MUDANÇA DE ARES
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de março de 2001
Karla Matida 
Ex-repórter da Folha, Luciane Tonon agora trabalha como comissária de bordo, mas não abandona o jornalismo
Há cerca de um ano e meio, a jornalista Luciane Tonon, então repórter da Folha de Londrina/Folha do Paraná, resolveu mudar de ares e traçar novos caminhos. Deixava o jornalismo para embarcar em uma nova profissão, a de comissária de bordo. Fluente no francês e espanhol, ela hoje está na rota internacional da TAM e a cada 10 dias voa para Paris ou então para Miami.
E o que faz alguém trocar uma profissão por outra tão diferente? Para Luciane, voar foi sempre um sonho, algo que surgiu na infância e não foi esquecido. Mas eu nunca vivi querendo isso, era uma coisa de criança mesmo, conta ela, que também é formada em Educação Física, e exerceu a profissão nos nove meses que morou na parte francesa da Suíça.
Um dia eu abri a Folha e vi um anúncio de um curso para comissárias de bordo. Percebi que poderia pagar e que tinha a idade certa, lembra Luciane, que na época dividia o tempo entre as aulas e as reportagens. Trabalhei na Folha durante cinco anos, e foi uma bagagem para a minha vida, explica a jornalista, que era repórter na editoria de Cidades, onde fazia coberturas de assentamentos de sem-terra a tiroteios.
Mas entrei no curso apenas por uma realização pessoal. Só que eu sou muito temente a Deus e, durante o curso, pedi um sinal, lembra Luciane, que logo em seguida recebeu a proposta da TAM, que além de ser financeiramente melhor, também traria a oportunidade de falar francês.
A minha intenção era voar e depois penetrar nas revistas de bordo ou nas de viagem e turismo, explica Luciane. E tudo aconteceu mais rápido do que ela poderia imaginar. Uma semana após começar o trabalho, já estava de volta ao jornalismo, na equipe que lançou a revista de segurança de vôo da empresa, dirigida especificamente para o público interno, da tripulação a funcionários que não tiram o pé do chão.
E tudo foi tão bem que, no segundo número, a TAM foi premiada internacionalmente como a melhor revista de segurança de vôo do mundo. E o tema é o alvo de interesse de Luciane, que já pensa em fazer mestrado sobre o assunto, ligado, é claro, ao jornalismo. Na entrega do prêmio, ano passado, em New Orleans, pude conhecer o jornalista David Lemmounert, com renome mundial, conta ela, que tem feito cursos e mais cursos sobre segurança de vôo.
O comissário é um técnico em segurança, o serviço de bordo é o de menos, conta Luciane, que ainda se lembra dos três dias vividos dentro da mata, durante o curso de sobrevivência. Segundo ela, muito mais difícil do que as aventuras de No Limite.
Eu nunca passei por nenhuma situação difícil durante os vôos, diz Luciane, que pensa em escrever um livro sobre as histórias que presenciou nos ares. Algumas são muito engraçadas, comenta.
É claro que tem estresse, mas é só durante o vôo. Depois que o último passageiro desembarca, acabou. No jornalismo é diferente, o estresse acontecia antes, durante e depois. Sempre fui muito preocupada em ponderar os dois lados e ia para casa pensado se tinha sido fiel às fontes, lembra.
E se, por acaso, ainda sobrar algum estresse pós-vôo, Luciane tem como relaxar à beira-mar. Quando não está trabalhando, está em Santos, onde mora, com direito a uma bela vista para o mar. É jeito de sair da rotina, explica. E a rotina, além do trabalho nos ares, inclui um dia de trabalho por semana em solo, na revista de segurança de vôo.
Depois de cada viagem internacional, toda a tripulação tem, por direito, no mínimo 36 horas de descanso. O que significa pelo menos um dia e meio para curtir a iluminada Paris ou a ensolarada Miami. Eu ando, corro, fotografo, faço compras e aproveito mesmo, conta.
A partir dos próximos meses, Luciane também poderá conhecer novas rotas, já que a empresa estará inaugurando vôos para Buenos Aires, Frankfurt e Madri. Puro glamour, não?! A profissão é muito chique, mesmo quando estamos trabalhando no solo, a gente se veste de trajes sociais, explica.
Se para a maioria das pessoas essa rotina de viagens a Paris e Miami soa maravilhosa, o público interno colegas comissários acha que eu tomei a decisão contrária. Em geral, eles abandonam os vôos para fazer uma faculdade e seguir outra carreira, explica.


