Incansável mãe coragem
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domingo, 07 de novembro de 2010
Elaine Souza<br> Reportagem Local 
No próximo dia 11, Lucinha Araújo desembarca em Londrina para dar uma palestra sobre responsabilidade social, tema do qual entende bem e tornou-se autoridade desde que seu filho Cazuza, ícone do rock nacional, morreu em 7 de julho de 1990, em decorrência de uma doença que todos os anos vitima milhões de pessoas ao redor do mundo: a AIDS.
Ao completar 74 anos, Lucinha se mantém há 20 anos na linha de frente da Sociedade Viva Cazuza, fundada por ela no dia 7 de outubro de 1990. Com seu toque mágico e solidário, ela traz como principal essência de seu trabalho a missão de dar assistência para crianças e adolescentes carentes portadores do vírus da AIDS, além de assistência social a pacientes adultos em tratamentos na rede pública na cidade do Rio de Janeiro e difundir informações científicas sobre HIV/AIDS. ''Ainda é uma doença nova, que mata e que até hoje não tem cura. Acho que 50% é tratamento e 50% é amor e carinho. Ainda existe preconceito e isso atrapalha inclusive na recuperação dos soropositivos. Há também as dificuldades psicológicas, mas isso varia de pessoa para pessoa. O Cazuza, por exemplo, tinha uma cabeça muito boa. Ele era para cima. Isso vai muito de como a pessoa é'', contou ela para a FOLHA.
Dona de uma aplaudida integridade e coerência, os dias de Lucinha são moldados em cima de lições de vida. ''É por isso que para começar eu penso: não tenho essa doença e agradeço a Deus por isso. Vejo crianças todos os dias, bebês, e imagino o que elas fizeram. Temos que acreditar em Deus, senão...'', diz ela, que revela sua predileção pelos pequenos que, além da difícil convivência com a doença, ainda se deparam com a falta de uma estrutura familiar. ''Prefiro as crianças por serem mais inocentes. Elas conseguem ser felizes apesar da doença. A adulto tem culpa. Muitos passaram a doença para os filhos e têm um jeito diferente de encarar. Tenho 22 crianças e adolescentes morando aqui. São como filhos. Tenho um bebê de um mês que o pai está preso e a mãe no hospício''.
A batalha que essa mulher começou há duas décadas para presevar a memória do seu filho fez dela um ser humano mais forte, que transformou o sofrimento da perda na plataforma ideal para expressar tanto seus anseios humanos quanto seus ideais. ''Ninguém passa pelo o que eu passei e fica a mesma pessoa. A gente muda e eu mudei para melhor. Acredito que o sofrimento não existe só para te maltratar, mas para te fazer uma pessoa melhor. Passei a encarar a vida de outro jeito, nunca fui muito ligada a futilidades, mas se tinha algum resquício disso, eu com certeza perdi. Não sou nenhuma santa, mas virei uma pessoa melhor, com certeza''.
A vida do ídolo dos jovens brasileiros dos anos 80 ressurgiu através da memória dessa mãe fantástica e amorosa. Lucinha lançou duas obras: Cazuza - Preciso Dizer que Te Amo, e Cazuza - Só as Mães são Felizes, este sucesso de vendas que ganhou adaptação para o cinema batizado de 'Cazuza - o tempo não pára', com direção de Walter Carvalho e Sandra Werneck, estrelando nas telas de todo Brasil em 2004. ''Minhas motivações para escrever os livros vieram de uma rica convivência de vida com meu filho, e achei que as pessoas que conheceram ele queriam conhecê-lo mais intimamente. Serviu para expurgar meus demônios, me ajudou a colocar tudo para fora, não gosto de segredo e, para mim, contar essa rica experiência foi libertador. Foi uma história de amor muito linda que vivemos, apesar de triste e com final infeliz. As pessoas puderam conhecer o Cazuza ser humano, que teve uma história de vida muito bonita''.
Sobre o filme, Lucinha comenta: ''Foi honesto, foi fiel à realidade enquanto filme, mas faltou um pouco de poesia. Noventa minutos é pouco tempo para contar uma vida rica como a dele. Tinha que ser minisérie''.
A exemplo do filho, ela também mostrou-se corajosa quando, aos 69 anos, descobriu um câncer. Medo da morte? Sim, ela teve. Mas foi no exemplo e legado deixado por Cazuza que se apegou e continua encontrando inspiração para sua vida, mantendo-se célebre no que diz respeito a ser um exemplo de mulher. ''Descobri a doença e lembrei que meu filho tinha 28 anos quando soube que tinha HIV, e ele foi tão corajoso, nunca produziu tanto. Acho que fiquei pensando: que rídiculo, vou fazer 70 anos e estou com medo de morrer. Meu filho com 32 anos morreu. O tempo inteiro eu lembrava do meu filho. Depois disso coloquei marca-passo e tenho nove stents no coração. Enquanto meu coração bater, estou aqui'', relata ela.
Como presidente de uma respeitada instituição, Lucinha Araújo segue cheia de metas e fazendo do sofrimento um modo de ajudar o próximo. ''Dou e recebo aqui, venho todo dia recarregar as minhas baterias''. Afinal, para essa extraordinária mulher, o 'tempo não pára'.


