Curitiba- Para a maioria das mulheres, o passar dos anos pesa aos ombros, para Etelvina Frota, ou melhor Etel Frota, a chegada dos 50 anos foi leve. Nascida em Cornélio Procópio, na década de 50, numa família numerosa, ela sempre foi daquelas pessoas decididas a não passar a vida em vão. Aluna determinada, sem ser estudiosa (na sua avaliação era ‘safa’), aos 20 anos, depois de fazer faculdade de ciências em Cornélio Procópio, foi cursar medicina em Londrina. Formou-se na UEL e passou a faculdade trabalhando no Banco do Brasil. Sua vida tinha tudo para seguir um curso natural de estudar, trabalhar, casar, ter filhos e se aposentar. E foi assim até um certo momento.
  A mudança de doutora Etelvina aconteceu logo após seus 40 anos, coisa que não deu tempo nem para ela comunicar aos amigos antigos, como os de Londrina, por exemplo. ‘‘É uma baita esquizofrenia porque meus amigos londrinenses mal me conhecem nessa outra encarnação’’, brinca. E que mudança foi essa? Bem, em um certo momento da vida, a doutora, especializada em clínica médica, foi tomada por um sentimento avassalador e de repente pôs-se a escrever poemas. Virou Etel Frota, escreveu um livro, o ‘‘Artigo Oitavo’’, passou a ser reverenciada e hoje trabalha exclusivamente com isso. Escreve desde roteiros para shows musicais, dirige peças, faz músicas, enfim está vivendo dentro de uma mesma vida, uma experiência totalmente antagônica a que se programou.
  A determinação em de repente mudar tudo na vida é herdada do pai que, aos 70 anos formou-se em direito depois de ter passado mais de 50 anos com apenas o 2º ano do primeiro grau como instrução. ‘‘Depois que eu terminei, medicina meu pai disse: agora eu vou. Ele tinha 65 anos. Fez supletivo do 1º e 2º grau, vestibular e passou em direito na UEL. Aí ficou doente, teve que trancar a faculdade. Fez vestibular de novo, e com 70 anos se formou e ainda advogou. Agora, aos 80, sossegou o facho’’. Essa história exemplar do pai de Etel dá um sopro de entusiasmo não somente na filha, mas em qualquer um que acha que está tarde para se fazer algo. A familia de Etel é realmente versátil e com veia artística. Seu irmão é Eduardo Tadeu, artista plástico que mora em Londrina.   Etel nunca se perdeu muito na hora de ter que se dividir entre o trabalho no Banco do Brasil. Durante todo o curso trabalhava à noite e estudava de dia. ‘‘Trabalhava madrugada adentro. Eu hoje só de lembrar fico cansada. Quando surgem essas perguntas sobre idade só tenho uma coisa a lamentar: é que é mais fácil para engordar e mais difícil para emagrecer. Porque o resto é tudo melhor. Muito jovem eu não dormia, não comia, fumava pra caramba. Hoje tenho inclusive mais vigor físico. Virei uma velhinha zen’’, brinca, muito longe de poder ser enquadrada como tal.
  E em algum momento do passado havia um contato com a arte, a poesia? ‘‘Olha, para não dizer que não havia contato nenhum, eu lia Ferreira Gullar, Thiago de Mello, mas tudo por uma veia política. Eu escrevia num jornalzinho da UEL, o Poeira, uma tendência de esquerda. Durante todo tempo em que eu estava na faculdade fui do DCE. Num tempo superbicudo. Então minha ligação com literatura, poesia, com arte se forjou nessa coisa da militância política. Hoje em dia essa ligação não existe mais. Etel se considera alienada aos ventos da política.
  Sem nenhuma intenção de mudar de opção, Etel passou 18 anos trabalhando como médica. ‘‘Parei com tudo em 98. Saí do consultório. Parei de pagar CRM e hoje sou uma médica na clandestinidade’’, conta ao relatar o quanto foi drástica a decisão de mudar de ramo e se embrenhar num caminho totalmente dedicado ao oposto do que a medicina é. Mas essa mudança não significa ter deixado para trás o que viveu. Para Etel a análise é clara: ‘‘Acho que a gente é a somatória de todos os dias que vivemos até hoje. Então medicina foi um ideal, uma maneira de perseguir um sonho de humanismo, solidariedade. Foi uma grande ampliação de vida pelo tanto de gente cujas vidas eu participei. Durante muito tempo trabalhei com dependentes químicos e isso foi um período muito rico. Tenho pacientes, famílias inteiras que hoje são meus amigos e que acompanham o que eu faço hoje. Até me emociono. Não sinto que houve uma interrupção. Porque eu não virei as costas para minha inserção no mundo.’’
  E por que música, poesia, letras de musicas? ‘‘Na verdade lembro que eu tinha uma devoção por letras de músicas. Lembro do meu primeiro radinho de pilha. Lembro da cor. Do cheiro. Tinha uma radio em Cornélio Procópio que o programador, era o Adelson Alves. Foi ele quem produziu a carreira da Clara Nunes. E sempre gosto de falar que ele foi responsável por uma porção de gente de lá daquela época ter se ligado em música.’’
  Bem depois da virada e chegando nos dias de hoje, a artista pode dizer que fez uma boa troca de ‘casca’ na vida. A prova disso? O tanto de gente que a procura para fazer parcerias. Nomes como Alice Ruiz e o aval de um de seus mestres, Thiago de Mello. É dele o prefácio de seu livro. Ao ver os escritos de Etel, Thiago deu seu aval e virou um amigo. E assim a artista segue com versos que explicam o sentimento que tomou conta dela: ‘‘Circulam em mim sete humores... mandam em mim, fazem lei. Uns conheço. Uns se escondem. Sobre estes uns nada sei’’.

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