São Paulo O inverno já chegou nas passarelas da moda. A partir desta semana começa a maratona de desfiles dos estilistas brasileiros. Em São Paulo, o Amni Hot Spot deu a largada, dia 14, com sua quarta edição. Dia 20, a Semana de Moda Casa de Criadores inicia a apresentação das coleções dos novos talentos do mundo fashion e, dia 27, na São Paulo Fashion Week (SPFW) desfilam os maiores nomes da moda nacional. Os cariocas não se intimidaram. Acostumados a entrar no calendário apenas quando o assunto é verão, o Fashion Rio apresenta no Museu de Arte Moderna sua primeira edição outono-inverno 2003, dia 3 de fevereiro.
Cada evento tem intenções diferentes com o mercado todos conquistaram seu espaço e a SPFW ganhou, merecidamente, o status cobiçado de ter espaço no calendário oficial internacional. O que aconteceu depois de muitas alfinetadas entre os organizadores dos desfiles nacionais. Hoje, a SPFW é considerada o 5º maior evento de moda, logo atrás das badaladas semanas de moda de Paris, Milão, Nova York e Londres. A edição que começa no dia 27 terá 40 desfiles
Entre coleções comerciais e conceituais, as tendências internacionais muitas vezes nem chegam por aqui. A maioria dos estilistas brasileiros prefere seguir uma linha independente para criar suas roupas. Mas, nas lojas do País, a maioria dos temas propostos nas passarelas internacionais fica disponível para o consumidor.
O professor de história da moda da Faculdade de Moda do Senac-SP, João Braga, afirma que até a falta de identidade será um dos estilos para o inverno 2003. ''A moda no século 21 é semelhante a uma linha de metrô. Cada estação é um estilo: vintage, desconstrutivista, ecológica, clubber e patricinha, entre outros. A releitura é o ponto central. A moda está reinventando a moda com idéias de rejuvenescimento e diferenciação.'' Segundo Braga, a novidade se torna difícil em modelagem e estilismo, por isso a tecnologia têxtil é a responsável pela inovação do setor. ''Mas, a moda traz originalidade e renovação porque se alimenta de política, religião, economia, arte.''
Os ''escritórios'' de moda, conhecidos como ''bureau'', realizam pesquisas que indicam o que a indústria está inventando em cores e tecidos, além da influência dos contextos sociais no consumidor. ''Os anos 60 trouxeram um explosão do comportamento jovem, dimensionando novas características na moda. Os jovens começaram a dominar'', diz Braga. Nessa época, o professor lembra que conflitos sociais eclodiam em regiões pelo mundo. Além disso, a arte, o design e a tecnologia começavam a influenciar o mercado.
Os temas do inverno 2003 já foram vistos em algum outro inverno, mas não faltam detalhes para atualizar todos os estilos. Segundo a consultora de moda da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Aissa Basile, a Índia e uma fusão asiática que segue da influência japonesa aos bordados chineses são os principais temas da próxima estação. ''Da Índia, os cashmeres, patchworks, túnicas e batas. E, principalmente do Japão, os vestidos que lembram quimonos.''
A moda feminina, segundo Aissa, também se aproveita dos ícones do universo esportivo. Modelos com base em joggings e trainings dos anos 80. As roupas com tecidos sintéticos, que remetem ao ski, surgem como outra forte tendência para um consumidor que curte moda, mas radicaliza em esportes.
No entanto, a principal tendência para mulheres, apresentada nas últimas semanas nas passarelas internacionais, revive a moda sensual e dramática. Nada de mocinhas românticas, como neste verão. A mulher fatal e com toques decadentes ganha atenção. É glamour? Sim. A mulher que consegue unir o visual sexy fatal com a decadência deve apenas preocupar-se com a fronteira do vulgar. Limites definidos, o resultado é uma mulher cheia de atitude.
O preto acetinado, roupas justas, e uma alma dark foram as rédeas do todo-poderoso Tom Ford nas coleções Gucci e Yves Saint Laurent. Outra constante nas passarelas do circuito Milão-Paris-Londres e Nova York foi o rústico, a aparência bruta que se mistura com materiais nobres. E alguns aspectos desse estilo já causaram polêmica: as peles. Mas, no Brasil, o último inverno mal motivou a saída de casacos pesados do armário. Peles, mesmo que sintéticas, são acessórios um pouco extravagantes para nosso clima tropical.
A referência às mulheres guerreiras é outra aposta para ser explorada com o jeans, a preferência mundial. Segundo o estilista e consultor de moda Fernando Aidar, as roupas estão mais ajustadas ao corpo e com detalhes em nervuras e efeitos sem acabamento, que completam a proposta rústica. ''A glória dos anos 70 continuará em alta com misturas de materiais como o veludo e camurça, calça boca de sino e estampas estilo flower power.''
O toque oriental também influencia novas versões para o jeans, com cós trabalhados imitando faixas orientais e bordados como aplicações. A viagem ao extremo oriente também inspirou as coleções de inverno de Moschino e Kenzo. As lavagens para os jeans continuam se multiplicando. Spray, resinas, glitters compõem efeitos do new hippie. Técnicas para aspectos envelhecidos, desbotados e escovados ganharam ajuda tecnológica, facilitando a produção em larga escala. Mas, vale lembrar que um visual único continua sendo resultado de produção artesanal. Nesse tema, para aproveitar a onda de peles que vai assolar o mundo, elas aparecem aplicadas nas calças, blazers e saias jeans.
Em São Paulo, os estilistas do Hot Spot que terminou na quinta-feira se mostraram em lua-de-mel com as artes plásticas. O evento, com direção de Paulo Borges o mesmo da SPFW , tem a proposta de lançar novos talentos e ajudá-los nos primeiros passos rumo ao glamour da fama. Nove estilistas recebem apoio desde a criação até a comercialização da marca. Parcerias como a da Rhodia facilitam o acesso ao segmento têxtil e produção das peças. Borges ressalta sempre que o Hot Spot não é um evento de moda, mas um projeto. A permissão para criar é total e, muitas vezes, olhos despreparados podem considerar a coleção desses novos talentos um tanto exótica para as ''pessoas normais''.

mockup