Mente brilhante
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de outubro de 2005
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
CuritibaAdvogado de mão cheia, ex-bancário, ex-ator de teatro, membro da Academia Paranaense de Letras, articulista de jornais do estado, professor de Direito Penal, ex-juiz do TRE, ex-secretario da Cultura no governo de Álvaro Dias (1988 a 1992), membro de uma comissão instituída pelo Tribunal Superior Eleitoral que vai revisar temas polêmicos como os crimes eleitorais, enfim, dono de um currículo que preenche páginas, René Ariel Dotti é mais que isso. É um cavalheiro. Comporta-se como tal em tudo o que faz. Na educação com que recebe a equipe da Folha para uma entrevista em que vai contar sua vida, ou no modo como pede a uma de suas assistentes que lhe traga alguns artigos que escreveu.
Conversar com René Dotti, de fala mansa, pausada e cheia de nuances, é hipnotizante. Ele conta fatos de seu passado, da época em que era adolescente e ainda nem tinha se definido pela profissão que o destacou com uma precisão impressionante. Orgulha-se da família do pai pintor e da mãe costureira e lembra com carinho de detalhes como as bacias onde ele e a irmã eram banhados na infância.
Com inteligência emocional forte, Dotti sentiu cedo um interesse pela medicina. Chegou a pedir a um primo para lhe emprestar umas apostilas de física e química, mas aí viu: não dava. Não tinha nenhuma afinidade com biologia e física. Com essa constatação ficou inquieto. Que caminho iria tomar? Foi quando numa festa de final de ano, daquelas em que todos vestiam smokings, que um amigo lhe sugeriu o curso de direito. Não havia cursinho naquela época, então me preparei e fiz o vestibular. Quando conferiu o resultado, Dotti lembra que começou a ver os aprovados de baixo para cima e não seu nome. Claro, havia tirado oitavo lugar.
Um mundo novo se abria junto com outro que René também estava destrinchando. Ele e alguns amigos, como o ator Ary Fontoura, fundaram o que chamaram de Sociedade Paranaense de Teatro. Uma paixão. Uma vocação forte batia então na veia de Dotti. Fez 14, 15 peças. Atuou, dirigiu. Foi uma experiência muito rica para mim, conta. Até que chegou a hora da escolha. Ary Fontoura fez a sua. Iria para o Rio de Janeiro dar continuidade à carreira de artista. E René ficou muito balançado. Mas escolheu o direito pela segurança que a carreira oferecia. Dessa escolha não fica melancolia e sim uma agradável nostalgia. Diria que o que pesou foi a opção de vida, a profissional. Não que eu sentisse no direito mais encantamento que no teatro. Não é o problema da sedução ou do encantamento, mas o da escolha profissional. Eu sentia que Curitiba não teria a condição de desenvolver a profissão e eu não tinha a coragem que o Ary teve de ir embora. Ele se libertou dos grilhões. Rubem Braga disse que o local onde nascemos exerce uma força sobre nós, de gravidade sentimental, e eu não pude fugir desta força. A cidade me prendia. Vamos confessar, eu não tinha a coragem de sair para o mundo novo.
Foi por esse contato com a arte que anos mais tarde ele chegaria a Secretaria da Cultura e permaneceria ali durante quatro anos. Foi por essa experiência também que, na década de 50, manteve em jornais locais colunas onde escrevia sobre teatro. Dessa época também ficou uma lembrança boa. Ele conta que a Secretaria da Cultura era uma usina de sonhos e que conseguiu fazer muitas coisas proveitosas em sua passagem por lá. Mas sua experiência com teatro lhe serviria mais ainda. Inclusive para a profissão. Não há texto de direito que eu redija que não coloque uma ilustração, seja ela de teatro, de literatura. Quando defende essas causas também entra a influencia teatral. Nós sempre estamos interpretando na vida. E o advogado procura interpretar o papel que lhe é confiado pelo seu cliente. Ele procura entender aquele problema e transmitir. São as linguagens que diferenciam. Os cenários são diferentes.
Quando passou pelo TRE, Dotti também fez sua escolha pela carreira de advogado. Sente-se confortável e livre nessa posição. O magistrado não tem uma função. Tem uma missão. Eu acho que a advocacia tem mais liberdade. Eu tenho liberdade para aceitar ou recusar uma causa, se vejo que a causa não está de acordo com o que eu penso.
Aos 70 anos de idade, René Ariel Dotti tem hoje cerca de 18 livros publicados. A grande maioria na área de direito, mas também há espaço para contos e dissertações sobre a carreira do advogado. René avisa que a primeira coisa que fez ao chegar nesta idade foi proibir formalmente que falem em sua aposentadoria. Um amigo queria fazer uma serie de cerimônias para iniciar as atividades de sua aposentadoria. Eu proibi dizendo o seguinte: eu não vou me aposentar. Certamente serei aposentado pelo recurso da idade. E tem mais: Dotti quer criar uma visão mítica de sua aposentadoria. Quer deixar todos na dúvida sobre sua aposentadoria precoce, brinca. Eu não posso me imaginar fora do contexto acadêmico. Fora do meio universitário.
Tanta paixão pelo trabalho tem algumas explicações bem fundamentadas. Além do conselho médico de prosseguir. Em primeiro lugar, a mente ocupada é uma espécie de vacina para as próprias doenças da mente. E em segundo o fascínio que eu tenho em dar aula, dar palestras para estudantes. Por exemplo, agora estou dando uma série de palestras sobre o que pode o estudante pode fazer pelo Brasil?
E o que vem nessa palestra? Estou desenvolvendo dois tipos de idéias. A primeira delas é que seja qual for a sua profissão, o fundamental é ser feliz com o que está fazendo. Agora, ao escolher, estude. Três coisas fundamentais. Estudar. Estudar. Estudar. Estudar não significa uma vida de monge trapista, mas significa conhecer. Procurar saber de que maneira você pode reduzir o tempo de trabalho. Segundo, o que pode fazer pelo Brasil? Vamos aprimorar a Justiça Eleitoral. Aí entra o que estou fazendo. Uma revisão de crimes eleitorais. Mas vamos lutar para que a Justiça Eleitoral tenha cada vez mais condições de fiscalizar as eleições.
Com tantas idéias fica difícil decifrar René Ariel Dotti em uma matéria de jornal. Cheio de nuances, ele aparece como alguém que tem uma capacidade inesgotável de ensinar, o que lhe fomenta mais ainda a vontade de continuar.
Tamanho empenho profissional, no entanto, não fazem de Dotti um homem despreocupado com a aparência. Conservadíssimo, ele tem tempo para jogar tênis cinco vezes por semana e ainda fazer esteira quando chove. Todo dia acordo cedo, às 5 horas, e faço exercícios. E acorda mesmo. Quando a reportagem da Folha pegou o elevador para ir embora após a entrevista junto a uma de suas assessoras, ela contou: A gente recebe e-mail dele às 5 horas. É de uma dedicação total.


