Curitiba - O começo da vida profissional de Cassiano Pires, publicitário e artista plástico, se mescla tanto com sua vida pessoal que fica difícil perceber onde tudo começou. Autodidata, desenhista desde pequeno, e, na gíria, ''virador'' desde os 16 anos, quando os pais o obrigaram a trabalhar com alguma coisa e o incentivaram a fazer um curso profissionalizante de publicidade, Cassiano é um estudioso das artes. Um profundo observador que busca através de seu senso encontrar nos outros a arte que não consegue ele mesmo fazer só.
Quando começou a trabalhar, na década de 80, ele fazia estampas para camisetas em Porto Alegre, sua terra natal. Como os pais viviam se mudando, Cassiano foi colhendo cores e estilos pelos estados brasileiros onde morou. Rio de Janeiro, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Paraná, lugares onde as culturas se distinguem e foram dando a Cassiano as pinceladas em sua personalidade profissional. Nessas paradas, sempre mesclava o trabalho de publicitário e artista.
''Trabalhava com arte e como publicitário. Participava de algumas exposições também. Depois fui para Portugal. Pintava arte Naif porque no Mato Grosso, por exemplo, a arte é muito colorida, diferente daqui. Lá tem muito artista primitivista. Tinha muita influência disso. Muita cor no meu trabalho''.
Quando veio para o Paraná, uma nova mudança no trabalho do artista. ''Aqui no Paraná, assim como em Portugal, há uma ausência da cor. Tudo é muito escuro, falta cor em tudo. A paisagem também não tem muita cor'', explica relacionando as cores das pinturas àquilo que o artista capta nas ruas de lugares em que vive.
Hoje, há mais de 10 anos vivendo por aqui, Cassiano se dedica à captar outras sensações. Há cinco anos, ele desenvolve o projeto Caixa Lausac, onde os desenhos são feitos pela coletividade. Funciona assim: o artista coloca a caixa, uma cabine construída por ele, em um determinado lugar. Pode ser um bar da moda, um shopping, um centro cultural ou lugares mais alternativos. Dentro dela deixa uma caneta e um papel em branco para que o público faça seus desenhos. Estes são filmados por uma câmara instalada dentro da caixa e projetados para um telão fora dela.
E é a partir desta captação de material que Cassiano faz suas obras mais recentes. Depois de reunir os desenhos, ele os escaneia e coloca suas impressões em cima. ''Meu trabalho está muito técnico, racional, mais focado na forma e na experimentação como processo científico. Tudo que estou desenvolvendo tem esse cunho de pesquisa mesmo. Em 1991 comecei a colecionar esses desenhos coletivos através da Caixa Lausac. E é como se fosse uma armadilha para captar desenhos''. Desse jeito, Cassiano vai fazendo com que o coletivo produza para sua obra um ''emaranhado'' que já contabiliza mais de 300 trabalhos.
A idéia para começar a captar as imagens apareceu logo que Cassiano chegou em Curitiba. Um aniversário seu dentro da agência em que trabalhava levou seus amigos a irem para a sala de criação desenhar. ''Não queria fazer festa naquele ano, mas aí liguei para algumas pessoas e veio muita gente. Lá pelas tantas foi todo mundo para o departamento de criação e, quando eu vi, estava todo mundo desenhando''.
E o que o artista tira dessa experimentação? ''Fui me dando conta que o resultado daquilo era impossível de se obter de uma outra maneira. É o acaso que não tem um padrão, mas acaba tendo. Uma pessoa sozinha não consegue obter esse resultado. São vários estilos''.
Nessa mesma linha de pensamento, de incentivar a criatividade dos outros como forma de arte e como matéria-prima para sua própria criação, Cassiano acaba de ter um projeto seu selecionado no ''Cow Parade'', um projeto de um escultor suíço que já passou por 24 países. O projeto distribui três vacas de fibra de vidro branca, uma em pé, outra pastando e outra sentada para serem objetos de criação. Pela primeira vez no Brasil, o projeto selecionou cerca de 100 artistas de todo o País e vai para as ruas de São Paulo em 2005.
Na proposta de Cassiano, a vaca vai ''pastar'' com uma caneta amarrada no pescoço. ''Você recebe uma vaca branca para pintá-la. O conceito dele era um artista disponibilizando sua obra como suporte para outros artistas. Eu me apropriei colocando o público para pintar essa vaca''.
E é assim que o publicitário consegue casar seu trabalho de apresentar conceitos prontos em uma agência, com seu trabalho de artista. Se por um lado ele precisa criar produtos que passem para o público exatamente aquilo que seu cliente quer, em seu trabalho pessoal Cassiano faz exatamente ao contrário. Deixa que o coletivo lhe dite o que ele quer no momento.
Essa sensação de duplicidade complementa os desejos do artista de ser onipotente. ''Quero buscar a verdade. Ver o que está por trás das coisas. Fazer algo que não foi feito. Olhar para a natureza e ver que há uma ordem que surgiu de um caos. A sensação é de estar se sentindo um mini-Deus. Criando teu universo você está se expressando de uma maneira única. Não tem um motivo específico para eu fazer isso. Eu faço porque eu tenho uma voz esquizofrênica que me diz para fazer'' (risos).
Para finalizar: Lausac quer dizer casual ao contrário e as propostas de Cassiano acabam de ser selecionadas para participar de uma mostra na Espanha. Suas obras, frutos da mistura dos desenhos com sua interferência, estão sim dentro de um caos, mas apontam para uma necessidade mundial que a arte tem de fazer coisas novas.

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