Me ensina que eu aprendo
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sábado, 26 de junho de 2010
Diogo Cavazotti<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Gratidão. Esse é o sentimento que Regina Vogue tem ao completar meio século de carreira. A atriz, diretora e produtora teatral acumula diversas conquistas no currículo. A última delas foi receber um teatro para administrar, que leva o nome da atriz. Catarinense, ela se considera gaúcha, mas vive em Curitiba há 29 anos e não pretende morar em outro lugar.
Quem não a conhece pode até se surpreender em vê-la recolhendo ingressos na entrada do Teatro Regina Vogue, localizado no Shopping Estação, em Curitiba. Porém, isso é mais comum do que se imagina. O motivo é simples: Regina gosta de estar envolvida em todas as etapas do teatro.
Desde o começo, a vida profissional de Regina foi assim. Aos 16 anos, ela saiu de casa, sem o apoio da família, e pediu emprego em um circo. Destinada a seguir com os artistas, perguntou se poderia ir embora com eles. O dono perguntou o que ela sabia fazer. A resposta foi rápida: ''Eu quero aprender. Se vocês ensinarem, eu aprendo''. No mesmo dia integrou a equipe da trupe.
Lá, era responsável por lavar, costurar e arrumar as roupas dos artistas. Regina dormia em uma barraca, sem o glamour que o picadeiro aparentava ter. No cardápio diário só havia polenta. Para entrar no palco, ela começou a costurar as próprias roupas e atuava como partner de mágico, além de cuspir fogo e ser a cobaia no número do atirador de facas. Porém, a apresentação mais difícil era a de força capilar, onde Regina ficava pendurada apenas pelos cabelos e fazia movimentos e giros no ar.
Pouco tempo depois conheceu um teatro, em Florianópolis. Como nunca havia assistido a uma peça, foi conhecer o que era aquilo. Saiu emocionada e com uma certeza: queria ser atriz. No outro dia pediu emprego no lugar. O dono do espaço perguntou o que ela sabia fazer. Regina disse que sabia cuspir fogo, fazer força capilar e ser partner de mágico. ''Ele falou que eu estava equivocada. Aquilo era um teatro e não um circo. Então eu disse que eu aprenderia, caso ele me ensinasse''. O senhor então falou que Regina poderia fazer o guarda-roupa. ''Eu fiquei tão feliz e imaginei que seria o guarda-roupa em uma peça de teatro''. O dono riu e completou: ''Não moça, você vai cuidar das roupas dos artistas''.
Regina dormia em cima de uma mala de roupas, que ficava em um quarto para os figurinos. Com o tempo, começou a participar de peças como figurante. As participações cresceram aos poucos, até que Regina se tornou atriz profissional. Depois, seguiu para Curitiba, onde recebeu convites para participar de montagens teatrais. O dinheiro era curto e ela chegou a trabalhar como barman e também faxineira do Teatro José Maria Santos, em 1985. A dedicação trouxe frutos. Hoje, Regina Vogue é a atriz viva mais importante do teatro paranaense.
Em março, a atriz recebeu o 17º troféu Gralha Azul da carreira, uma homenagem aos 50 anos de trabalho. ''De todos que ganhei, este foi o melhor, pois não houve competição'', conta. Todos os troféus estão expostos no escritório da atriz, onde trabalha um dos filhos, Adriano Vogue. Ele é quem cuida das finanças do teatro. O outro, Maurício, segue os passos da mãe e já possui um nome forte no meio cultural, dirigindo peças infantis de destaque.
Depois de muitos anos, a paixão de Regina pelo teatro continua a mesma. Até hoje é ela quem lava os figurinos que usa nas peças. ''Os atores querem tudo pronto, na mão. Mas temos que aprender de tudo um pouco''. Na lista de trabalhos também estão incluídas participações na televisão e no cinema.
Ultimamente ela tem se dedicado a cuidar de cachorros abandonados. Só em casa tem quatro, além de um gato. O ingresso para a estreia da peça em setembro será um pacote de ração, para doar à entidades que cuidam dos animais.
Regina tem um outro cachorro, de pelúcia, chamado Gratidão. Sempre que pode ela agradece ao Gratidão. Assim, acredita que quanto mais agradecer, mais coisas boas acontecerão. ''Se eu tenho as coisas hoje, é devido ao meu passado, a minha luta, aos meus altos e baixos. Nunca podemos esquecer do que a vida nos ensinou. Se hoje eu sei administrar um teatro, é porque eu aprendi. Foi tudo muito difícil, mas nada impossível''.
Aos 66 anos, ela confessa que tem muito o que aprender, pois ainda erra todo dia. Mas não tem pretensão de acertar sempre. ''Não quero dizer que estou realizada com tudo, senão poderia ficar em casa sem fazer mais nada. Vou continuar trabalhando até quando puder''.


