Svetlana Malleva é uma russa de alma brasileira. O jeito de sorrir e de falar em nada lembram o estereótipo que costuma marcar o perfil de seus compatriotas. A indentificação com as coisas do Brasil e um bom humor tipicamente nacional dão uma pequena amostra de quem é Svetlana. ‘‘Ela é muito, muito divertida’’, dizem as meninas da equipe de Ginástica Rítmica Desportiva de Toledo (GRD).
A técnica e ginasta desembarcou no Brasil em fevereiro, a convite da Prefeitura de Toledo, para treinar a equipe de GRD da cidade. Do Brasil tinha poucas referências, entre elas o futebol e o samba. O pequeno contato com os costumes e tradições, porém, não tornaram mais difícil a adaptação de Svetlana.
Ela, que tem uma temporada de um ano para cumprir em Toledo, nesses quatro meses já descobriu o quanto tem em comum com os brasileiros. A começar com o gosto pelo samba. Pela televisão acompanhou o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Foi paixão à primeira vista. Svetlana ficou encantada com o ritmo, as fantasias e o espetáculo proporcionado pelas diversas evoluções na Marquês de Sapucaí.
Outro gênero musical que caiu nos gosto da técnica foi a Música Popular Brasileira. Em Toledo ela assistiu ao do show do grupo 14 Bis e sempre que pode vai ao teatro acompanhar outras apresentações musicais.
Nem a rigorosa mudança de clima é motivo de reclamações. O calor de quase 40 graus é quase abençoado para quem deixou para trás um frio de 28 graus negativos.
Em Toledo ela descobriu alguns prazeres simples. Um deles é colher mexerica do pé, de uma árvore próxima ao ginásio onde ela treina; a outra é passear no Parque Ecológico para dar comida aos peixes. O que a princípio parece banal, é apenas uma forma de apreciar um outro lado da vida. Ainda que Svetlana não faça menção a problemas de ordem econômica e social em seu país de origem, os vários conflitos vividos recentemente pela Rússia dão bem uma noção de como tem sido a vida na extinta União Soviética.
Aqui ela tem a possibilidade de estabelecer um contato maior com a natureza e apreciar a descoberta de pequenas coisas, como o sabor de novos alimentos, por exemplo. Feijoada e outros legítimos representantes da gastronomia brasileira perderam seu espaço para a banana frita e a mandioca cozida, no gosto da russa. Pratos que ela faz questão de exportar para a Rússia e sempre que pode estão em seu cardápio.
Barreira só mesmo a da língua. É difícil estabelecer com ela um ritmo de conversação que fuja dos sinais ou termos usados nos treinos. Nem a ajuda de um dicionário vem minimizando a deficiência. O vocabulário bastante reduzido é compensado pelos gestos que, na maioria das vezes, dizem tudo. As meninas que integram a equipe de GRD têm em Svetlana mais do que uma técnica; enxergam nela uma companheira.
Ainda que o rigor e a exigência nos treinos seja grande, os laços de amizade têm peso importante na formação das atletas. Tanto que a preocupação em formar boas ginastas vai além das quadras. Svetlana estende sua preocupação a outros cuidados, como alimentação e o apoio dos pais, fundamental para o desenvolvimento e desempenho das meninas.
Formada pelo Instituto de Pedagogia da Rússia, Svetlana nunca participou de uma Olimpíada. Apesar da excelente formação e de ter sido indicada para ministrar aulas fora do país, o sonho olímpico para ela esteve tão distante quanto para os milhares de meninos que no Brasil sonham em chegar a uma Copa do Mundo. O processo seletivo, além de muito rigoroso, conta com milhares de aspirantes a uma vaga na Seleção Olímpica.
Svetlana treinou até o ginásio e em seguida passou para a formação acadêmica. Segundo ela, muitas meninas na Rússia encerram cedo seu sonho de integrar a poderosa seleção Russa. Por isso mesmo é muito maior o prazer de ensinar e repassar técnicas que podem fazer de suas pupilas futuras campeãs. No Brasil ou em qualquer outro país ela sempre estará ajudando alguém a ir a um lugar mais longe, o que não necessariamente significa o lugar mais alto do pódium. Svetlana tem como princípio que todo o aprendizado em quadra pode ser usado na vida pessoal. Cada vitória em quadra é também um vitória fora dela.

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