Londrinense constrói prédio no país dos terremotos
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domingo, 19 de fevereiro de 2012
Paula Costa Bonini <br> Reportagem Local 
O londrinense Gustavo Tomasetti Marcondes gosta de desafio. Engenheiro civil, com pós-graduação na área de finanças, ele não pensou duas vezes em deixar Londrina para aceitar um convite de trabalho no Chile. Marcondes atuou no mercado da construção civil londrinense por sete anos e no início de 2009 assumiu a gerência da filial da Construtora Plaenge naquele país. ''Eu sempre tive o sonho de sair do Brasil e me encantei pelo Chile'', afirma Marcondes que, já na chegada ao país andino, se deparou com um tragédia. Ele estava lá quando houve o terremoto de 8.8 graus na Escala Richter em fevereiro de 2010.
Apesar do susto, Marcondes garante que nunca pensou em desistir e voltar para o Brasil. ''Quando chegamos ao Chile não conhecíamos ninguém. Além disso, estranhamos muito o clima. São praticamente dez meses de frio, chegando a dois graus negativos. E chove muito. O idioma também foi uma dificuldade'', relata Marcondes que mudou-se para lá com a mulher, a fisioterapeuta Fernanda Marcondes. Eles residem em Temuco, cerca de 600 km ao sul de Santiago.
Mas não são só as diferenças culturais e climáticas que se tornaram desafio para o engenheiro. Construir casas e prédios no país dos terremotos também não é tarefa fácil. Além de enfrentar um mercado imobiliário com conceitos totalmente diferentes, o Chile tem algumas particularidades e uma de suas características são os terremotos, por isso não é comum construírem edifícios muito altos, com 20 pavimentos, por exemplo, como se constroem no Brasil. Em Santiago notam-se muitos edifícios, porém, em Concepcion, a segunda cidade do Chile - equivalente ao tamanho de Curitiba -, a grande maioria das construções são casas.
Seguindo essa tendência, os primeiros projetos da filial foram a construção de casas. ''Lá são mais casas do que edifícios. A cidade é muito mais horizontal, mas não existem muitos condomínios fechados. O conceito de bairro ainda é muito forte'', afirma o engenheiro civil, contando que a empresa está agora com o primeiro projeto de um prédio similar ao que se faz no Brasil.''Este projeto é bastante inovador para o padrão chileno. Lá os edifícios não têm área de lazer com pisicina, espaço gourmet, churrasqueira na sacada'', conta Marcondes, acrescentando que a planta passou por várias adaptações nas áreas comum e privativa, por exemplo.
O sistema construtivo no Chile é diferente por causa do relevo da região. Ter construções fortes e resistentes é fundamental para diminuir o número de possíveis vitimas em caso de tremores. Marcondes diz que apesar do terremoto que atingiu o país ter sido registrado como um dos 10 maiores de todos os tempos, o Chile possui uma boa infraestrutura, que foi decisiva no momento do tremor. Há informação de que no terremoto de 2010 apenas um prédio desabou.
''As construções chilenas são preparadas para aguentar os abalos sísmicos, evitando o desabamento. O país é bem preparado senão os estragos seriam maiores'', contou Gustavo Marcondes.
Outra diferença marcante é que no Chile praticamente não se vende imóvel na planta. ''É uma questão cultural. Eles não querem perder tempo'', diz Marcondes, acrescentando que os chilenos chegam a financiar até 95% do valor do imóvel. No que diz respeito à arquitetura, segundo ele, o chileno visa a praticidade. ''Não se vê casas decoradas como no Brasil, com muita extravagância. Tudo é mais simples'', destaca. As casas não têm muro e utiliza-se muita madeira. A estrutura dos imóveis é de concreto e as paredes são de placa de gesso. ''As construções são mais rápidas e bastante seguras até em razão dos terremotos'', completa.
Gêmeos
Nesses três anos em terra chilena, o engenheiro conta que fez muitas amizades. ''Apesar de ser um povo mais reservado, fomos muito bem recebidos. O Brasil está na moda no Chile. Percebemos o quanto as pessoas se interessam pelo Brasil, querem conversar, saber como são as coisas aqui'', conta, ressaltando que os momentos de lazer incluem encontros com amigos para degustar vinho e comer um bom churrasco''.
Em solos chilenos, Marcondes vivenciou também um dos momentos mais especiais de sua vida: a chegada dos filhos gêmeos. Pai de primeira viagem, atualmente ele se divide entre o trabalho e os cuidados com a família. Para ele, um fato que chamou a atenção foi perceber que ainda hoje grande parte das mulheres chilenas, especialmente na região sul, fica em casa cuidando dos filhos enquanto os maridos saem para trabalhar. ''É uma sociedade mais tradicional e machista. Casais de classe alta chegam a ter três, quatro filhos. Eles dão muito valor à família'', comenta.
Um ponto positivo é a segurança. ''Quando eles ouvem um caso de assalto, por exemplo, ficam escandalizados. Para o brasileiro é algo comum, mas para os chilenos não. Eles se assustam e se mobilizam diante de delitos pequenos'', pontua, acrescentando que trata-se de um povo mais politizado e envolvido socialmente. Outra vantagem é o investimento na educação. Por essas e outras razões, o londrinense não pensa em retornar ao Brasil tão cedo. ''Não me vejo voltando a curto e médio prazo. A minha ideia é educar os meus filhos no Chile'', admite.


