Com o passar dos anos e o respeito conquistado como atriz, Déborah Falabella sabe que consegue escolher - ''um pouco'' - seus trabalhos. E foi sem qualquer dúvida que disse ''sim'' ao convite de João Emanuel Carneiro, feito há dois anos, para viver a justiceira Nina de ''Avenida Brasil''. Na época, o autor já tinha na cabeça a sinopse da atual novela das 21 horas e deixou claro que gostaria de ter a mineira em seu principal papel feminino. ''Fazer a anti-heroína pode ser muito mais interessante que interpretar a mocinha que sofre demais e que é maltratada. A Nina não é assim, ela já chega para o embate'', valoriza Débora, que visitou um lixão, teve aulas com um ''chef'' de cozinha e até tirou a habilitação para pilotar moto em função da personagem. ''Adoro quando tenho um trabalho legal de composição, quando existem referências para criar os personagens. Vou formando a minha bagagem para papéis futuros também'', analisa.

Você interpreta a mocinha de ''Avenida Brasil'', mas a personagem começa a história praticando um plano de vingança. Como lida com essa dubiedade entre a imagem da mocinha e da anti-heroína?
Olha, eu diria que, na verdade, se trata de um acerto de contas. A Nina busca justiça, ainda mais que as maldades que sofreu foram na infância. Esse detalhe fortalece a trama. Mas o João Emanuel tem escrito histórias assim mesmo, não é? Não são personagens totalmente bons ou maus. E muita gente faz coisas duvidosas pra conseguir alcançar algum objetivo. Dentro desse contexto, acho que minha personagem tem todos os motivos para correr atrás do que ela acredita ser justo.
Você tem receio que o público rejeite essa ideia de ''acerto de contas'' e não torça pela Nina?
Bom, como intérprete, é claro que eu vou defender sempre essa personagem. Mas o João é muito inteligente e enxergo que muitas vezes é tão interessante o público torcer quanto não torcer e duvidar. E vejo ''Avenida Brasil'' como uma novela muito focada no real, no lado mais humano mesmo. Além disso, o público gosta também dessa coisa mais dúbia, onde você não sabe exatamente o que esperar diante de cada situação. Sem contar que as pessoas curtem quando uma vilã é colocada à prova por uma mocinha que se fortalece e tenta se vingar. Essa relação pode ser extremamente interessante.
Você aparece apenas no sétimo capítulo, quando a Nina está crescida, já foi adotada e leva uma vida tranquila na Argentina. Mesmo assim, fez questão de conhecer a rotina de um lixão, onde ela passa parte da infância?
Sim, eu fui ao Jardim Gramacho, na Baixada Fluminense. É um lugar enorme, mas que já começa a ser desativado. É impressionante! As pessoas realmente trabalham ali, tem gente que tem outros empregos e vai para complementar a renda. Só que, para quem não está acostumado, é muito impactante. Principalmente porque fica clara a quantidade enorme de lixo que uma cidade produz. E quem faz essa reciclagem são aquelas pessoas. Mas no Jardim Gramacho não há crianças. Esse lixão da novela é provavelmente um clandestino, fictício, até porque imagino que deve ser muito triste crianças trabalharem naquela situação. Já é triste para um adulto, pois deixa ele exposto a muitas doenças.
O que mais impressionou você? O cheiro era muito forte?
Isso é engraçado porque todo mundo falava demais nessa questão do cheiro. As pessoas me diziam que eu ia ficar bastante incomodada, que não conseguiria ficar lá. É claro que achei que não cheirava bem, isso é óbvio. Mas fiquei tanto com essa ideia na cabeça que, involuntariamente, devo ter me preparado. Não é uma coisa fácil. Até porque é lixo. E não é qualquer um, é você pegar essa ideia de lixo que deve estar passando pela sua cabeça e multiplicar milhares de vezes. No final o cheiro não foi um grande terror.
De que forma isso ajudou você na construção da Nina?
Em volta de Jardim Gramacho tem uma favela onde algumas pessoas moram. E elas parecem ter uma vida difícil. Não é uma questão de frescura minha, já gravei em favela, já fiz outros trabalhos em comunidades carentes, conheço como elas são. Mas ali, realmente, achei muito complicado. Primeiro, pela proximidade daquelas pessoas com tanto lixo. E as casas são muito pequenas. É uma região de miséria, de um povo sofrido que merece atenção. Aquilo me tocou, não consigo explicar o que muda no meu trabalho. Mas me tocou.
Essa é a segunda protagonista da sua carreira na Globo. Interpretar a mocinha da trama assusta você? Se sim, de que forma esse ''acerto de contas'' que a Nina busca auxilia você na missão?
Na verdade, eu gosto de personagens bons. Dentro dessa visão, uma mocinha que não é tradicional é extremamente sedutora. É um papel interessante, bem rico. E eu nunca fiz uma vilã de verdade. As pessoas me perguntam demais se tenho vontade de fazer uma malvada. É claro que eu tenho, mas acho que tenho conseguido manter uma diversidade de papéis na televisão. Por ter esse meu físico, sei que passo uma imagem de menina frágil. E os profissionais de tevê olham para a fisionomia das atrizes e cada uma se encaixa em um perfil. Mas é muito legal quando isso é ultrapassado e quebrado.
Você já chegou a conversar com alguém sobre isso?
Ah, eu escolho um pouco os trabalhos que faço. Trabalho muito no teatro e cinema, onde temos uma liberdade grande também. Mas, mesmo na televisão, com ''A Mulher Invisível'' e ''Escrito nas Estrelas'', por exemplo, fiz trabalhos bem distintos e bacanas. Já aconteceu de eu achar que determinada personagem seria muito parecida com outra que já tinha feito e, então, me chamarem para outro papel. O que eu acho normal.
No caso de ''Avenida Brasil'', além da proposta de interpretar uma anti-heroína, o que mais esse trabalho trouxe de novo para você?
A Nina se transforma em chef de cozinha, então tive aulas com o chef Écio (Cordeiro de Mello). Ele me ensinou muita coisa, me deu instruções enquanto eu preparava alguns pratos. Os cozinheiros têm uma maneira de falar, um trejeito, acessórios e utensílios que eles usam, enfim, eu pude observá-lo e aprender um pouco mais sobre essas coisas. Fiquei uns 20 dias bem intensos nesse aprendizado. Fora andar de moto...
É você mesma pilotando a moto nas cenas da Nina?
Sim, sou eu. Tirei a carta para essa personagem.
A direção pediu que você tirasse a habilitação para motos ou foi uma opção sua?
Ah, para andar você tem de tirar! Se não tira, não pode pilotar, não ficam reais as cenas. Mas eu achei ótimo, alguns personagens trazem coisas para a nossa vida. Essa foi uma das heranças que a Nina já me deixou.

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