Lembranças de um ex-combatente
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sábado, 29 de março de 2003
Ana Setti<BR>Reportagem Local 
José Rosa Neto, paulistano de Guararapes, desde os 7 anos de idade residindo em Londrina, sonhava em se tornar paraquedista. ''Quando se é jovem a gente gosta de enfrentar o perigo'', filosofa. Ele não conseguiu realizar seu sonho, pois quando se alistou no serviço militar, em 1956, acabou ficando na infantaria, mas o perigo, que tanto queria enfrentar, não tardou a convocá-lo. No dia 20 de janeiro de 1958, seguia para o Egito, na região de conflito do canal de Suez, integrando o 3º Batalhão do 2º Regimento de Infantaria do exército brasileiro, para lutar pela paz.
Em 1957, enquanto o soldado José servia no Batalhão da Guarda Presidencial, no Rio de Janeiro, a antiga capital federal que se situava no então estado da Guanabara, a situação lá no Egito não andava nada boa. O coronel Gamal Abdel Nasser, que havia deposto em 1952 o rei Farouk e instaurado a república, tornando-se presidente dois anos depois, havia nacionalizado o canal de Suez, importante via de ligação entre o mar Vermelho e o Mediterrâneo, impedindo navios israelenses de cruzá-lo. A reação do vizinho fora imediata. Os israelenses, apoiados por franceses e ingleses, que eram os concessionários da exploração comercial do canal, invadiram e ocuparam a península do Sinai, provocando a intervenção da União Soviética e dos Estados Unidos e, por fim, da Organização das Nações Unidas (ONU), que para lá encaminhou uma força internacional de paz as Forças de Emergência das Nações Unidas , cujos integrantes ficariam conhecidos como ''boinas azuis''.
No início de 1958, José embarcou para a região de conflito num contingente de 350 homens, para reforçar o grupo brasileiro que já estava acantonado na região. ''Foram 22 dias sofridos de viagem no navio de guerra Soares Dutra'', conta. Chegando à região do canal, mais asperezas os aguardavam. ''Durante o dia a temperatura podia chegar aos 50 graus centígrados'', lembra, ''e à noite precisávamos de cobertor para suportar o frio''. Na península do Sinai, a 25km de Gaza, onde ficava o quartel general das forças de paz e ao longo da fronteira com Israel, em que se situava a principal área de ação dos ''boinas azuis'', as tempestades de areia também se revelavam muito comuns. ''Cansei de mastigar grão de areia junto com a comida'', lembra.
Munidos de armas leves, que só podiam ser usadas para autodefesa, além de binóculos e telefones, os efetivos da força da paz tinham, como missão, ''patrulhar, vigiar e comunicar'', comenta. Cabia a eles evitar que os exércitos inimigos egípcio e israelense atravessassem a linha demarcatória, na fronteira entre os dois países, imposta pela ONU, e avisar o QG sobre qualquer movimento suspeito. De acordo com José, era uma área de alto risco para os soldados, que viviam ameaçados não só pela possibilidade do fogo cruzado entre as tropas adversárias, como pela própria população local, que passava, em decorrência da guerra, por uma situação de extrema miséria.
Nem todos, como José, que permaneceu na região por quase 2 anos, suportaram bem a tensão e os riscos inerentes a uma situação de guerra. ''Houve gente que voltou mais cedo para casa, com a cabeça fraca'', comenta. Em geral, entre os 500 mil soldados, representando 35 países, que efetivamente participaram da ação da ONU no local, foram contabilizadas 733 baixas. Ao longo dos 11 anos de atuação das Forças da Paz na região de 1956 a 1967 o Brasil cooperou com o envio de 20 contingentes, num total de 6 mil soldados. O trabalho realizado por José e pelos demais ''boinas azuis'' acabou sendo reconhecido internacionalmente, mas não obteve igual repercussão em âmbito nacional.
Os integrantes do Batalhão de Suez receberam a medalha da UNEF (sigla em inglês para Forças de Emergência das Nações Unidas) pelos serviços prestados em prol da paz mundial e o prêmio Nobel da Paz (coletivo), em 1988, dado às Forças de Paz da ONU e que engloba grupos militares e civis de diversos países, atuando em regiões de conflito de todo o mundo. No Brasil, os participantes do contingente de Suez pleiteiam, conforme conta José, uma aposentadoria especial. ''Mas não tenho muita expectativa de que isso possa vir a ocorrer'', lamenta. Ele deixou o Exército logo após o retorno ao Brasil e hoje reforça sua aposentadoria, do trabalho desenvolvido como funcionário público, vendendo ''uma variedade de guloseimas por aí''.


