Livre para criar
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domingo, 20 de novembro de 2005
Ana Clara Garmendia<br>Equipe da Folha 
Curitiba- O artista plástico Luiz Arthur Montes Ribeiro já nasceu com a determinação de ser artista. Apesar de ser filho de militar e oriundo de duas famílias tradicionais de Ponta Grossa (a 100 quilômetros de Curitiba), o menino nunca sofreu repressão por parte da família. Os Montes Ribeiro acreditavam que se era aquilo que o filho queria sua vontade e vocação deveria ser cumprida. Uma raridade de ver, já que geralmente aqueles que têm alma de artista quase sempre enfrentam incompreensão dentro de casa. ''Meus pais nunca me criticaram. Desde que eu tivesse escolhido certo a profissão.''
Se ia ser artista teria que estudar para isso. Teve um apoio muito grande. Dessa forma a vida não lhe reservou, a princípio, maiores entraves. As artes como o piano, a pintura, a escrita corriam por suas veias de uma maneira natural e, logo cedo, na adolescência, ele já tinha várias poesias escritas. Coisa que hoje ele não gosta muito de lembrar. A época de ingenuidade, que deu origem a versos com rimas bem marcadas, parece hoje ao maduro artista algo muito ingênuo. Logo cedo também os pais o mandaram para Nova York.
Aos 20 anos morou lá e pode ver de perto o trabalho de grandes artistas nos maravilhosos museus e centros culturais da cidade. ''Lá em Nova York eu gastava todo dinheiro que ganhava em museus, teatros, shows. Foi o maior aprendizado da minha vida. Eu aprendi a curtir mais e vi que ser artista é uma profissão. Até então aqui no Brasil artista não era.''
Como sua família era de classe média alta e quase toda envolvida com política, ele chegou até a pensar em seguir uma carreira avessa à arte. Estudou direito até o quarto ano e no dia em que fez a prova para o Instituto Rio Branco para tornar-se diplomata desistiu. ''Eu sempre quis ser duas coisas: artista e ator. E hoje eu sou os dois. Na carreira diplomática eu não teria liberdade de expressão. Iria viver sob ordens o tempo todo e não me agradava a idéia. Tenho amigos embaixadores e cônsul. Converso com eles e estamos todos muito felizes. Eles na deles e eu na minha. Porque na profissão que eu escolhi sou completamente livre.''
Uma história como a de Luiz Arthur parece não ter muitos meandros para ter se desenvolvido, no entanto, não é bem assim. Tudo na vida tem um preço e chega a ser até meio piegas falar assim. Ele chegou a fazer faculdade. É formado em letras, português, inglês. Fez especialização em ensino da língua inglesa e artes plásticas e mestrado em educação. Quando começou realmente sua carreira de artista plástico, há mais ou menos 15 anos, a probabilidade de se sustentar com a arte era pequena, e esse foi um desafio que teve que ser administrado. Geralmente os artistas têm fama de serem desorganizados com suas finanças, fruto da instabilidade da profissão e essa foi uma fase que ele teve que passar. Ao desistir da carreira de professor (ele dava aulas de português, inglês e literatura) para viver de arte o caldo da dificuldade entornou. ''No começo foi muito ruim. Deparei-me gastando mais do que ganhava. Uma hora recebia nada e depois recebia muito. Com o tempo fui aprendendo a ter uma metodologia diária e aprendi a viver bacana.''
A arte de Luiz Arthur pode ser classificada de minimalista. Suas obras trabalham com um elemento, uma corda e cores fortes. Seus mestres? O primeiro professor, o artista plástico de sua cidade natal Sidney Mariano e dois grandes ícones da arte: Tarsila do Amaral e Van Gogh. ''A minha grande paixão são esses dois porque tiveram uma grande vida como artistas e como pessoas''.
Quanto aquela velha história de que não dá para viver só de arte, Luiz Arthur tem uma opinião formada. ''No Brasil temos dois estereótipos. Um é o da mulher que já criou os filhos e já não tem mais nada o que fazer e vai aprender a pintar e vira artista. De certa forma tem um padrão de vida elevado e independe se vai vender ou não. O outro é de quem vive de projetos culturais e está sempre procurando incentivo para poder se sustentar. Ainda é complicado, mas eu consigo viver da minha arte hoje.''
E a fórmula para isso? Não pensar em ter um mecenas, prática comum há dois ou três séculos, e fazer seu próprio marketing. ''Hoje não temos mecenas como Chopin teve. Como Aleijadinho. Hoje somos trabalhadores comuns.''
No dia em que deu esta entrevista à Folha, Luiz Arthur estava participando de uma mostra de arquitetura e decoração com 48 obras suas. Uma maneira prática e atual de sair do conceito de que o artista vive dentro de um casulo e não vai à luta para mostrar seu trabalho. ''Você tem que se mostrar. Fazer teu marketing. Se você não fizer isso não vai adiante. Mesmo porque a relação marchand e artista é muito complicada.''


