A notícia chegou quarta-feira, exatamente às 16h16, via e-mail. O site de Fernanda Magalhães foi incluído na Biblioteca Virtual de Estudos Culturais, criada pelo Programa Prossiga, do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa) e desenvolvida pelo Programa Avançado de Cultura Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Isto significa que o trabalho da fotógrafa e artista paranaense, nascida em Londrina, no dia 9 de dezembro de 1962 e batizada com o nome de Maria Fernanda Vilela de Magalhães, passa a fazer parte do seleto conteúdo que a Biblioteca Virtual disponibiliza para pesquisadores da área de Estudos Culturais.
Mais uma conquista de um trabalho que começou despretenciosamente em 1993, quando Fernanda morava no Rio, onde estudava fotografia com Pedro Vásquez, na Universidade Federal de Niterói. Fotografar a si mesma nua foi uma forma de falar da questão do corpo, da sua própria questão de mulher gorda, e – só depois percebeu – da questão de todas as mulheres gordas. ‘‘Ou das que não são gordas, mas se sentem, de alguma forma, inadequadas’’, explica.
Do curso em Niterói nasceu a primeira exposição de seus auto-retratos, nua, com interferências de colagens. Uma idéia que Fernanda pôde desenvolver com mais profundidade, graças ao Prêmio Marc Ferrez de Fotografia, da Funarte/Ministério da Cultura, que recebeu em 1995. Com os R$ 6 mil do prêmio, comprou seu primeiro micro e não parou mais de estudar. O projeto A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia resultou num livro que a editora norte-americana Aperture já demonstrou interesse em publicar e em três exposições, vistas em 11 Estados brasileiros, nas cidades de Nova York e Woodstok, nos Estados Unidos, e em Lisboa, Portugal.
‘‘Não se trata de um trabalho terapêutico, mas de uma reflexão ao mesmo tempo sofrida e fascinante. Falei do que ninguém fala: do preconceito, da dor, da humilhação, das culpas da mulher, massacrada pela ditadura do corpo, dos padrões’’, diz Fernanda. O gordo, segundo ela, precisa provar que é competente, que é ligeiro, ágil. Ao mesmo tempo, por causa da culpa que carrega, faz uma troca simbólica com a sociedade, representando o sujeito protetor, feliz, engraçado. ‘‘Eu mesma representei esse papel simpático durante muitos anos’’, reconhece Fernanda.
Hoje, ela sente que amadureceu e se libertou. Acha, sim, que toda mulher (e todo homem) deve cuidar do corpo, alimentar-se de forma saudável, exercitar-se, independente de estar fora do peso ideal ou não. Mas nunca carregar culpa por ser ‘‘redondo’’ e não esguio.

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