Quem vê Francine Missaka cantando no programa Domingão do Faustão não imagina que atrás do rosto delicado de menina de descendência oriental existe uma história de luta na carreira de mais de uma década. Pé vermelho, a cantora de 30 anos radicada em São Paulo, conta que, apesar de ter iniciado na televisão de uma hora para outra, suas conquistas até agora não foram fáceis. ''Quando somos jovens e vamos atrás de um sonho, achamos que tudo vai acontecer rapidamente, no dia seguinte. Mas nada vem assim, de mão beijada'', diz.
Caçula de uma família de três irmãos homens, ''Francine Japa'', como é conhecida no meio artístico, desde pequena já gostava de cantar, mas naquela época não imaginava que o dom se tornaria profissão. ''Minha vida era voltada para a ginástica rítmica. Comecei aos 9 anos e segui até os 17, quando parei por ter de escolher entre os projetos musicais'', lembra. Mais que um hobby, contudo, a ginástica ocupava parte importante em sua vida. ''Eu era da equipe oficial juvenil e sempre participava de campeonatos.''
Desse período, ela guarda lembranças boas, como o sonho de disputar as Olimpíadas e a convivência com as parceiras de equipe. ''Treinávamos o dia todo juntas e quando viajávamos, dormíamos no mesmo quarto, além de estudarmos na mesma escola. Enfim, a convivência era diária. Sinto saudades desse tempo'', revela ela, admitindo que era a ''traficante'' oficial de bolachas recheadas da equipe. ''A treinadora era muito exigente e não nos deixava comer nada fora da dieta. Mas eu sempre dava um jeito de levar na bolsa'', sorri, olhando para a mãe, dona Laura, sua maior incentivadora.
A facilidade em conseguir guloseimas se dava, justamente, porque os pais tinham um restaurante, que até hoje funciona em Londrina. Batizado com o mesmo nome da cantora, uma homenagem carinhosa do pai à ela, o local já foi palco de algumas peripécias de criança. ''Enquanto eles trabalhavam, eu brincava por lá e comia coisas gostosas. Mais velha, cheguei a ajudar em alguns pratos. Não sou cozinheira de mão cheia como minha mãe, mas sei me virar bem, inclusive para fazer alguns pratos orientais'', diz envergonhada sobre suas aptidões culinárias.
Falante e de voz firme, Francine enveredou mesmo pela música depois de ter sido vista cantando em um karaokê na cidade, aos 16 anos de idade. ''O rapaz que cuidava do som tinha uma banda. Me viu cantar e foi falar comigo e meus irmãos sobre a possibilidade de me apresentar na banda de show que ele participava.'' A chance de cantar de verdade deixou a menina ainda mais animada, até mesmo porque, antes disso, já tinha feito um teste escondido dos pais para um grupo musical em uma cidade vizinha.
Convencer o pai de que se tratava de uma oportunidade não foi tarefa fácil. A missão ficou a cargo da mãe, que se comprometeu em cuidar da filha. ''Ela me acompanhava em todos os bailes até de madrugada'', conta. Depois de um Carnaval, porém, por ter forçado as cordas vocais, ficou afônica. E foi então que percebeu que precisava aprender a técnica vocal. A partir daí, se matriculou em uma tradicional escola de karaokê, onde começou a trilhar os passos rumo à carreira que tem hoje. ''Lá eu aprendi a cantar de forma adequada, além de exercitar meu lado de encenação'', diz, referindo-se aos musicais que apresentou, incluindo um sobre a saga dos imigrantes japoneses.
Não demorou para que seu talento despertasse a atenção e mais pessoas dispostas a incentivá-la a alçar novos voos. ''Como uma espécie de teste para mudar para São Paulo, tive de me preparar em 20 dias para um show com 18 músicas. Foi um desafio'', revela. Esse foi o grande ''start'' para começar a se apresentar na capital paulista. Nessa fase, a ginástica teve de ser, definitivamente, deixada para trás. Mas, meio a isso, cursava o segundo ano da faculdade de marketing. ''Todas as semanas eu ia na quinta (para São Paulo) e voltava no domingo para me apresentar em um casa de jazz lá. Mais uma vez, tive de fazer escolhas.''
A escolha da vez era mudar-se de vez para São Paulo. Entre um período na casa da tia e repúblicas variadas, fixou residência numa grande república do conservatório onde estudava. ''Havia pessoas de todos os lugares do Brasil. Todos com o mesmo sonho e objetivo que era cantar'', recorda a londrinense. Época difícil, porém, não menos divertida, segundo ela. ''O prédio era bem velho, com mofo e até inundava quando chovia. Mas nossa inocência era tão grande que nada nos abalava. Fazíamos piada da nossa própria dificuldade.'' Foram cinco anos na república, onde fez amizades importantes.
De lá para cá, testes e mais testes, shows, participações como backing vocal de cantores renomados e musicais famosos. ''Já fiz muita coisa, sempre atrás do sonho e do que eu sei fazer.'' A mais recente delas, a entrada numa banda de samba rock, que a projetou ainda mais no cenário. ''Quero mostrar que, apesar da descendência japonesa, eu sou brasileira. Gosto da nossa música, de sambar e sei fazer isso. Ainda assim, adoro a cultura japonesa, sempre vou ser muito grata a tudo que aprendi'', diz ela, que também participou da gravação do filme Gaigin 2.
Muito mais madura que a menina sonhadora que chegou à capital paulista há mais de 10 anos, Francine ainda tem firme os propósitos que a levaram para lá. ''Pretendo gravar meu CD autoral. Já estou em fase de pesquisas de composições'', revela ela, que apesar de ter como prioridade a banda do Faustão, não abandonou a banda de samba rock. Agitada e aberta a desafios, ela divide o tempo entre os dois compromissos, enquanto se arrisca em projetos diferentes como publicidade e shows. Descansando em ''casa'', como ela se refere à Londrina, Francine se apresenta hoje na cidade em um espetáculo do antigo grupo japonês do qual fez parte.

mockup