se justifica: Sou muito firme nas minhas afirmações porque preciso servir de referência para meus alunos.
Se as declarações irreverentes chegam a ser comuns num ambiente de cursinho, aqui há o diferencial de não aparecerem num contexto de aula show, com a finalidade de promover a descontração: Fortes transmite franqueza em suas intervenções, aproximando-se dos estudantes para estimulá-los ao livre pensar. Aos poucos, a observação tímida por parte dos alunos dá lugar à participação coletiva, quando se constróem pontos de vista, com cotejo de argumentos e contestações. Ao final da aula, a maioria dos alunos já se manifestou diretamente, sendo ouvida, avaliada e tendo uma resposta imediata por parte do professor.
A fórmula parece que vem mesmo dando certo: Muitos colegas de profissão invejam minha posição rara de professor autônomo, confessa Fortes. É bom ser independente, porque meu método e meu discurso são independentes também. Junto com a independência, porém, vem a responsabilidade: Presto satisfações sozinho pelo meu conteúdo, observa.
Fortes garante, no entanto, que nunca teve problemas ao externar suas opiniões sobre os mais diversos assuntos, mesmo os espinhosos: são constantes em suas aulas críticas a políticos, instituições e até mesmo a colégios e personalidades londrinenses. Nunca me furtei ao exercício da crítica, porque é uma atividade inerente ao processo dissertativo. Mesmo sendo católico, devo discutir certos dogmas; mesmo sendo Fluminense, tenho a obrigação de apontar que o time está uma droga,
esclarece.
Vendo os alunos sendo provocados, a reportagem se inspira e resolve provocar o professor: não é incômodo como educador, tendo desenvolvido um método no qual acredita e que se mostrou eficiente, ter de se limitar a dar aulas para a elite? Fortes não desvia do assunto e argumenta: Não me incomodo de dizer que a elite me sustenta. Meu método só funciona com salas pequenas e, sendo assim, cada aluno tem de pagar mais. O professor, no entanto, problematiza o tema: Às vezes, eles vêm reclamar do preço que cobro. A pergunta que deve ser feita é: por que os colégios não oferecem um serviço aos moldes do meu, se
os alunos já pagam caro lá?.
A questão evolui para algo próximo a uma declaração de princípios: Comecei com o Pró-Linguagem porque via necessidade de oferecer algo mais, as salas de colégio eram muito grandes, sentia que poderia tirar mais proveito dos alunos. Fortes sintetiza seu objetivo com uma frase de efeito, mas de grande significação: Meus alunos têm de sair melhores do que entraram a cada aula; caso contrário, é terapia ocupacional, não é aprendizado.


