Momentos de rara beleza
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de julho de 2006
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Paris- A fatia mais glamourosa e milionária da criação têxtil está prestes a desaparecer. A morte anunciada da alta-costura já foi dada há bastante tempo mas, duas vezes por ano, quando os maiores conglomerados de moda mostram sua coleções ao mundo, essa sentença fica suspensa no ar.
Ao todo são 12 grifes a fazer parte do calendário oficial da Federação Francesa de Moda, mas o número de apresentações off aumenta para quase 30 nas mais diferentes localidades da agora quente Paris.
Em meio a um escaldante sol de verão, Dior com John Galliano como mestre de verdadeiras obras de arte inspiradas em filmes que remetem ao inferno, à uma linda mulher da metade do século passado ou ainda em musas bem atuais com pinta de roqueiras ricas, ele mostrou sua nova coleção: é o planeta Botticelli que veio à tona.
A mente delirante de Galliano leva todo mundo ao espanto. E o que são os vestidos cheios de referências históricas? E o que são as viagens conceituais feitas por um estudioso criador? As roupas mostradas na badalada apresentação Dior, com mais de 200 pessoas (entre elas celebridades como Cher) somente no backstage para ver e pararicar Galliano vestido de astronauta, são como matrizes, como valiosas telas a óleo que, pouco a pouco, dentro dos escritórios de desenho e núcleos de criação da grife vão se desdobrar em outras tantas coleções.
De um suntuoso bordado numa manga podem nascer simples camisetas com o mesmo trabalho. De uma saia longa e rebuscada podem sair várias outras bem menos trabalhadas para as coleções prêt-à-porter que vão ser desfiladas em outubro próximo. Já que a alta-costura não rende como deveria, tendo atualmente algo em torno de duas mil ricaças esparramadas pelo mundo para consumi-la, por que não desdobrá-la? É por isso que ela ainda sobrevive com momentos de rara beleza.
De um outro lado desse momento brilhante e histórico da alta-costura está monsieur Karl Lagerfeld. Tanto ele quanto Galliano são os maiores nomes da atualidade no segmento. São estrelas máximas que, ao saírem de cena, até o presente momento tudo indica: não deixarão herdeiros. As previsões já estão feitas. Se Lagerfeld trabalhar até quando seu contrato com a família Wertheimer prevê, ou seja, por mais sete anos, ele chegará aos 80 anos. E se Galliano renovar com a LVMH Moet Hennessy Louis Vuitton, de Bernard Arnaud, vai passar dos 50. Previsões que só confirmam que a alta-costura está com os dias contados, mas não vai desaparecer, enquanto essas duas figuras excêntricas e geniais continuarem na ativa. E que ação.
Lagerfeld, apesar de não pirar na mesma intensidade de Galliano, é capaz de fazer coisas incríveis. O estilo menina de botas de cano alto com vestidos curtos e luvas bordadas encanta. Suas botas, agora na grande maioria em jeans, que chegam até a confundir a gente por parecer uma bota-calça, foram feitas pelo fazedor de sapatos Massaro e ficaram incríveis. Com seus saltos bordados e muitas delas com os canos também, as peças já são um ícone Chanel. Nada mal para um senhor de 73 anos, que odeia engordar, e que é um grande gozador quando trata com a imprensa. Além do mais, Lagerfeld já superou de longe seu grande desafeto Yves Saint Laurent (eles foram amigos por mais de 20 nos e estão brigados há 30, segundo o prprio Lagerfeld em declaração recente à mídia francesa). E pelo menos profissionalmente superou a parada. Quase ninguém fala de monsieur Laurent.
Depois desses dois há outros bons momentos dentro da alta-costura, mas nada genial. As bem-feitas e elegantíssimas roupas de Elie Saab. Repetitivas na criação de Christian Lacroix e sem graça nas de Giorgio Armani. Há ainda os novos costureiros como os portugueses da Stoty Taylor, uma fatia alternativa da alta-costura e bem interessante até, mas nada, nada mesmo pode ser comparado aos magníficos momentos protagonizados por Galliano e Lagerfeld para Dior e Chanel.
Contraponto
Less is more menos é mais vem, acreditem, da Dior. O ponto de partida foi o movimento Modernista, em particular a escola de arte Bauhaus, anunciou John Galliano ao mostrar o outro lado da moeda da grande grife com a Cruise, coleção mostrada recentemente em Nova York. Afinal, representa o quê? Que a moda quer roupas mais simples de usar. A Modernidade e Criatividade Pura e simples sofisticação anunciada pela Dior dá o tom dos diferentes caminhos que o mercado tem.
O elemento-chave da Cruise é o laqueado e os tecidos trazem um brilho limpo com formas gráficas. Jaquetas desestruturadas, jeans brilhantes, vestidos para cocktail e para noite em tecidos metálicos, jerseys laqueados usados com couro metálico. As cores cinza , prata, dourado pálido, acentuadas pelas tons de aspargo, menta, azul-pálido e coral, diz Dior. Prova concreta de que há espaço para todos os tipos de consumidoras dentro das cabeças geniais de, novamente, Galliano e Lagerfeld. Sim, porque a Chanel também fez sua Cruise Collection esse ano. (A.C.G.)


