Jogo de poder
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de janeiro de 2012
Mariana Trigo <br> <br> TV Press 
Com 25 anos de carreira no teatro e no circo, Domingos Montagner dá os primeiros passos na tevê. Mas são passos largos. Com discurso sagaz e postura de líder, este ator paulistano, de 50 anos, reconhece que está vivendo seu auge em pouco tempo de carreira na televisão. Escalado para interpretar o protagonista Paulo Ventura, Presidente da República na minissérie ''O Brado Retumbante'', que estreia no próximo dia 17 na Globo, o ator, dramaturgo e circense admite que a escalação foi em função da repercussão de seu personagem Herculano em ''Cordel Encantado''.
Negociando um contrato de prazo longo com a Globo para viver um dos principais papéis da próxima novela de Glória Perez, ele assegura que nunca pensou em fazer tevê. No entanto, começou a ser convidado para pequenas participações em 2010, para tramas como ''Força Tarefa'' e ''A Cura'', até protagonizar o seriado ''Divã'', ao lado de Lilia Cabral, no ano passado. Foi o bastante para chamar atenção e começar a ser visto como um galã, principalmente após seu destaque como o rústico Herculano.
Agora, Domingos troca o pesado figurino de cangaceiro pelos irretocáveis ternos italianos de Paulo Ventura. Na história de Euclydes Marinho, o ator vive um advogado mulherengo que se torna Presidente de um Brasil fictício. Avesso à corrupção e íntegro em seus atos políticos, o personagem reconstrói o casamento com Antônia, de Maria Fernanda Cândido, para comandar o país. ''Se hoje eu estou na tevê, é pela minha história. Esse reconhecimento traz novos conhecimentos. É um avanço. Em vez de estagnar a minha história bem-sucedida no circo e no teatro, começo meu caminho na tevê. E um novo horizonte se descortina com novas relações profissionais'', ressalta, quase em tom de discurso.
Você tem uma longa trajetória no teatro e no circo e uma breve carreira na tevê, de menos de dois anos. Por que levou tanto tempo para fazer televisão?
Nunca programei fazer tevê, em virtude do meu trabalho no teatro e no circo, que envolviam grande parte do meu tempo e da minha dedicação. Não dava para focar na televisão. Para você fazer tevê, tem de trabalhar para isso. Talvez, pela longevidade do meu trabalho, isso tenha acontecido de uma maneira espontânea. Fui procurado e atendi com o mesmo profissionalismo que atendi a convites em outras áreas. Demandou um esforço muito grande meu sair do teatro por um tempo para fazer televisão.
Alguns atores de teatro ainda têm preconceito em fazer tevê por considerá-la ''sub-arte''. Foi o seu caso?
Nunca tive preconceito com a tevê. Existem excelentes trabalhos produzidos na história da teledramaturgia e fico feliz de agora ter acontecido comigo. Sempre quis fazer bem meu trabalho, desde que comecei na carreira. Isso foi uma consequência inesperada porque sou de São Paulo e venho de uma geração muito distante da tevê. Quando comecei minha carreira, a tevê era impensável porque o maior núcleo de teledramaturgia estava e está no Rio. Não tinha tempo de pensar nessa projeção. Minhas expectativas sempre foram ligadas ao teatro. Com o tempo, houve uma procura dos diretores de tevê pelos atores de teatro e a busca por essa diversidade. Aí, acabou acontecendo comigo.
Neste início, você foi chamado para pequenas participações em seriados, até se destacar em ''Cordel Encantado''. Agora estreia como protagonista em ''O Brado Retumbante''. Imaginava um percurso tão rápido na tevê?
Fazer o Paulo Ventura me gerou uma ansiedade e um senso de responsabilidade bem aguçados. Fiquei muito feliz e emocionado por, logo no meu segundo trabalho de destaque na tevê, viver o protagonista. Fiquei sinceramente lisonjeado e feliz porque a minissérie e o assunto são muito bons. E o papel também.
De que forma você se preparou para construir um personagem que é Presidente da República?
Ele não é um político de carreira, não tem cacoetes e perfil de um político. Não procurei me espelhar muito nos políticos. Lógico que fiz uma observação muito grande desse meio, do comportamento das pessoas, das oratórias. Talvez mais para fugir das características deles do que para cair nelas. Procurei fazer uma composição em cima da trajetória do personagem na minissérie. Como se aborda muito a vida pessoal do Paulo, ele tem nuances fantásticas criadas pelos autores. Ele é político, pai, esposo, amigo, amante. Tem vários componentes mais pessoais que procurei me ater, muito mais na personalidade dele do que em um político especificamente. Ele é um anti-herói. Não tem perfil de herói, mas tem um ímpeto, uma ética de herói.
Você poderia se considerar um ator politizado? Se interessa por política?
Gosto do assunto. Acho que é importante acompanhar, mas dentro das nossas possibilidades de conhecimento e participação. A história da minissérie mostra diversos assuntos cotidianos. É uma história fictícia, que aborda temas políticos, não especificamente só brasileiros. Você vai poder localizar fatos políticos do mundo inteiro na minissérie.
Na trama, um dos filhos do seu personagem, o Julio/Julie (vivido por Murilo Armacollo), é transexual. Como vai ser abordada essa paternidade?
É uma discussão muito interessante. Um dos grandes méritos da minissérie é lançar os assuntos e deixar para o telespectador julgar, pois a trama não estabelece julgamentos. Isso é muito legal. São assuntos que não são solucionados de uma maneira normativa ou maniqueísta. Ela deixa assuntos para o público refletir. O tema do filho transexual é tratado com cuidado e carinho entre os personagens.
Após ''Cordel Encantado'' você passou a ser visto também como galã pela emissora. Como reagiu a essa classificação?
Isso nunca me passou pela cabeça. Me preocupei sempre em me concentrar na excelência profissional.
Mas como tem sido ser considerado um galã nessa altura da carreira?
Mudou minha relação com muitas coisas. Meu foco, na verdade, é a gratidão por ter entrado em um outro meio profissional. A Globo tem me reconhecido muito, o que tem sido importante para mim, para meu trabalho de ator, pelo que venho desenvolvendo no circo e no teatro há tantos anos. É um novo meio de trabalho. Estou agregando um novo conhecimento ao meu ofício como ator e isso está me trazendo bastante satisfação profissional. Estou conhecendo gente bem interessante na Globo, na parte técnica e artística.
Como você reagiu ao destaque que teve em ''Cordel Encantado''?
A repercussão foi muito boa, além do que eu esperava. Houve, sem dúvida, essa história de passarem a me ver como galã. Esse universo de chamar atenção pelo físico é muito mais forte e presente na tevê e no cinema do que no teatro. Trato isso até com uma função dramatúrgica. Acho que o galã tem um papel na dramaturgia e tento cumprir esse papel dentro do espírito dramático exigido em novela ou minissérie. Mas minha preocupação é, obviamente, a essência do personagem. Quando a gente começa a se envolver com o papel e percebe o que nossa imagem provoca no imaginário das pessoas, pode começar a confundir o trabalho com a fantasia e aí se perder. Então prefiro me ater ao meu trabalho.


