Memória brilhante
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de agosto de 2005
Ana Clara Garmendia<br>Equipe da Folha 
Curitiba- Ewani Wolff é uma das pioneiras no Brasil a dar um tratamento fashion ao couro. Foi de sua mente avançada e exigente que nasceu a idéia de criar a grife Tactile, há 13 anos. Com lojas no Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo a grife é hoje um exemplo de qualidade ao trabalhar com o couro dos ovinos deslanados do nordeste brasileiro.
A vontade de criar roupas surgiu quando ela conheceu esse material diferenciado. Sabia que para isso acontecer teria que vender em lojas próprias. Ponto. Esse é um capítulo de sucesso da empresária. Mas a história dessa mulher que nasceu no interior do Rio Grande do Sul e foi criada dentro dos princípios da cultura italiana tem vários outros capítulos que, entremeados, se mesclam e dão origem a outros, como sua primeira obra literária.
À Luz da Lamparina foi originalmente lançado este ano nos corredores da Bienal durante a São Paulo Fashion Week. Prefaciado por Costanza Pascolato o livro foi escrito por Ewani que resolveu prestar uma homenagem à mãe, uma mulher guerreira que ficou viúva precocemente e viveu num contexto de dificuldades financeiras trabalhando na roça e costurando à noite sob a luz da lamparina para alimentar suas crias. Há poucos meses nas livrarias a obra já agrada críticos e surpreende a autora. ''Para minha surpresa alguns críticos estão sinalizando que o livro tem vários pré-requisitos para fazer sucesso inclusive como obra literária. Isso está vindo além do que eu tinha imaginado porque o objetivo do livro era escrever a história da vida da minha mãe e fazer uma homenagem a ela'', conta em entrevista exclusiva à Folha, durante o lançamento do livro em Curitiba.
A surpresa da escritora, porém é carregada de humildade. Antes de Ewani fazer sucesso como empresária ela lecionou letras e linguística. É formada em Letras pela Unisinos e Mestra em Linguística pela PUC-RS. Só depois de 20 anos trabalhando nessa área é que Ewani entrou para o campo da moda. Há cerca de quatro anos, ao ver a mãe enferma mostrar o desejo de ver sua vida contada em um livro, ela resolveu tomar frente do projeto. E é aí que se vê uma perfeita harmonia entre as duas. Ao ler o livro é impressionante como a autora entra numa simbiose com a mãe. ''Minha mãe perdeu parte da memória, mas no meio dessa tentativa de recuperação manifestou o desejo de ter escrito um livro. Então como ela não podia mais, me atribui a função de escrever.''
Quem vê Ewani hoje como uma grande empresária jamais poderia imaginar que ela poderia ter uma tão vasta riqueza de vivências puras. Na obra, ela conta detalhes, como a primeira vez que viu a lua cheia e também teve o primeiro contato com um sabonete. São coisas que aparentemente podem, neste contexto aqui, não ter significado algum, mas que no livro ganham vulto por mostrar um relato emocionado de alguém que de repente se viu de volta ao caminho da linguística, impulsionado pelo desejo de fazer um acerto de contas com seu passado.
''Uma das coisas que chama atenção é a força da memória que é manifestada no livro. Eu conto coisas que lembro desde quando eu tinha dois anos de idade. Isso chama a atenção das pessoas. A Costanza, quando estava lendo o livro para escrever o prefácio, me ligou num sábado e disse que eu tinha uma memória fabulosa e me perguntou a que eu atribuía isso'', lembra a escritora.
Para ela o fato de ainda ter em mente detalhes tão pequenos foi alvo de uma profunda reflexão e também de questionamentos de seus filhos. ''Fiquei pensando porque para meus filhos é difícil lembrar e cheguei a conclusão de que é tanta coisa que eles têm para ver, assistir, se informar, que fica um pouco confuso e que talvez guardem pouca coisa daquilo que eles vêm. E eu morava no interior do Rio Grande do Sul e esse isolamento fez com que eu guardasse. Por exemplo: o que é que tinha para a gente brincar? Nada. Caco de tijolo, pedacinhos de madeira. Eu tinha mesmo era que olhar para o céu e ver a claridade que a lua dava'', lembra. ''Eu consigo essa memória, contar tudo, porque eu tenho gana de viver'', complementa.
Crescendo num universo de chão batido e às vezes sem ter o que comer foi construindo a personalidade da empresária que hoje está repleta de sucessos. Para escrever o livro ela passou nove meses num sítio escrevendo. Apesar de não ter se afastado totalmente, foi a filha quem tomou conta dos negócios. ''Descobri que para escrever esse tipo de livro tens que fazer uma imersão, um isolamento. Porque tu tens que buscar esse passado e ele só vem se tiveres tempo para isso''.
O livro pronto significa a ''coisa mais importante que eu fiz na minha vida'', conta emocionada. Com essa disposição para valorizar tudo que lhe acontece na vida Ewani aproveita o momento para curtir o sucesso e se preparar para outros que hão de vir. A mãe já teve acesso a obra e obviamente demonstrou emoção. E a grife também vai muito bem. Para o lançamento do livro a Tactile apresentou uma coleção casada com as histórias de À Luz da Lamparina. As cores do lugar onde Ewani foi criada com seus três irmãos e com a mãe surgem nas roupas por meio de uma pesquisa onde tendências internacionais e vivências pessoais se casaram perfeitamente. Uma conexão entre o passado e o presente que vem funcionando bem. ''Mesmo essa coleção, que tem o livro como tema, não deixou de ter caráter internacional'', esclarece.
Essa união entre o livro e a coleção que Ewani conseguiu imprimir e que trazem duas vivências suas mostra que literatura e moda combinam. ''Elas caminham de mãos dadas. Se nós considerarmos que a língua é comunicação e se estendermos isso à moda ela é uma forma de comunicação. Tem tudo a ver uma coisa com a outra. Nós não precisaríamos ter tudo escrito a respeito da história da moda, mas poderíamos escrever toda ela só olhando para o vestuário'', ensina.


