Lúdico olhar sobre os diamantes
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de dezembro de 2006
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba- De uns anos para cá, em meio a tantos grandes nomes de joalherias poderosas com matriz no Brasil, um novo nome começou a se impor. Suas peças fogem do convencional, são mais leves e representam um trabalho que justamente o mercado ansiava por ter. Muitas vezes se multiplicam. Foi assim que o carioca Antônio Bernardo se firmou como um queridinho de atrizes, socialites e endinheiradas com livre acesso aos aeroportos internacionais. Ele faz o que muitas queriam usar e não sabiam onde encontrar. Mas a história dele não começou simplesmente de uma hora para outra. Tem muita coisa por trás.
Seu amor pelo trabalho de manuseio de ouro e pedras preciosas é atávico. A família tinha uma loja de ferramentas para ourives e relojoeiros, mas na adolescência ele ainda não tinha se interessado pelo assunto. Não tinha a consciência de que ali em frente a seus olhos estava o seu futuro premiado.
Foi só ao se desiludir com o curso de engenharia que a sua verdadeira vocação despontou. Aos 22 anos fez sua primeira jóia. Não era bem clara essa vocação na minha cabeça. Eu ia muitas vezes na loja da minha família. Conhecia os insumos para fazer jóias, a cozinha, a parte de trás, mas não tinha pretensão de me tornar um designer, conta ao relembrar seu passado numa conversa durante sua passagem por Curitiba, para um almoço de lançamento de suas peças em uma loja chique da cidade.
Voltando à peça inicial, que ele considera uma espécie de matriz para todo o desenvolvimento de seu trabalho, era um anel de prata. Ele fez para uma conhecida e ela ficou deslumbrada.
Feito o experimento veio o gosto instantâneo por aquele sentimento lúdico de criar um encantamento nas pessoas. Todas as outras peças derivam dele conta. A tal peça tinha duas partes, uma encaixava na outra ou podia também ser usada separada. Um processo de desdobramento de uma jóia. Uma coisa nova que lhe trouxe a abertura de um caminho sem volta na arte da criação.
Tudo sem pretensão, mas com afinco, e a carreira de Antonio Bernardo foi se desenvolvendo mesmo. Os caminhos de identidade com as jóias estreitaram e ele foi cada vez mais criando coisas novas e incríveis.
Esse trabalho de desdobramento teve obviamente um grande crescimento intelectual e técnico. No início, o designer somente desenhava o que queria, com o tempo montou uma oficina em sua casa e passou ele mesmo a manusear os metais e gemas preciosas. Ele queria ter certeza de que a obra ficaria exatamente com o toque e a visão imaginada. Passei a entender os processos de criação mais profundamente, entendê-los em outra dimensão. Existe um dialogo entre você e a matéria, divaga.
Plugado no que acontece no mundo, mas dono de um trabalho autoral, ele continua certo de que o lúdico deve sempre permeá-lo. Com isso, acaba muitas vezes se vendo como apontador de tendências. E não é mera pretensão do entrevistado. É fato. Este ano, Antonio Bernardo ganhou um prêmio na Alemanha por seu anel Puzzle. A peça que lhe deu o IF em Hanover foi inspirada nos famosos quebra-cabeças.
Antonio Bernardo criou também o Free, um anel onde os diamantes estão soltos dentro de um vidro ou cristal com uma base de ouro. Queria dividir a experiência de ver as pedras soltas como quando eu trabalho nelas, explica. A idéia já virou objeto de desejo de gente que gosta e muito de ouro e diamante, mas busca novas formas de portá-los.
Apesar de ter um trabalho inovador, ainda existem coisas que são eternas e permanecem. Uma delas? O amor que as mulheres têm pelos diamantes. Segundo nosso entrevistado, elas não tem somente o ponto G (que dizem ser o local exato a ser estimulado para a mulher chegar ao orgasmo). Elas têm também o ponto D. Marilyn Monroe, a grande diva do cinema comprovou isso quando cantou que os diamantes eram os melhores amigos das mulheres. O diamante provoca nas mulheres uma sensação difícil de entender. É a mesma coisa os homens senteem por uma bela máquina (em italiano, bella machina é usado para descrever um carro incrível) compara. É isso aí.
Mais sobre
- O trabalho de Antonio Bernardo com desdobramento de peças lhe garante o título informal de mestre dos encaixes.
- Os anéis Ciclos, Expand e Celebration, premiados na Alemanha, também ganharam concursos em Londres e na Inglaterra.
- Vez por outra o designer cria em parceria com estilistas. Em 99 fez uma coleção para a grife carioca Maria Bonita.


