Mórbida reincidência
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terça-feira, 11 de setembro de 2001
André Bernardo 
O ator Reginaldo Faria anda meio desconfiado. Ultimamente, ele tem gravado em lugares bastante lúgubres. No cinema, interpretou o fantasma mais cínico da literatura brasileira, no filme ''Memórias Póstumas'', de André Klotzel e na cena do enterro de Brás Cubas, teve de entrar num caixão. Na tevê, Reginaldo começou a gravar a novela ''O Clone'' no Rio, depois de passar 15 dias no Marrocos. A primeira cena de Reginaldo feita no Brasil não foi das mais animadoras. Ele gravou no Cemitério São João Batista, na Zona Sul do Rio, a cena do enterro de Diogo, um dos gêmeos vividos por Murilo Benício. ''Já perdi a conta de quantas vezes gravei em cemitérios. Você acaba se acostumando. Só fico tranquilo porque sei que eles também estão tranquilos'', brinca.
Na trama de Glória Perez, Reginaldo vai interpretar o empresário Leônidas Ferraz. Quando Diogo morre em um acidente de helicóptero, Leônidas acaba patrocinando o projeto de clonagem humana sem saber. Dono de uma grande corporação, ele já financiava as pesquisas do cientista Albieri, personagem de Juca de Oliveira, sobre fertilização humana.
Cético, Reginaldo nunca acreditou que a Ciência pudesse dar um passo tão grande rumo à clonagem de seres humanos. Ele só teme que o sonho se transforme em pesadelo no dia em que governantes mal-intencionados usarem os avanços da ciência para fins escusos. ''Acho tudo isso uma loucura. Preferia que continuasse do jeito tradicional. É muito mais gostoso...'', afirma, com uma piscadela maliciosa.
Na primeira fase de ''O Clone'', que estréia no dia 1º de outubro, o personagem de Reginaldo vai aparecer 15 anos mais jovem. Para tanto, o ator precisa passar uma hora na sala de maquiagem para colocar um aplique no rosto, que estica os olhos e o pescoço. ''O rosto fica muito duro e armado. A impressão que tenho é que, se eu mexer muito, o rosto vai soltar e sair voando igual a uma bola de gás'', exagera. Mesmo assim, o papel tem lá suas compensações. Afinal, o ator vai fazer par romântico com a sempre impressionante Vera Fischer. Na trama de Glória Perez, Vera interpreta Yvete, uma mulher não muito confiável que, durante uma viagem ao Marrocos, vai ter um caso com um dos filhos gêmeos de Leônidas. Foi no Marrocos, aliás, que Reginaldo teve a oportunidade de conhecer uma faceta da atriz completamente diferente daquela que normalmente sai nas capas dos jornais e revistas. ''A Vera é uma mulher muito sensível, zen, na dela'', descreve.
No Marrocos, Reginaldo aproveitou também para conhecer um pouco da cultura local. Na cidade histórica de Fés, onde a novela foi gravada, o ator fez compras e visitou mesquitas. O passeio só não foi mais agradável porque ele queria dormir de madrugada e os moradores da cidade acordavam bem cedo para fazer suas orações. Segundo a religião islâmica, os fiéis muçulmanos têm de se voltar na direção de Meca, cidade natal do profeta Maomé, fundador do Islamismo, cinco vezes ao dia.
Reginaldo também não se adaptou muito à culinária marroquina. O carneiro que ele degustou num restaurante da capital Rabat não caiu lá muito bem. ''Fiquei desarranjado por quatro dias'', detalha.
De volta ao Brasil, Reginaldo Faria festeja uma das melhores fases da carreira. Além do cinema e da tevê, o ator está também em cartaz no teatro, com a peça ''Dia dos Namorados'', que ele mesmo escreveu. Mal começou a gravar ''O Clone'', ele já pensa em seu próximo projeto cinematográfico. Ainda este ano, ele pretende captar recursos para adaptar ''A História da Vida Privada no Brasil'', de Laura de Mello e Souza e Luiz Felipe de Alencastro, coleção em quatro volumes que narra o cotidiano da sociedade brasileira a partir do período colonial. ''Ainda não sei se eu mesmo vou dirigir ou se passo a direção para o Régis Faria. Já vivi tudo o que podia viver e quero agora dar oportunidade aos meus filhos'', garante.


