Alguns anos atrás, a consultora de moda Glória Kalil acreditava que já tinha feito de tudo na moda. Começou como jornalista na Editora Abril, teve experiência na indústria têxtil e comandou durante cerca de uma década uma das grifes mais desejadas da época, a Fiorucci (quem não se lembra dos anjinhos?).
Mas quando iniciou a carreira de consultora percebeu que muita coisa ainda poderia ser feita. Hoje, além de viajar pelo País ministrando palestras - tarefa que, aliás, a trouxe para Londrina na semana passada -, também comanda um site de notícias de moda e comportamento (www.chic.com.br) e tem um programa de rádio. Como se não bastasse, teve uma participação especial no televisivo Mais Você, de Ana Maria Braga, e ainda escreveu três livros best-sellers nos últimos nove anos.
Ela não fala em datas, mas diz com bom humor que trabalha com moda ''há muito mais tempo do que vocês podem imaginar''. Nome conhecido até mesmo para quem não dá a mínima para a moda, Glória Kalil é referência de elegância e bom gosto. Não por acaso, os três livros são manuais do bem vestir (Chic e Chic Homem) e das boas maneiras (Chic(érrimo)).
A incursão pelo mundo dos livros foi totalmente por acaso. ''Um dos primeiros clientes da minha consultoria foi o Senac, que me pediu um vídeo sobre estilo. Durante a apresentação das pesquisas me sugeriram que escrevesse um livro'', lembra Glória, que não só aceitou a idéia como a transformou em um sucesso de vendas. Tanto que precisou criar uma versão para os homens. ''Chi(érrimo) é uma junção de comportamento, moda e estilo'', explica Glória sobre o livro de etiqueta lançado em 2004.
Além de surpreender a si mesma com as variadas possibilidades que a moda oferece, a consultora também conseguiu surpreender aqueles que estão sempre rodeados de novidades como os fashionistas. No primeiro semestre deste ano, Glória chocou muita gente ao lançar o primeiro seminário internacional de Fashion Marketing. O tema polêmico fez muita gente pensar e refletir, justamente o que ela queria ao disparar: ''A moda brasileira brilha, mas não vende''.
Uma chacoalhada em muita gente. Não só no planeta fashion, mas também nos políticos e industriais. ''O mercado interno está extremamente reduzido. O País não cresce há mais de 10 anos. Temos um mercado não-comprador, diferente dos anos 80, quando existia um mercado comprador. Naquela época todo mundo queria moda, hoje existem outras prioridades'', explica.
''Não podemos deixar de tomar uma providência quanto a isso'', avisa Glória, que deve voltar ao assunto na segunda edição do seminário, marcada para abril do ano que vem. ''É preciso repensar juros, tarifas, alíquotas e o câmbio'', diz a consultora, de quem o País se acostumou a ouvir apenas dicas de moda e etiqueta. Mas ela prova que é preciso ir muito além do glamour das passarelas. ''O Brasil tem uma moda criativa e uma indústria têxtil razoavelmente equipada. Faz tudo direitinho. Só falta vender'', relata.
Mas para a platéia que lota o auditório para a palestra, o discurso de Glória envereda por caminhos mais fashion mesmo. A principal dica da consultora, ao contrário da efêmera moda, pode ser levada à risca para toda a vida. ''O espelho é o grande conselheiro'', diz ela. É pelo espelho que se descobre que as nossas proporções vão além do alta x baixa e magra x alta. ''É preciso olhar de frente e de costas'', ensina.
Glória Kalil enfatiza que ''moda é oferta. Estilo é escolha''. Ela relaciona o ato de vestir com uma receita de bolo. Para se vestir, segundo ela, é preciso escolher entre os vários ''ingredientes'' disponíveis. ''Tenho o hábito de ler a roupa. Não se assustem, mas sei exatamente o que a pessoa está querendo me dizer com a roupa que está vestindo'', garante a consultora
''A roupa é um depoimento, uma linguagem. Quanto maior o vocabulário, melhor você se expressa. É assim com as roupas. Um passeio pelo shopping é uma aula'', ensina. Quanto a ser chique, ela explica que é quando se sabe aliar aparência com conteúdo. ''Eu dou mais valor ao conteúdo. De que adianta estar bem vestido e ser ignorante e grosseiro?'', analisa.
''Olhe e só escolha o que for bom para você. Escolha uma roupa que te represente'', diz Glória. Para ela, nada consegue ser tão forte quanto a segurança de se estar com a roupa certa. ''A moda dá essa segurança'', afirma.
Para o Verão 2007, a consultora pinça algumas das tendências mais fortes apresentadas nos eventos São Paulo Fashion Week e Fashion Rio. Com ótima memória, ela consegue dizer os nomes de todas as marcas até mesmo pelo cós de uma calça apresentado numa foto. ''Não é uma estação de grandes novidades, de ruptura'', define, enquanto mostra uma série de fotos dos desfiles das semanas de moda paulista e carioca.
Na lista de Glória aparecem os vestidos curtos ''do joelho pra cima'', a modelagem trapézio (vestido em forma de A), as salopetes (jardineiras), macacões, macaquinhos, pantalonas (''que só ficam bem para aquelas com proporções longilíneas) e túnicas (''que poderiam aposentar as batas''). O branco ganha um destaque especial: ''Usar branco pede audácia, não adianta apenas uma calça e uma regata básicas. O branco total tem que ter um depoimento mais de moda. Por que não um cinto de verniz?'' Shorts e bermudas (''também pode ser meio balonê'') também entram na lista de tendências, assim como a estampa africana, o degradê, o xadrez, os metalizados e o verniz.
Em tempo: apesar de tantos compromissos, a consultora se prepara para se aventurar em mídia nova. O desafio agora é a telona do cinema, para onde Glória irá produzir spots com dicas de moda para ser transmitidos antes de alguns filmes. Vem coisa chique pela frente. Ou melhor, chic, como ela prefere.

mockup