Mestre das cores
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de novembro de 2007
Karla Matida<br> Reportagem Local 
As vaidosas de Londrina e região conhecem muito bem as mãos poderosas de Olavo Gomes. Cabeleireiro e maquiador há mais de 15 anos, ele formou uma vasta e fiel clientela que se deixa levar com as dicas de cortes e penteados do profissional. A mesma clientela que tem reclamado um pouco nos últimos tempos porque Olavo anda sem tempo na agenda. Isso porque ele resolveu se dedicar com mais afinco à uma paixão de infância, a pintura.
Nascido em Uraí, Olavo Gomes se mudou ainda pequeno para Londrina, e foi por aqui que teve os primeiros contatos com tintas e pincéis. Isso no tempo em que passou a acompanhar a mãe nos cursos de pintura. ''Ela não tinha com quem me deixar'', lembra Olavo. A curiosidade infantil logo o levou a dar os primeiros sinais de que tinha jeito para as artes plásticas.
A mãe, orgulhosa das habilidades do garoto, passou a incentivar o filho com cursos e materiais. E também se transformou em uma espécie de empresária e marchand, quando o pimpolho artista tinha cerca de 13 anos. ''Cheguei em casa e ela tinha vendido as minhas obras'', conta ele, que não tem lembranças boas da sua primeira venda. Tanto que demorou muitos anos para comercializar as suas telas outra vez.
''Foi bem traumático porque foram as telas que eu mais gostava'', explica. ''Questionei porque minha mãe não tinha vendido as dela e ela disse que tinham gostado mais das minhas'', lembra. Com o dinheiro das telas, Olavo, mesmo a contragosto, comprou mais material para sua arte.
Apesar do sonho de seguir carreira e frequentar a faculdade de Belas Artes em São Paulo, ele acabou incorporando a máxima de que ''vida de artista é difícil'' e foi prestar vestibular para o curso de Arquitetura. Com tanto talento para o desenho, nem precisava, mas fez os cursos específicos para as prévias. ''Fiz mais para mim mesmo'', conta Olavo. Entrou para o curso e por lá ficou até quase o finalzinho. ''Foram três anos e meio estudando, mas vi que não era aquilo que eu queria. Não queria fazer móveis, criar casas e nem ficar cercado de números'', diz.
Mas foi na época da faculdade, e meio sem saber direito como começou, que ele passou a cortar os cabelos dos colegas. Usava o dinheiro para pagar cursos e mais cursos. ''Quando ia a um salão só faltava perguntar para a cabeleireira porque e como ela respirava. Sempre fui muito interessado e acabei aprendendo'', relata Olavo.
''Encaro o cabelo como uma escultura. Tem toda uma geometria como base. É arte na cabeça, é artesanato'', diz. Durante anos, o trabalho como cabeleireiro e maquiador acabou eclipsando a pintura. Ele não chegou a parar totalmente de pintar, mas seus quadros foram se amontoando num quartinho. Até que um dia um amigo arquiteto surgiu para descobrir seu talento.
''O Marcelo Melhado apareceu em casa, gostou do meu trabalho e propôs usar em uma mostra de decoração. A princípio fiquei preocupado e com vergonha, mas depois aceitei. E fiquei empolgado quando a minha peça foi a primeira a ser vendida naquela edição'', lembra Olavo. Lá se vão cerca de seis anos e, desde então, ele tem vendido regularmente suas obras, principalmente telas de grandes proporções e com toques de impressionismo.
''Estudei os grandes mestres, mas foram os impressionistas que sempre me atraíram. Tanto que ele passou quase dois dias inteiros no Museu D'Orsay, em Paris, um dos grandes templos do impressionismo mundial. Apesar de se dar bem com os pincéis na hora de maquiar, Olavo prefere mesmo a espátula quando chega o momento de pintar, em geral às segundas e terças-feiras, que são os dias da semana reservados para a pintura. Antes eram apenas as folgas de segunda.
Mesmo se dedicando cada vez mais às telas, ele avisa que não vai abandonar o salão - para alívio da clientela. ''É o momento de socializar, de conversar com as pessoas'', garante o cabeleireiro, pintor e maquiador. ''Quando estou pintando, estou sozinho e concentrado''. A companhia no caso é só o computador.
Em tempos modernos, Olavo usa a câmera digital e o computador para auxiliar seu trabalho em prévias informatizadas. Mas ele não abandona o lado mais artesanal, que é quando monta sozinho as próprias telas. ''Estico o tecido e passo a tinta'', explica o artista, que não abre mão dessa função.
''Não acreditava que as minhas telas fossem agradar. Achava que eram só para mim'', confessa. A procura constante de galerias e clientes de Londrina, Ribeirão Preto e Florianópolis e São José do Rio Preto provam que ele estava totalmente enganado.


