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Moda do bem


Érika GonçalvesReportagem Local
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Letícia Sales, de 29 anos: "Desejamos que as pessoas queiram ajudar os outros, por isso nossos produtos são bonitos, de qualidade e não muito caros"
Letícia Sales, de 29 anos: "Desejamos que as pessoas queiram ajudar os outros, por isso nossos produtos são bonitos, de qualidade e não muito caros" | Arquivo Pessoal





Aos 29 anos, Letícia Sales realizou parte dos seus sonhos. Em sociedade com o jovem indiano Peeyush Rastogi criou a Happee, marca que comercializa bolsas, lenços e sapatilhas. Além de promover treinamento e incentivar o trabalho de artesãos indianos, dois dólares de cada peça vendida são doados a uma ONG indiana que cuida de crianças soropositivas.

Nascida e criada em Londrina, Letícia foi para São Paulo para estudar Moda e lá permaneceu trabalhando por sete anos. Entretanto, desejava algo mais. Além de ter a própria empresa, a jovem estava desanimada. "É difícil trabalhar com moda, é uma área em que a gente investe dinheiro e esforço e não remunera muito bem, isso na cadeia como um todo. Tanto que há diversas marcas com problemas relacionados a trabalho escravo. E isso não é só no Brasil, é no mundo todo", explica.

Em 2013 Letícia descobriu o Aiesec, uma organização sem fins lucrativos que facilita as experiências de liderança e intercâmbio em outros países. "Eles ajudam pessoas como eu a fazer uma experiência de trabalho remunerado ou voluntário em algum outro país que eles tenham vagas. Resolvi tentar, nem precisava ser em moda, mas quando entrei vi que tinha muitas vagas nessa área, porque muitas empresas brasileiras fabricam roupas em empresas do exterior. Elas querem brasileiros com experiência em moda para fazer contato com essas empresas. Eu achei dois intercâmbios ao mesmo tempo, era um trabalho voluntário de seis semanas na Itália e outro na Índia, de oito meses. Me inscrevi para os dois, acabei selecionada para ambos e em duas semanas eu tinha largado o meu emprego em São Paulo e estava em um avião para a Itália, e depois fui para a Índia."

Imigrantes ilegais
Apesar de considerar a experiência na Itália muito boa, ela conta que ficou chocada ao descobrir que muitas das peças vendidas por grandes marcas e tidas como feitas no país por artesãos italianos, na verdade eram feitas por imigrantes ilegais chineses, vivendo em condições subumanas. "Tem uns galpões divididos em cubículos e nesses cubículos moram famílias chinesas. Cada cubiculozinho é uma fabriquinha e o pessoal das marcas vai lá pedir para eles fazerem as produções. Cheguei na Índia mais descrente ainda", conta Letícia.

No país ela foi trabalhar em uma empresa em Jaipur que faz roupas para marcas de grande volume no Brasil. O trabalho de Letícia era fazer contato com essas lojas para apresentar as coleções. Segundo ela, lá quem costura são os homens, já que as mulheres têm por tradição ficar em casa cuidando da família. Eles recebem cerca de R$ 300, por uma grande produção. Mas o que mais a chocou foi a condição de vida das mulheres.

Muita pobreza
"São muitas coisas que te marcam desde o começo. Eu já achava que trabalhava em uma indústria muito desigual, mas fui para um país em que qualquer lugar tudo é muito desigual, tem muita pobreza. Um dia minha empresa fez um evento, promoveu um desfile e convidaram mulheres importantes na sociedade de Jaipur e cada uma fez um discurso, e todas falavam sobre salvar as meninas. A Índia tem uma cultura, especialmente entre os mais pobres, de matar as meninas logo que nascem. Eles preferem meninos, porque a filha gera muita despesa, quando casa vira parte da família do marido, além de que a família tem que pagar o casamento da filha e o dote. O ultrassom é proibido para identificar o sexo porque o aborto é legalizado lá. Quando nasce uma menina ela é abandonada ou morta", relata.

Foi durante o trabalho que ela conheceu seu sócio, que trabalhava na Aiesec de Jaipur. Segundo ela, Rastogi tinha várias ideias semelhantes às dela. Depois de várias pesquisas ela descobriu uma empresa norte-americana que vendia sapatos e revertia parte do valor para crianças argentinas. Letícia já admirava algumas peças produzidas por artesãos indianos e, após ler um livro sobre a experiência desenvolvida pelo empresário norte-americano, decidiu que era isso que queria fazer.

Sapatilhas
"Vi que era assim que conseguiria mesclar moda com uma remuneração mais justa. Eu tinha que vir ao Brasil para renovar meu visto e aproveitei para trazer sapatos, bolsas, lenços, sapatilhas, para ver o que as pessoas iam aceitar melhor. E começaram a aceitar muito bem as sapatilhas. Depois registramos a empresa e começamos a estruturar, buscar fornecedores e também ONGs em Jaipur para nos associar. Encontramos uma que dá moradia, educação, tratamento médico e alimentação para quase 50 crianças soropositivas para HIV. Muitas vêm de vilas rurais muito pobres, com a saúde bem debilitada."

Operando com vendas on-line desde julho de 2015, a Happee comercializa peças feitas por artesãos com técnicas diversas. Grande parte da venda é para brasileiros, mas já venderam também para consumidores do Reino Unido, França, Estados Unidos e Austrália. "Queremos fazer um produto durável, pois queremos reduzir o consumo desnecessário. Além disso, queremos que as pessoas queiram ajudar os outros, por isso nossos produtos são bonitos, de qualidade e não muito caros para que queiram comprar", finaliza.

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