Lenha na fogueira
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sexta-feira, 06 de abril de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 

"Sucesso é você estar no lugar certo, na hora certa e preparado", repetiu a frase que ouviu do amigo. Para estar preparado precisou de dose extra de força de vontade. Dos almoços de domingo com a família aos grandes restaurantes da Europa e do mundo. De uma carreira cheia de altos e baixos, empréstimos e novas chances ao grande campeão do MasterChef Profissionais 2017. Pablo Oazen esteve em Londrina em dois dias de evento demonstrando habilidade na cozinha e na comunicação.
O motorista se perdeu no caminho e o chef chegou atrasado ao Villa Planalto, local da aula show organizada pela empresa londrinense Boa Mesa Brasileira. Sabendo da correria que teria na cozinha, Oazen ofereceu um vinho à repórter e nos convidou a acompanhá-lo enquanto administrava a equipe na produção do prato que seria apresentado e oferecido a todos os convidados naquela noite. Alto e com voz potente, ele chama a atenção entre os cozinheiros. "Esse fogão está desligado por quê? Tem ultra aqui? Chame alguém para instalar o gás". Uma demonstração do que acontece em uma cozinha de verdade: tempo curto, muitos processos, barulho e um cheiro arrebatador.
Na correria, começou a contar sua história enquanto caminhava ao depósito de utensílios para escolher a louça da noite. "Fui criado na casa da minha avó e das minhas tias. Eu não sei exatamente explicar de onde tirei o gosto pela gastronomia, eu acho que tem muito do mineiro, mineiro come bem", interrompe o chef, natural de Juiz de Fora (MG), para avaliar o material. "O que você acha desse?", levanta uma das peças na mão.
"COMIDA CIRCULANDO EM CASA"
Retorna ao papo contando sobre o costume familiar de almoçar todos os domingos na casa da avó. A mãe também tinha seu talento, precisava. Fazia salgadinho para vender na faculdade, assim como ovos de Páscoa. "Eu sempre via comida circulando em casa", afirma. Descobriu aos poucos o que era comer bem. Uma tia se casou com um francês e foi morar na Europa. "Aí eu cismei que ia fazer hotelaria, que ia morar na França e que eu ia fazer um curso lá. Já tinha uma tia lá", conta.
Graduado no Brasil, pós-graduado em Portugal. "Foi em Lisboa que comecei a ter um contato muito grande com a cozinha. Hotel cinco estrelas, imagina a cozinha desse tamanho (gesticula), só que alto nível, melhores produtos do mundo, variedade
Aquilo me chamou muito a atenção", revela. Em 2004, Eurocopa em Portugal, a primeira experiência com a gastronomia foi no café da manhã: picar fruta, bacon, fazer suco, ovos mexidos
"Quando eu fui ver, quis ser cozinheiro. Era isso."
Fez estágio em restaurante francês, voltou ao hotel em Portugal. "O chef do Sheraton era idolatrado e eu pedi para ajudar no jantar, ele deixou. Tinha dia que era das 5h às 13h no café da manhã, eu saía, ia correndo para a casa, tomava um banho e depois voltava para o hotel pra fazer esse estágio. Eu trabalhei durante muito tempo sem ganhar nada, ganhando aprendizado", afirma.
Mais que talento, Oazen destaca seu esforço como diferencial. Foi convidado em 2005 para trabalhar no restaurante do chef que lhe deu a oportunidade no hotel. O mesmo que sugeriu que ele fosse para o restaurante Quinta de Catralvos, uma oportunidade melhor. "O que eles fizeram por mim pouca gente faz. Que é você abrir mão de uma pessoa boa para ela crescer. Isso me marcou muito", agradece. A promessa é que ele repasse a ação adiante.
Faltando poucos minutos para a sua apresentação, recorda um dos momentos mais curiosos da sua vida na cozinha. Entre os contatos que fez e muitos acasos - e para ele nada é por acaso -, conseguiu um estágio em um restaurante francês por indicação de um chef português. Neste local, afirma ter saído chorando quase todos os dias. "Eu não sabia nada de cozinha ainda. Eu não falava bem o francês, sofria. Allez brésilien! (imita a movimentação dos franceses que xingavam e brigavam). Eu saía chorando e falava não vou voltar, não vou voltar. E voltava."
'VOCÊ VAI AGUENTAR'
Da Quinta de Catralvos para o Hacienda Benazuza El Bulli Hotel, do Ferran Adrià, em Sevilha, ao Via Graça, em Portugal, voltou ao Brasil. Entregou currículos em sete restaurantes de São Paulo, um deles, do chef, hoje jurado do MasterChef Brasil, Erick Jacquin. "Na entrevista, ele: você trabalhou no Au Comté de Gascogne? Se você aguentou lá, você vai aguentar aqui. Mal sabe ele que eu saía de lá chorando, falando que não ia voltar mais", ri. Foram quatro meses trabalhando com Jacquin até decidir querer voltar de vez para Juiz de Fora.
Só depois de quatro anos trabalhando como professor, assumiu uma cozinha por dois anos até abrir a sua, com muito custo, comprando cada item aos poucos. Em um evento em Madri, em 2012, levado pelo governo de Minas, aprendeu novo conceito e tentou replicar no seu Garagem gastrobar, o que define como cozinha de boteco com técnica. Dois anos com a cozinha aberta, viu crescer o bar e a intenção de ser maior. Um de seus clientes emprestou o dinheiro, valor que só conseguiu terminar de pagar com o prêmio do programa. "Infelizmente veio a crise. Meu filho nasceu em janeiro (tem dois filhos: Lucas e Eduarda), eu estava em um caos financeiro", conta. O telefone toca perguntando se ele não se inscreveria no Masterchef, o que tinha feito no ano anterior. "Eu fui, ganhei, venci, tô indo para São Paulo agora, montando um restaurante, rodando o Brasil todo, mostrando a minha cozinha, a essência do meu trabalho e acho que contagiando cada vez mais pessoas", afirma.
Na sua apresentação, falou sobre a sua cozinha "mineiroca" (mineira e carioca) e sobre essa regionalização. "Hoje, o Brasil tem um movimento muito regionalista na gastronomia e o Brasil é enorme, é muito difícil chegar um produto de Belém (PA) aqui em Londrina", afirma. No entanto defende a produção local. "São bases do meu trabalho: valorizar o produtor local, tentar que o produto tenha o máximo de sabor possível e fazer a pessoa refletir um pouco sobre o que ela está comendo", argumenta. Da trajetória, as dificuldades de uma cozinha sem glamour. "Na vida nada é fácil. O que eu falo é que todo mundo consegue, mas tem que buscar conhecimento."


