Lições de vida e mesa
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de maio de 2007
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Já faz tempo que o papel da mulher vem sofrendo alterações, mas independentemente da história social, cabe a cada uma escolher o seu destino. A curitibana Denise Carvalho fez a sua opção. Há quase três décadas, a sociedade - e as circunstâncias - reservaram a ela uma função: acompanhar o marido, na época um alto executivo da Varig, em viagens internacionais. ''A condição 'sine qua non' do trabalho dele era que a mulher não tivesse outra atividade e, sim, ficasse à disposição para acompanhá-lo nas transferências de cidades'', lembra. Mas Denise foi além do papel de mãe e esposa que a ela foi conferido e conseguiu desenhar sua própria história. Conseguiu conciliar diversas funções e, de volta ao Brasil, realizar uma guinada na carreira. Abandonou o curso de história, que iniciou ainda em Curitiba, e se dedicou a uma de suas paixões: a gastronomia.
Um de seus maiores desafios foi partir para o Japão com três filhos pequenos, de quatro e dois anos e um bebê de apenas dois meses, para uma estadia que durou seis anos. As mudanças não pararam por aí. Depois desse tempo, Denise ainda foi com os filhos e o marido para França e uma nova adaptação estava por vir. Dessa vez, resolveu também dedicar um pouco de seu tempo a si. Enquanto cuidava da casa e da educação das crianças em um país distante, fez cursos de culinária na mais antiga escola de gastronomia da França, a Cordon Bleu, onde se formou com louvor.
O resultado pode ser visto em seu retorno à cidade natal. Depois de voltar ao Brasil, dar cursos de culinária e ser tema de diversas reportagens de gastronomia em veículos nacionais e internacionais, Denise decidiu abrir seu próprio negócio. Foi assim que surgiu a Provence-Boulangerie, um dos mais charmosos endereços da Capital, onde é possível provar pães e doces de qualidade indiscutível. Para se ter uma idéia, os produtos da padaria encantaram até mesmo o músico Chico Buarque, que pediu uma encomenda especial da loja para levar ao Rio de Janeiro, quando esteve aqui.
Mas desde que saiu de Curitiba, na década de 80, até o seu retorno, em 2000, muita coisa aconteceu com essa mulher de fibra. Denise estava cursando história na Universidade Federal do Paraná (UFPR), quando se casou com o então gerente geral da Varig Flávio Carvalho. Primeiramente, ele foi transferido para Joinville e ela até tentou continuar o curso lá, mas não conseguiu terminá-lo, pois logo aconteceu outra transferência, dessa vez para Recife (PE). Lá, ela morava em uma casa ampla, de frente para o mar, e já tinha os três filhos, Bruna, Vivian e Vinícius, quando recebeu a notícia da transferência do marido para Tóquio, no Japão.
''No começo foi muito difícil. O Flávio trabalhava muito e eu não conhecia nada do idioma. No supermercado, eu não sabia o que era um xampu e o que era um detergente, pois tudo estava escrito em caracteres japonês'', recorda. Mas também havia coisas boas. ''Nos primeiros seis meses, acho que tudo era o paraíso. No Japão não existia violência, nem roubo, nada''. É claro que, como toda adaptação, Denise passou por momentos complicados. ''Minha filha mais velha chegava da escola chorando e dizendo que não sabia se as pessoas estavam rindo dela ou para ela'', conta. As crianças estudavam em uma escola americana e a saudade do Brasil era compensada com os jantares oferecidos pela família Carvalho.
''No Japão moram muitos brasileiros e acabamos nos tornando uma família. Quase todos os finais de semana, recebíamos muita gente na nossa casa e foi assim que eu fui tomando gosto pela cozinha'', revela. O gosto virou profissão, aprimorada anos depois, quando Flávio foi transferido para Paris, novamente a trabalho, e a família o acompanhou. Nos primeiros dois anos, Denise fez curso de aperfeiçoamento do idioma francês e, também, curso de História da Civilização Francesa, na Sourbonne. Até que em 1995, conheceu a escola Cordon Bleu - um dos principais centros de ensino da gastronomia do mundo. Com os filhos crescidos, Denise resolveu, sem grandes pretensões, aprender a técnica da cozinha tradicional francesa.
Na Cordon Bleu, Denise foi a primeira da turma e recebeu a menção ''Très Bien'' - que, no Brasil, é o equivalente a Excelente. Em seguida, ela fez os três níveis - Base, Intermediário e Superior - nos cursos de Cozinha e Patisserie (doces) e tornou-se a primeira aluna latino-americana da história da Cordon Bleu a ganhar o Grand Diplome com menção ''Très Bien''. Na entrega de seu diploma, o chef da escola, Patrick Terrien, disse ao público: ''O primeiro lugar da turma vai para uma pessoa que não foi apenas aluna, foi também mãe e esposa, nunca deixou de cumprir o seu horário e, por isso, mais do que qualquer outro, ela merece esse diploma''.
Ao terminar o curso, Denise voltou ao Brasil com os filhos. Passou um período de reflexão e pesquisa antes de encontrar um local adequado para montar sua boulangerie. Escolheu uma charmosa casa no Batel, que transformou num pedacinho de Paris. A loja completou três anos e Denise já prepara a ampliação, com um ponto de venda de seus produtos no Ecoville.
Mas o conhecimento que Denise adquiriu fora do País, e também montando seu próprio negócio, foi além do profissionalismo. ''Eu aprendi que a gente não deve desistir nunca. Mesmo com as adversidades. E acabei ensinando isso para os meus filhos. Se houver uma mudança, você tem que provar'', diz, complementando que a experiência é sempre melhor do que ''conviver com a dúvida''. Na dúvida, ela (se) realizou.


