O professor de inglês e faixa preta 4ª Dan no karatê, Rubem Cauduro, de 52 anos, conseguiu um feito único em Brasília: foi convidado a ingressar no grupo de professores de defesa pessoal da Academia Nacional da Polícia Federal. Segundo Cauduro, que vive na capital federal há quatro anos e meio, o convite ocorreu durante um curso para professores de karatê, quando um diretor da Academia se interessou pela sua aula. "Fiz o curso de professores da Academia, que já foi inédito, pois eles não convidam não policiais ou militares, e comecei a ser chamado para dar cursos. Acho que sou o único civil que dá aulas junto com eles", conta Cauduro, que já ministrou cursos para os guardas do Supremo Tribunal Federal e policiais civis, militares e federais de vários estados do País.

Nascido em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, Cauduro mudou-se para Londrina com a família em 1976, quando tinha 13 anos. Foi na cidade que, ainda adolescente, começou a se dedicar às suas duas paixões: aulas de inglês e de karatê. "Quando criança, antes de me mudar para Londrina, morei por um período nos Estados Unidos. Comecei a dar aulas de inglês com 15 anos e não parei mais", comenta o professor, que também é proprietário de uma escola de idiomas na cidade. Já o karatê surgiu durante a busca por um esporte. "Eu fazia ginástica olímpica lá no Clube Canadá até que a modalidade foi extinta e não havia em nenhum outro lugar da cidade. Quando acabou eu fiquei perdido procurando uma atividade física. Até que uns amigos me levaram para o karatê e eu acabei gostando."

Cauduro conta que o ofício como professor de defesa pessoal surgiu da junção das duas atividades anteriores. "Através do karatê eu tinha um relacionamento com a Polícia Militar. Quando surgiram os cursos de defesa pessoal o material era importado. Havia uma dificuldade com o inglês e eles me chamavam. Já fui tradutor de curso da S.W.A.T. e de vários outros cursos para forças policiais. Aí passei a tomar interesse por isso", relata.

A mudança para Brasília, no entanto, ocorreu por influência do karatê. "Um dos principais motivos pelos quais me identifiquei com o karatê foi o professor Norio Haritani, uma pessoa muito importante na minha vida". De acordo com Cauduro, Haritani, que posteriormente se tornou monge budista em Brasília, foi muito mais do que um simples mestre. "O professor Norio foi uma inspiração em sua maneira de viver, de se comportar e nos seus valores". Após a morte do monge, Cauduro foi convidado a dar continuidade a um projeto de Haritani em uma academia de artes marciais para a paz na capital federal. "A causa era muito nobre. Não tive como negar." Ainda assim, ele mantém raízes fortes em Londrina, onde vivem sua esposa e dois dos três filhos. "Tento vir para Londrina pelo menos uma semana a cada mês."

Atualmente, Cauduro está à frente, junto com outros colegas, de outra academia de karatê em Brasília. A Associação Norio Haritani de Artes Marciais, outra homenagem ao mestre querido, sobrevive do patrocínio de várias pessoas e tem além das aulas regulares, cursos para jovens, adultos e crianças com poucas condições financeiras e pessoas com necessidades especiais. "Se estou em Brasília hoje é porque o professor Norio deixou laços muito profundos. Ele falava para a gente: 'nós temos que começar a mudar e melhorar esse país'. Acho que em Brasília posso dar continuidade às ideias dele", explica o professor, que segue tendo as aulas de inglês como profissão. "Tenho a satisfação de nunca ter trabalhado nenhum dia da minha vida. Sempre foi uma satisfação dar aula".

Pés no chão

Quem já viu Cauduro andando pelas ruas de Londrina, com certeza reparou em um detalhe bastante inusitado: o professor anda sempre descalço. Já conhecido por essa particularidade, Cauduro diz que o fato de não usar sapatos não está relacionado a nenhuma promessa. Trata-se de mais uma herança, mesmo que indiretamente, do professor Norio. "Isso começou na adolescência em uma época de muito frio em Londrina, quando o professor Norio sempre nos chamava atenção para levarmos roupas para doação, como uma campanha do agasalho. Algumas pessoas esqueciam e ele insistia. Até que certa vez ele disse: 'hoje é sexta-feira. Vocês vão trazer a roupa na segunda. Então aproveitem e experimente para dormir hoje, amanhã e domingo no chão da cozinha. Sem cobertor e sem roupa para que vocês vejam como essas pessoas que precisam estão se sentindo'", relembra.

Apesar de já ter levado uma peça de roupa, Cauduro decidiu aceitar o desafio do professor. "Foi horrível. Muito desagradável e quando fui para a academia na segunda-feira, me sentindo muito importante por ter feito aquilo, pensei o que eu posso fazer? Aí tirei o sapato e falei: 'olha professor, a partir de hoje não uso mais sapato'". Cauduro conta, que ao contrário do que ele esperava, Norio não deu muita importância ao fato. "Ele disse: está bom. Põe o seu sapato ali na caixinha".

A partir daquele dia, o professor de inglês resolveu deixar de usar sapatos para sempre se lembrar de que há milhares de pessoas que ainda passam fome e vivem sem roupas e sapatos. A experiência, conforme Cauduro, já rendeu várias histórias inusitadas. "Tem sido divertido. Tento levar tudo com bastante naturalidade".

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