As imagens que colocaram o dia 11 de setembro de 2001 nas páginas da História foram comparadas à ficção por espectadores no mundo todo. Para aqueles que estão acostumados a acompanhar pelos meios de comunicação momentos de terror, como o atentado ao World Trade Center e ao Pentágono, às vezes se torna difícil crer que eles fazem parte da realidade.
A coordenadora paroquial da Pastoral da Criança em São Miguel do Iguaçu, Odete Del Castanhel Doringon, também tinha essa concepção, até ser convidada a sair da condição de mera espectadora. Odete integrou, a convite da coordenação nacional, a comitiva da Pastoral da Criança que seguiu para o Timor Leste na tentativa de implantar no país o mesmo trabalho realizado no Brasil.
Ela, que havia acompanhado apenas pela imprensa a visita da presidente da pastoral, Zilda Arns, no início do ano, ao Timor, mal pode acreditar que seis meses depois viveria uma experiência que para ela se tornou uma lição de vida. ''Eu não sei exatamente como surgiu a oportunidade, mas eu me senti muito feliz por ter sido contemplada entre os cerca de 140 mil líderes e coordenadores de todo o País; recebi o convite como uma graça de Deus'', declara.
Casada, mãe de duas filhas e avó de dois netos, Odete teve da família todo o apoio para seguir em frente e aceitar o novo desafio. ''O novo é muito assustador, sempre tive muita fé, e nessa viagem tive uma linda experiência de fé, mas a princípio me deparar como o novo foi temeroso'', confessa.
A força da família deu a ela mais tranquilidade. O marido, que a ajuda nas atividades da pastoral, e as filhas formaram um cordão positivo para que ela pensasse no desafio com tranquilidade. Papel fundamental também teve a mãe de Odete. ''Ela me disse que esse poderia ser um chamado, mas que se eu não estivesse preparada ela poderia ir no meu lugar. Minha mãe tem 65 anos, e essa disposição me mostrou o quanto isso poderia representar na minha vida'', analisa.
Odete levou na bagagem sua experiência de 16 anos como integrante da pastoral, seu conhecimento como terapeuta natural e muitas doses de fé, postas à prova em inúmeros momentos. Ela, que já havia presenciado situações de desamparo, até então não tinha vivido nada que se comparasse ao que ela presenciou no Timor Leste. ''Muitas vezes eu buscava resposta na Bíblia e comparava algumas situações às parábolas'', conta.
Foram 35 dias convivendo com uma nova e cruel realidade. ''Dormia quatro horas por dia. Além do atendimento às famílias, realizávamos visitas periódicas a doentes, muitos deles mutilados, outros neuróticos de guerra'', explica. Mas nada chamou mais a atenção de Odete do que a falta de calor humano. Foi a ausência de pequenos gestos que mostraram a ela o quanto o mundo está distante de conhecer o que realmente existe por traz das imagens de uma guerra.
''As pessoas não se beijam, não se abraçam. Elas não têm contato. Você não vê ninguém de braços dados. Um dia eu cheguei a pensar, 'meu Deus que realidade mais triste''', diz. Mais uma vez Odete reconheceu na oportunidade uma bênção. ''Além dos ensinamentos da pastoral, levávamos esperança. E isso, para muitos deles, foi muito importante. Uma dessas pessoas, um enfermeiro que ficou paralítico após a mulher ter sido assassinada na frente dos filhos, me mostrou que falta faz a afetividade. Ele encerrou a conversa que tivemos perguntando quando voltaríamos para atendê-lo. Isso me doeu, muito por que faltava uma semana para irmos embora'', recorda.
Apesar do sentimento de frustração, Odete voltou ao Brasil com a certeza de que a equipe conseguiu alcançar seu objetivo. ''É o começo. A luta contra a desnutrição é árdua, mas a Pastoral da Criança tem obtido grandes resultados em muitos outros lugares, e as pessoas acreditaram muito no nosso trabalho. Após as eleições, o País deve passar por uma reestruturação e isso nos dá a certeza de que as coisas vão mudar'', prevê.
Odete trouxe lições também para o seu dia-a-dia. Mostra-se preocupada com a correria do mundo, numa constante busca que não tem explicação. Ela se volta novamente à falta de afetividade e lembra das atividades da Pastoral da Criança em São Miguel do Iguaçu, onde há uma preocupação não só com a saúde do corpo: ''As pessoas pedem muito para serem ouvidas, elas querem falar de seus problemas, dizer o que sentem''.
Odete se dispõe a ouvir, mas hoje ela também tem muito o que dizer. Sua experiência no Timor Leste lhe trouxe convites para palestras em todo o País e em cidades vizinhas a São Miguel. Recentemente ela esteve em Porto Alegre, a convite da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, contando sobre implantação da pastoral e principalmente o quanto é possível dar sua contribuição ao mundo, participando mais da realidade que nos cerca, mesmo ela estando a milhares de quilômetros.

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